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RUMO À ESPERANÇA

Cia Baiana de Patifaria comemora 40 anos de história com nova peça

Nova comédia usa o humor para debater a crise nos espaços culturais

Mariana Abreu*
Por Mariana Abreu*
A luta pela sobrevivência da arte pauta o novo espetáculo da Companhia Baiana de Patifaria em Salvador
A luta pela sobrevivência da arte pauta o novo espetáculo da Companhia Baiana de Patifaria em Salvador - Foto: Divulgação

A Companhia Baiana de Patifaria abre as celebrações de seus 40 anos nos palcos, encenando A Vida é um Cabaré - décima montagem do grupo -, que tem estreia agendada para esta sexta-feira, 31 de julho, no Teatro Sesi Casa Branca (Caminho de Areia).

Com dramaturgia assinada por Lelo Filho e Vini Morais (a mesma dupla que criou Siricotico, outra montagem da trupe), A Vida é um Cabaré é uma comédia musicada, que dá continuidade ao trabalho de pesquisa de uma trupe que sempre tratou de assuntos do dia a dia, gerando reflexão sobre o que acontece à nossa volta, através do riso.

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O espetáculo somará o humor da Cia à música para refletir sobre a ambição em contraponto ao poder da arte nos bastidores de um teatro prestes a fechar as portas, e retratar a difícil vida de quem se dedica a essa arte e segue resistindo.

A história se passa em uma província chamada Utopia, em que duas irmãs, Dalva e Dolores Aguilar, nomeadas em homenagem às cantoras Dalva de Oliveira e Dolores Duran, herdam dos pais o Teatro Pindorama, um local já decadente, com diversas dívidas acumuladas.

Enquanto Dalva, interpretada pelo coautor, ator e diretor Lelo Filho é uma representante da classe artística, que não mede esforços para preservar o espaço, sua irmã Dolores, interpretada pelo ator Rodrigo Villa, prefere se desfazer do problema, vender o teatro e ficar com o dinheiro.

Do lado de ‘Utopia’, há uma província chamada ‘Distopia’, em que os teatros, bibliotecas, livrarias já foram fechados e dois personagens surgem: Elizeth, interpretado pelo ator e também diretor, Daniel Marques, e Jatobá Cansanção, interpretado pelo ator João Victor Sobral.

Eles chegam para atrapalhar um pouco os planos daqueles que estão lutando para preservar o Teatro Pindorama, um nome que faz alusão ao Brasil e ao cenário crítico que o País tem atravessado, segundo o diretor Lelo.

“A rivalidade entre as duas irmãs é o mote do espetáculo, e aí entram três outros personagens que interagem e têm uma importância muito grande na virada dessa história, do que vai acontecer com o Teatro Pindorama, que representa um pouco desse Brasil que vivemos, que precisa de tantas urgências, emergências e cuidados”, explica Lelo, um dos fundadores da Companhia Baiana de Patifaria, que enxerga na trajetória de Dalva muita semelhança com sua própria história de vida.

“Minha personagem é essa representante da classe artística que luta até o fim para que o teatro não seja fechado. Ela vai dar a vida, o sangue, pelo espaço e acho que a rivalidade com a irmã Dolores representa muito a minha alma de artista, de ter ficado e tentado fazer teatro em Salvador, apesar de todas as dificuldades, de estar vendo casas de espetáculo serem fechadas, mas, ao mesmo tempo, outras serem abertas e é isso que me dá esperança”, reflete o artista.

Ele destaca a necessidade de o poder público direcionar mais atenção e verbas aos fazeres culturais e artísticos. “Espero também que os gestores, em todas as esferas do governo, possam olhar para esse assunto com mais dedicação, que eles se dediquem melhor à cultura, que pensem quais isenções e possibilidades podem ser dadas a quem se dedica a abrir e manter um teatro”, enfatiza o ator.

Esforço coletivo - A Companhia Baiana de Patifaria surgiu em 1987, na capital baiana, sob idealização dos atores Moacir Moreno e Lelo Filho, que se juntaram aos, então, assíduos frequentadores de plateias e bastidores do teatro baiano, os amigos Eduardo Leal, Tom Carneiro e Fernando Marinho.

Celebrados essas quatro décadas de história, com espetáculos que fizeram parte da rotina e história do público da Bahia, como Noviças Rebeldes, Abafabanca, 3 em 1, Vaca Lelé e uma das mais longevas e conhecidas montagens, A Bofetada, que há mais de 30 anos alegra os baianos, o diretor da Cia, Lelo, destaca os grandes entraves que tiveram que enfrentar nesse período para chegar até a esta décima montagem.

“Nós começamos em uma época que o público baiano se deslocava e lotava os teatros para assistir especialmente artistas de fora, de televisão, até que no final dos anos 1980 para 90 houve um interesse maior por produções de artistas locais, para o que era feito aqui”, conta Lelo.

