POLÍTICA & MEMÓRIA
Campanha da mudança: vitória histórica de Waldir Pires completa 40 anos
A Tarde Política e Memória resgata eleição baiana de 1986


“Já comi, já bebi. Agora vou votar em Waldir”. A frase, usada demasiadamente pelos baianos em 1986, 40 anos atrás, soa estranha nos dias atuais, mas explica uma das vitórias mais avassaladoras registradas nas urnas do estado em todos os tempos. Neste ano, o ex-ministro da Previdência, Waldir Pires (PMDB), foi eleito governador da Bahia.
O A Tarde Destaque desta semana traz os detalhes da famosa ‘campanha da mudança’ de 1986, que alterou o tabuleiro político da Bahia e estabeleceu uma nova ordem.
Altos e baixos
Natural da pequena Acajutiba, em 12 de outubro de 1926, Waldir Pires colecionou altos e baixos na sua longa trajetória política. O baiano foi personagem importante no cenário nacional nos anos que antecederam o golpe de 1964.
Entre 1959 e 1963, Waldir exerceu o mandato de deputado federal. Em 1962, enquanto estava na Câmara dos Deputados, o parlamentar arriscou sua primeira candidatura ao governo da Bahia, pelo antigo Partido Social Democrático (PSD), do ex-presidente Juscelino Kubitschek, enfrentando Lomanto Júnior, do PL.
Waldir foi derrotado por Lomanto, tendo 362.428 votos, vencendo em 124 municípios baianos. O governador eleito teve 396.051, uma diferença de apenas 33.623 votos.

Sem mandato, Waldir Pires foi escalado para o Conselho Político do presidente João Goulart (PTB). No ano seguinte, em 1964, com a deposição que culminou com a queda de ‘Jango’, como era conhecido o chefe do Planalto, o político precisou deixar o país.
O primeiro destino de Waldir foi o Uruguai, partindo para a França ainda na década de 1960.
Retorno ao jogo político
Já no Brasil, após o exílio no exterior, Waldir Pires voltou ao jogo político na década de 1980, participando da reorganização do PMDB. Candidato ao Senado em 1982, foi novamente derrotado nas urnas.

Com a transição da ditadura para a democracia, durante o governo José Sarney, fez parte do ‘esquadrão’ de baianos da Esplanada dos Ministérios, ao lado de nomes como Antônio Carlos Magalhães e Roberto Santos.
Sua atuação como ministro da Previdência Social lhe colocou em evidência, sendo alçado ao posto de principal opositor ao chamado ‘carlismo’, grupo liderado por ACM (PFL), que comandava o estado desde a ditadura.

Em 1985, Waldir já era considerado o nome ideal da cúpula do PMDB para ser candidato ao governo. Desde então, o ministro admitiu que poderia estar à disposição do partido para o projeto.
É algo honroso para qualquer político governar o seu estado
Waldir Pires
A campanha da mudança
Em abril de 1986, os dois grupos políticos, governo e oposição, já haviam definido os seus candidatos. Enquanto o governador João Durval (PFL) apostou em Josaphat Marinho (PFL), ex-deputado estadual e conhecido jurista, o PMDB optou pela candidatura de Waldir, que conseguiu atrair o ex-prefeito de Guanambi, Nilo Coelho, antigo aliado do bloco governista, como vice.
Na época, o jornal A Tarde registrou as expectativas dos dois lados para os próximos meses.
“Existe, hoje, na Bahia, a vontade política e a vontade popular em favor das mudanças que a candidatura de Waldir Pires representa. Daí não temos dúvidas quanto à sua vitória”, declarou o senador Jutahy Magalhães (PMDB).

As primeiras pesquisas apontavam um cenário favorável a Waldir, que despontava com folga nos levantamentos. Ao longo dos meses, o ‘peemedebista’ conseguiu firmar alianças com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Partido Democrático Trabalhista (PDT) e Partido Comunista Brasileiro (PCB).

“O PCdoB decidiu que vai apoiar o candidato do PMDB à sucessão estadual, Waldir Pires, mas "na base de compromissos políticos e programáticos a serem assumidos publicamente", diz trecho de reportagem do jornal A Tarde.
A coligação progressista ‘A Bahia Vai Mudar’ foi encabeçada por PMDB, PDT, PCB, PCdoB e PSC, enquanto o Josaphat Marinho e o PFL tiveram PDS, PTB e PDC, no arco registrado como ‘Aliança Democrática Progressista’.
Vitória avassaladora
O dia 15 de novembro de 1986 confirmou o que a campanha, que conquistou amplo apoio de diversos setores políticos e da sociedade baiana, já reservava: Waldir Pires venceu com votação recorde para a época.
Waldir obteve 2.675.108 votos, contra 1.218.520 votos de Josaphat Marinho. Eleito em 1986, o novo governador tomou posse em março de 1987, ao lado de Nilo Coelho.
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Renúncia e aventura presidencial
Apesar do recorde de votos, Waldir Pires não completou o mandato, deixando o governo em 14 de maio de 1989. A renúncia tinha um objetivo: se cacifar para a disputa presidencial que aconteceria em novembro do mesmo ano, a primeira direta desde 1960.
Waldir não encabeçou a chapa, sendo vice de Ulysses Guimarães (PMDB). A aliança, no entanto, não teve sucesso nas urnas, ficando em sétimo lugar, com 3 204 996 de votos.
O ex-governador da Bahia morreu em 22 de junho de 2018, aos 91 anos.
