CÊNICAS
Conheça a personagem drag que ensina crianças sobre igualdade no teatro
Peça premiada traz debate sobre gênero e sexualidade

Por Grazy Kaimbé*

A releitura de um conto clássico atravessada pela tradição nordestina e pela estética drag é o ponto de partida de Cordel de Maria CinDRAGrela, espetáculo infantojuvenil que propõe discutir machismo, preconceito e desigualdade de forma lúdica, poética e acessível para todas as idades.
A peça faz temporada de verão em Salvador que começou no último domingo, 18, e vai até o dia 8 de fevereiro, com apresentações sempre aos domingos, às 11h, no Teatro Molière, reunindo crianças, famílias e educadores em torno de uma montagem que aposta no humor, na música e na linguagem do cordel.
Dirigido por Marconi Arap, com texto de Lando Augusto e realização do Grupo TECA, o espetáculo retoma uma criação que estreou em 2016 e volta aos palcos em uma remontagem que preserva o discurso central da obra. Para o diretor, a permanência dos temas evidencia o quanto as questões abordadas continuam urgentes.
“Lamentavelmente, a mudança no conteúdo é pequena. Em termos artísticos, muita coisa se transformou, mas o discurso do espetáculo continua extremamente atual. Em última instância, ele é um grito contra a misoginia. A gente propõe um debate sobre gênero e sexualidade que não está dito de forma direta, mas aparece na troca de papéis, no elenco, na forma como homens e mulheres ocupam a cena”, afirma Arap.
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Processo coletivo
A aproximação com o teatro de cordel não é casual. Segundo o diretor, essa linguagem acompanha sua trajetória desde o início da formação artística e atravessa a história do grupo.
“A primeira peça que assisti na vida foi baseada na literatura de cordel. Depois, na universidade, encontrei professores que também pesquisavam essa forma teatral. Fiz mestrado sobre o trabalho do ator a partir do cordel, e o grupo tem várias montagens que surgem diretamente dessa tradição”, explica.
A ideia de cruzar o universo do cordel com a cultura drag surgiu a partir do próprio elenco, quando um dos atores ligado a um coletivo de drag queens apresentou ao grupo um fragmento da história da Cinderela ambientada no sertão. O material inicial deu origem a um processo coletivo de escrita e criação que culminou na montagem original, indicada à época a prêmios e bem recebida pela crítica.
Atenção redobrada
Entre os intérpretes está o ator Diogo Watanabe, que integra o elenco desde a primeira montagem. Para ele, o processo de criação passou, inclusive, pela construção de uma persona drag especialmente pensada para a peça.
“Eu não era drag quando fui convidado. Uma das premissas do espetáculo era que os personagens fossem interpretados por drag queens, então criei a Januária Sebastiana, uma galinha feminista, empoderada, com estética totalmente nordestina. Chita, flores, cores fortes. Acompanhei a escrita do texto, sugeri falas, comportamentos. Foi um processo orgânico, a personagem nasceu para que eu pudesse estar em cena”, relata.
Segundo Watanabe, atuar para crianças exige atenção redobrada à linguagem e à clareza da comunicação.
“O texto é todo em cordel, com métrica e rima. A gente precisa estar muito concentrado, porque há termos que não fazem parte do cotidiano das crianças urbanas. É preciso ‘mastigar’ as falas para que elas compreendam, sem perder a musicalidade”, explica.
Ele ressalta que a crítica social não se impõe de forma explícita. “Ela está mais na estrutura do espetáculo do que no texto. Na troca de papéis, nos contrastes entre os personagens. A minha personagem, por exemplo, vive em conflito com um personagem machista. Há também questões de classe, de desigualdade, que aparecem nas relações em cena”, observa.
Sensibilizar sem impor
O ator observa que a temporada de verão amplia o alcance da montagem, sobretudo por atingir um público que está fora da rotina escolar.
“O verão é especial porque tem mais crianças disponíveis e também muita gente de fora da cidade. Isso ajuda a furar a bolha e leva o espetáculo a públicos diversos. É um momento de lazer, mas também de aprendizado”, pontua Watanabe.
Integrante da programação “O teatro vai invadir a sua praia”, a peça se soma a outras produções que ocupam os palcos da cidade durante o verão. Para Marconi Arap, a iniciativa reforça a necessidade de pensar o teatro como parte da vida cultural cotidiana.
“O teatro permite diversão e reflexão ao mesmo tempo. A arte tem esse poder de sensibilizar sem impor, de provocar pensamento com humor e poesia”, defende.
“Cordel de Maria CinDRAGrela” / Amanhã e todos os domingos até 8 de fevereiro, às 11h / Teatro Molière na Aliança Francesa (Av Sete de Setembro, 401, Barra) / R$ 50 e R$ 25 / Vendas: Sympla e bilheteria do teatro
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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