HISTÓRIAS & SABORES
Em Jaguaquara, baianos descobrem a comida dos Italianos
Massas, molhos, bruschettas: hipnótica e universal, a comida italiana exerce fascínio sobre os brasileiros
A cena transformou-se em um clássico do cinema e já fez
muita gente ir para a cozinha depois de assistir a alguns deliciosos trechos da
película. O filme é Julia & Julie, cujas cenas criminosas ficaram na
lembrança dos amantes da telona e da gastronomia.
Dentre tantas passagens marcantes e saborosas, é possível
que muitos recordem da escritora e amante da gastronomia Julie degustando, com
uma avidez de dar água na boca, pedaços de pães entupidos de tomates, queijo e
manjericão. O nome dessa delícia, preparada tão gostosamente, é brusqueta, ou
bruschetta, no idioma original, uma comida de origem italiana.
Hipnótica e universal, a comida italiana exerce um enorme
fascínio sobre os brasileiros. Na Bahia, basta dar uma rápida olhada nos
inúmeros restaurantes da cidade para perceber a grande quantidade de
estabelecimentos que oferecem iguarias à italiana. A comunidade não é, nem de
longe, tão grande como a espanhola no estado, mas de há muito os italianos já
ensaiavam dar uma chegada por essas bandas.
Um dessas investidas ocorreu na Bahia do século XIX, mas,
após a Segunda Guerra Mundial, nos anos 1950, uma nova leva de imigrantes se
estabeleceu e aqui firmou morada, implantando colônias de agricultores nas
cidades de Jaguaquara – 41 famílias, mais precisamente –, Itiruçu, no Sudoeste
baiano, e Vila de Abrantes, em Camaçari. Ao longo dos séculos, as famílias
vieram de várias cidades, entre elas Abruzzo, Pescara (sede da Província),
Téramo, Tipagati, Monte Silvano, França Villa Al’More e Cheitti, segundo o
professor aposentado pela Ufba Armando Rosa e o professor aposentado Lígio
Farias, que foi do famoso Colégio Batista Taylor-Egídio, jaguaquarenses. A história desses
imigrantes está completando 72 anos.
Os italianos Marisa Palmarella e Antônio Martinelli eram
pequenos quando chegaram à Bahia e se estabeleceram na colônia de Jaguaquara.
Os dois se casaram e tiveram filhos. Sr. Antônio Martinelli, apesar de acamado,
ainda lembra de alguns episódios envolvendo o grupo logo que chegou à colônia.
Uma história célebre e engraçada é contada até hoje e merece registro. As recém-chegadas famílias estavam a laborar nas terras jaguaquarenses, quando avistaram uma “pollo selvático”. Come no? Era um urubu que fora confundido com uma portentosa galinha selvagem. Sr. Antônio diz que as mulheres não contaram conversa. Depenaram o bicho e chegaram a cozinhar, mas a carne era tão dura que ficou impossível de degustar.
“Doravante, a culinária italiana passou a fazer parte do cardápio das nossas comemorações
Lígio Farias - professor
Da famosa história do urubu à intervenção gastronômica por
terras baianas, os italianos cativaram os nativos com sua comida típica. O
professor Lígio Farias ressalta que o povo italiano “também mudou Jaguaquara na
gastronomia. O povo jaguaquarense passou a conhecer a pizza, a macarronada.
Muitos pratos que hoje são saboreados por todos nós foram trazidos pelos
Italianos”.
Ele também conta que tudo era novo para os baianos.
“Doravante, a culinária italiana passou a fazer parte do cardápio das nossas
comemorações, sobretudo a macarronada, a pizza e o ravióli”.
A massa, como não poderia deixar de ser, era o alimento
primordial para a italianada, que não tinha equipamento e fazia tudo colocando
a mão, literalmente, na massa. Mas também tinha o pão, fundamental na mesa dos
italianos, e a brusqueta.
“Era costume dos italianos comer a brusqueta, mas não era
essa que hoje o povo conhece. Antigamente, você pegava o pão italiano, colocava
azeite de oliva, semente de tomate e comia a qualquer hora. Alguns italianos
mais velhos comiam com vinho. Lá na Itália quase não existia café, era raro, lá
era novidade, o consumo maior era o vinho com pão. Parte dos que chegaram
continuou usando vinho pela manhã. Meu sogro mesmo... o café dele era vinho
pela manhã”, conta Marisa Palmarella, revivendo as lembranças e histórias
cultivadas ao longo das décadas.
Segundo muitas informações gastronômicas colhidas aqui e
acolá, a bruchetta vem da palavra brusciato, que significa tostado ou torrado.
E tem este nome porque veio, dentre outras regiões italianas, de Lazio,
Abruzzo. Na região da Toscana o nome é fettunta, que é a união de fetta e unta,
isto é, fatia untada com azeite de oliva. Mas, pelas leituras e depoimentos,
parece que um ou outro ingrediente, bem como o modo de fazer, muda de região
para região.
Há quem relacione a brusqueta aos trabalhadores rurais, que
labutaram na produção de oliva. Eles assavam os pães amanhecidos e depois
colocavam uma porção de azeite, generosamente.
De acordo com o chefe de comida italiana Celso Vieira, do
restaurante Pasta em Casa (@pastaemcasa), “brusqueta é prato barato e de origem
humilde. Originalmente é uma fatia de pão tostada com tomates picados e
temperados com alho, manjericão e azeite de oliva”.
Ele ensina que o pão ideal é aquele de casca mais grossa. “A
fatia não deve ser muito fina para que as duas superfícies fiquem crocantes,
mas reste um miolo macio. Do antepasto tradicional e simples até os dias de
hoje, a principal alteração foi a introdução de coberturas variadas, com
queijos, verduras grelhadas, embutidos, patês, molhos exóticos, trufas, dentre
outros. No Pasta em Casa temos duas versões: a clássica com tomates e uma
versão mais sofisticada com queijo brie, rúcula e presunto parma. Pão quente e
ingredientes frios, sempre!”.
E para homenagear nossos irmãos italianos, há 72 na Bahia,
abaixo uma versão da deliciosa receita feita por Celso Vieira, do Pasta em
Casa. Refestele-se!
BRUSQUETA
5 fatias de pão rústico amanhecido
20ml de azeite
2 tomates graúdos maduros e firmes, picados em cubos
pequenos
Sal a gosto
Pimenta-do-reino moída (na hora é melhor)
Folhas de manjericão
Como fazer
Corte o tomate em cubinhos e tempere com azeite, manjericão,
pimenta-do-reino, sal a gosto. Passe levemente a mistura no fogo e reserve. Em
seguida, pegue as fatias de pão, corte em rodelas, regue com azeite e leve ao
forno até ficarem douradas. Para finalizar, coloque sobre elas a mistura do
tomate e adicione algumas folhinhas de manjericão. Buon appetito!
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