“E isso gerou a criação de muitos grupos, de artistas em carreira solo, de um renascimento do teatro com uma força que dura até hoje, porém estamos distantes dos grandes centros em que circula a maior parte da verba destinada à cultura. Nós vivemos em uma espécie de periferia e é por isso que é importante dizer que celebrar 40 anos com um novo espetáculo, através da Fundação Gregório de Mattos, é tão importante”, comemora o ator.

Espaço de discussão - Com 10 peças no repertório, a Companhia Baiana de Patifaria sempre tratou de temas importantes e presentes na sociedade, de maneira leve e brincalhona, daí o termo patifaria no nome do grupo.

“Sempre tratamos de temas sérios por meio da brincadeira, do improviso, da patifaria. É assim, desde a nossa primeira peça Abafabanca, em 1987. A importância da educação e a importância da arte sempre estiveram nas entrelinhas dos nossos espetáculos”, lembra Lelo.

“Com A Vida é um Cabaré nos debruçamos sobre o mundo da arte, os bastidores. Já abordamos esse tema em A Bofetada, Noviça Rebelde, Siricotico, mas dessa vez voltamos com uma roupagem diferente”, explica o ator baiano.

“Falamos disso, através da metáfora, do humor, com personagens extremamente engraçados, como as irmãs Dalva e Dolores Aguilar, a Madame Petúnia, que as viu crescer, além de outros dois personagens de Distopia, a Elizeth Salazar e o Jatobá Sansão, dois personagens que dão um novo rumo para a rivalidade das irmãs…falar mais do que isso seria spoiler”, brinca o ator.

Madame Petúnia, interpretada pelo ator e também figurinista Maurício Martins, é uma figura central do espetáculo por ser a responsável pela reconciliação das irmãs e por tentar, a todo momento, solucionar o problema do desfecho do Teatro Pindorama.

“Madame Petúnia é uma mulher que dedicou a vida ao Teatro Pindorama. Ela não se casou e se dedicou exclusivamente à arte. Ela viu Dalva e Dolores nascerem e auxiliou na criação das meninas. Ela exerce essa função maternal, especialmente depois da morte dos pais delas. São as filhas que nunca teve”, ressalta Maurício, que também explica o desafio em conciliar a função de ator com a de figurinista da montagem.

“Já fiz mais de 50 espetáculos como figurinista, aderecista, peruqueiro, mas nunca como ator e figurinista ao mesmo tempo. Então, para mim, tem sido uma experiência incrível e um desafio diário, porque, às vezes, me pego, na hora em que estou em cena, olhando o figurino do colega, vendo se está tudo ok e isso atrapalha um pouco. Então, tem sido um exercício muito importante e prazeroso, além de ser um prazer inenarrável construir o meu próprio figurino”, reflete Maurício.

Para o ator João Victor Sobral, que interpreta o vilão Jatobá Cansanção, tem sido uma experiência muito divertida interpretar esse homem e explorar as suas dualidades e ridicularidades.

“Ele é uma pessoa que se apresenta como bonzinho, como solução para os impasses presentes na peça, mas depois é revelado como alguém com interesses predatórios. Tem sido divertido pensar nessa vilania ridícula, dentro de sua maquinação, de seu esquema maquiavélico mesmo”, enfatiza Sobral.

Mensagem final - Ao abordar conflitos, confusões e o desespero da sociedade em manter, apesar das dificuldades, o Teatro Pindorama aberto, Rodrigo Villa, que interpreta a irmã Dolores acredita que a peça trata da necessidade da arte em uma sociedade.

“A peça tem, como mensagem, a importância vital da arte como preservação, construção e manutenção da cultura de uma sociedade. Levanta aspectos que destacam a direta relação na inversão de valores humanos quando a arte é tratada como item dispensável e não vital”, reflete o artista.

Para Lelo Filho, a montagem fala da possibilidade de se ter esperança e, mesmo com todos os desafios, continuar seguindo firme. “É essa chance de olhar para frente. Como minha personagem Dalva fala, ao parafrasear o historiador uruguaio, Eduardo Galeano, a utopia é um horizonte”.

“Se damos dez passos para frente, o horizonte se afasta dez passos. E por mais que caminhemos, nunca o alcançaremos e a utopia serve justamente para isso, para que nunca deixemos de caminhar. Então, se fosse para resumir metaforicamente, A Vida é um Cabaré é essa esperança de que nunca desistamos”, finaliza o ator.

A VIDA É UM CABARÉ / Teatro SESI Casa Branca (Largo do Papagaio, Cidade Baixa) / 31 de julho a 29 de agosto / SEXTA e SÁBADO / 20h / INGRESSOS: R$ 70 e R$ 35 / Vendas: Sympla

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Companhia Baiana de Patifaria Teatro teatro baiano

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