A TARDE MEMÓRIA
Saiba como o socorrismo se profissionalizou na Bahia
Serviços de emergência existem desde os anos 1940, mas a chegada do Samu à Bahia, há 21 anos


Um Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou um infarto; um trabalho de parto em hora inesperada; uma ocorrência na rodovia ou, ainda, dezenas de feridos em tragédias climáticas. Em todas essas situações, o socorrismo está presente e é definitivo para salvar vidas. Mas, nem sempre teve as características atuais. Antes da chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) à Salvador, em julho de 2005, ou mesmo da atuação de unidades como o Salvar, do Corpo de Bombeiros, o que havia não só na Bahia, mas nacionalmente, era atendimento pontual, trabalho voluntário e a solidariedade de estranhos.
O trabalho de prestar auxílio em emergências médicas é tão importante que tem data comemorativa, 11 de Julho, o Dia Nacional do Socorrista, criada em alusão ao trabalho de uma rede de voluntários no país, o Grupo de Resgate Voluntário Anjos do Asfalto, instituído em 2005 no Rio de Janeiro e com atuação em outros estados, principalmente em acidentes nas rodovias. As ocorrências nas estradas e em vias públicas, além de incêndios e outras fatalidades também são a área de atuação do Corpo de Bombeiros e do Salvar.
Nos primórdios da história do socorrismo no Brasil e também na Bahia, por sua vez, operava o Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência da Previdência Social (Samdu), instalado em 31 de dezembro de 1949, a partir do decreto federal 27.664. O Samdu funcionou até 1966 e oferecia atendimento médico domiciliar e socorro urgente para ao segurados e beneficiários dos institutos e caixas de aposentadorias e pensões.
A estruturação do Samu, no começo dos anos 2000, foi além desse socorro imediato e importantíssimo prestado pelos serviços pontuais já existentes. A ideia era uniformizar o atendimento pré-hospitalar, prestando o socorro imediato e, a partir de um sistema de regulação, encaminhar cada caso para a unidade de saúde adequada, a depender da complexidade da situação.

"Antes do Samu, o socorro para quem se acidentava na rua, por exemplo, era parar o primeiro carro, colocar o paciente dentro da mala ou no banco e levar para a primeira porta hospitalar aberta, que nem sempre era a adequada para o que o paciente precisava", explica o atual gerente-executivo do serviço, Ivan Paiva Filho, que é também médico emergencista e cirurgião.
Ainda assim, quando o Samu começou a ser implantado, várias cidades brasileiras já possuíam um serviço avançado de atendimento pré-hospitalar, como aponta Oswaldo Bastos, médico intervencionista e um dos responsáveis por implantar o Samu em Salvador.
O Samu, por sua vez, não chegou à Bahia pela capital. A primeira cidade baiana a ter Samu foi Vitória da Conquista, que instalou o serviço em 27 de fevereiro de 2004, como registra a edição de A TARDE do dia 29: "Com uma população superior a 300 mil habitantes e um atendimento de saúde que envolve 66 municípios da região sudoeste do Estado, Vitória da Conquista passa a integrar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu-192)”.
Na época, o serviço, só funcionava em 16 cidades do país e Conquista foi, ainda, o primeiro município no Norte e Nordeste a receber a iniciativa, como explica a mesma reportagem. A partir daí, vieram em sequência as cidades de Juazeiro, Jequié, Eunápolis, Itabuna e Feira de Santana.
Em Salvador, o Samu começou a funcionar em 18 de julho de 2005. A TARDE anunciou a chegada do serviço à cidade na edição do mesmo dia e, nos dias seguintes, cobriu a instalação das primeiras duas unidades. "O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu-192) será lançado hoje em Salvador. Estarão disponíveis 30 ambulâncias, sendo seis equipadas com UTIs móveis e as demais com atendimento básico para a população. O atendimento será feito, em regime de 24 horas, por uma equipe de profissionais de saúde que prestarão serviços de cirurgia, pediatria, obstetrícia e psiquiatria".
Escolha das cidades
Inspirado no modelo francês de Atendimento Pré-Hospitalar (APH), o Samu foi oficialmente criado no Brasil a partir de 2003, transformando a forma como o sistema de saúde do país respondia às emergências médicas até então. Buscando agilizar os atendimentos especializados em situações críticas, o serviço se tornou uma peça fundamental da saúde pública.
Para começar a implantar o Samu nacionalmente, o Ministério da Saúde selecionou 17 cidades para receberem o serviço de forma antecipada, antes da regulamentação, ocorrida em abril de 2004. "O modelo europeu começou atendendo casos clínicos, na década de 1960, sobretudo pessoas mais velhas que, por causa da Segunda Guerra Mundial, envelheceram sem ter quem cuidasse delas, principalmente na França. Nos Estados Unidos, no meio da Guerra do Vietnã, cientistas mostraram que pessoas estavam morrendo mais em acidentes nas estradas do que na guerra e o serviço de atendimento pré-hospitalar nas estradas teve início", explica Oswaldo Bastos.

Hoje, ambos os modelos atendem qualquer tipo de ocorrência, mas Oswaldo Bastos estima que o Samu do Brasil tenha sido o primeiro serviço fundado atendendo de tudo: casos clínicos, traumáticos, pediátricos, obstétricos e psiquiátricos. "O serviço se valeu da experiência anterior desses países", afirma.
O médico intervencionista acrescenta que a responsável por criar o Samu no Brasil foi a Rede Brasileira de Cooperação de Urgência que, depois de observar o gargalo que havia no atendimento pré-hospitalar no país, lançou o Samu em 29 de setembro de 2003. O serviço foi regulamentado em 27 de abril de 2004.
"O projeto original do Samu de Salvador não foi de minha autoria, mas sim do doutor Paulo de Tarso. Ele havia feito um projeto para a implantação que, por uma série de questões, não foi usado. Ele então me cedeu esse projeto e nós fizemos as modificações e as adaptações necessárias para a cidade. Esse foi o primeiro Samu microrregional do país e entrou em funcionamento já atendendo Salvador, Lauro de Freitas, Itaparica e Vera Cruz ", detalha Oswaldo Bastos.
A inauguração do serviço na capital foi parcial, com duas equipes de suporte avançado e sete de suporte básico prontas. “As demais estão sendo contratadas e em fase de treinamento. O coordenador disse que os profissionais, que começaram a ser treinados no último sábado, estão devidamente preparados para o serviço, por terem experiência comprovada em urgência e emergência", explica a A TARDE, na edição de 19 de julho de 2005.
Treinamento
A reportagem em A TARDE explica que, na semana seguinte à estreia do serviço na capital, as equipes de suporte avançado seriam ampliadas para seis e as de suporte básico, para 24. Ter equipes suficientes foi uma das primeiras dificuldades do Samu em Salvador e houve um grande esforço para capacitar todos que ingressaram no serviço. O problema é que há 21 anos ainda não havia nenhuma instituição com condições de apoiar o processo de formação e a própria equipe original é que precisou encontrar formas de preparar seus profissionais.
Os médicos Oswaldo Bastos e Ivan Paiva, por exemplo, estavam entre aqueles que, há 21 anos, saíram do estado para se capacitar e voltaram para ensinar o que aprenderam às equipes de Salvador. "Brincamos que no começo do Samu a gente tinha seis vagas para cada médico, porque não tinha profissional que queria trabalhar no Samu. Enquanto hoje, com alunos de todas as faculdades de medicina de Salvador, de uma forma ou de outra, passando um período do internato no Samu, temos uma fila de médicos querendo trabalhar no serviço, com estudantes do internato já perguntando se tem vaga", conta Oswaldo Bastos. Segundo ele, o Samu de Salvador foi um dos pioneiros no Brasil a introduzir o estágio no serviço na grade do internato das escolas de medicina.

Carreira
O estágio no Samu fez com que muitos profissionais passassem a enxergar a emergência como possibilidade de carreira. Hoje, a Bahia conta com diversos médicos emergencistas formados a partir do serviço e que abraçaram a especialidade, que é relativamente nova e só foi reconhecida oficialmente em 2016. "Conseguimos alterar o currículo das faculdades de Medicina. Atualmente, os estudantes que passam pelo Samu conhecem o atendimento nas ruas, nas ambulâncias e a regulação. Ao se formarem, compreendem a rede de urgência como um todo, já que o Samu é um grande observatório da rede", diz Ivan Paiva.
O núcleo de educação permanente do Samu é bastante ativo, com a capacitação contínua dos socorristas envolvendo áreas como pediatria, materno-infantil, trauma, cardiologia e procedimentos básicos. "E essa é uma palavra bem interessante, que não é categoria profissional, mas sim o nome dado a quem está ali trabalhando no atendimento pré-hospitalar: o médico é socorrista, o condutor [da ambulância] é socorrista, o enfermeiro é socorrista... Mostra a importância de você ter um profissional qualificado que saiba o que fazer em situações como a de um paciente que sofre um acidente de moto e está com um sangramento importante, por exemplo", explica Ivan Paiva.
O conhecimento multidisciplinar é essencial pela diversidade de atendimentos do serviço, desde os mais simples aos mais complexos. Ao longo dos anos, lembra Ivan Paiva, o Samu esteve presente em diversas ocorrências de grande repercussão. Em 2006, por exemplo, atuou no naufrágio de um catamarã que vinha de Morro de São Paulo, quando sua lancha resgatou mais de 20 pessoas, entre elas uma médica do próprio Samu. Outros acidentes semelhantes marcaram a história do serviço, como o desabamento na Fonte Nova, em 2007, e o naufrágio da lancha Cavalo Marinho 1, em 2018.
Disque 192
Para que a ampla cobertura funcionasse, era fundamental garantir que o serviço fosse acionado rapidamente e de qualquer lugar. Com esse objetivo de tornar o atendimento mais ágil e acessível é que o governo federal instituiu, poucos meses após o lançamento do Samu, o número único 192. "Ficou estabelecido o acesso nacional do Samu pelo número 192, que será disponibilizado pela Anatel, exclusivamente às centrais de regulação médica vinculadas ao referido sistema. Os municípios ou regiões que pretenderem aderir ao Samu deverão formular requerimento aos ministérios da Saúde e das Comunicações, que decidirão, conjuntamente, sobre a assinatura de convênio para a disponibilização do número de acesso nacional, bem como a definição dos procedimentos a serem adotados”, explica A TARDE na edição de 2 de maio de 2004.
Infelizmente, ainda nos primeiros dias de funcionamento em Salvador, o número recebeu inúmeros trotes, como reporta o jornal na edição de 21 de julho de 2005, somente três dias após a inauguração do serviço. "Das cerca de mil ligações que chegaram até ontem ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo telefone 192, 82% foram trotes ou tinham origem desconhecida. Além de ocupar o sistema telefônico, as ‘brincadeiras’ fazem com que técnicos percam tempo com a checagem da origem das ligações e as unidades móveis se desloquem sem necessidade. Para inibir a ação, considerada nociva, o serviço será dotado de sistema computadorizado com identificador de chamadas ainda esta semana". Apesar de todas as medidas, os trotes persistem, 21 anos depois.
Entre 2005 e 2010, o Samu viveu uma fase de expansão, com a ampliação do serviço para capitais e grandes cidades brasileiras. "Se em 2005 a gente tratava 0% dos pacientes infartados, hoje a gente garante até 90% de sobrevida em casos de infarto com a estratégia de repercussão", explica Ivan Paiva.
O Samu de Salvador tem um protocolo pioneiro na América Latina, o IAM, implantado em julho de 2009, e que revolucionou o atendimento às vítimas de infarto na capital e região metropolitana. O serviço também se consolidou na capital ao se integrar com as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e hospitais de referência. Nos últimos 10 anos, também foram incorporadas novas tecnologias e modalidades de resposta, como as motolâncias, que agilizam o socorro em áreas de difícil acesso, e o uso de helicópteros.
"A abertura das UPAs ampliou muito a nossa capacidade de acolher os pacientes, assim como outras unidades de atendimento com serviço de urgência e emergência, para que a gente possa não só atender bem em campo, mas encaminhar o paciente para ter continuidade na rede hospitalar", comemora o gerente-executivo do Samu.
Nos últimos anos, o serviço adotou, ainda, sistemas de georreferenciamento para otimizar o deslocamento das equipes e ampliar a cobertura. Hoje, o Samu conta com mais de 400 ambulâncias na Bahia.
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE