ENTREVISTA EXCLUSIVA
Débora Falabella estreia peça em Salvador: "Terra especial"
Atriz apresenta espetáculo premiado que questiona o sistema judicial

Por Eugênio Afonso

Melhor Atriz de teatro pelos Prêmio Shell, APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e APTR (Associação dos Produtores de Teatro), em 2024, a mineira Débora Falabella, 46, chega a Salvador com o laureado espetáculo Prima Facie, que entra em cartaz amanhã no Teatro Jorge Amado.
Dirigido pela atriz Yara de Novaes, a peça tem texto da dramaturga australiana Suzie Miller, está em cartaz em vários países do mundo e cumpre temporada baiana até 9 de fevereiro, sempre de quinta a segunda-feira.
Com realização do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Prima Facie – que significa à primeira vista –, conta a história da bem-sucedida advogada Tessa, que tem diversos homens acusados de violência sexual entre seus clientes.
Ela é uma mulher sempre assertiva, com muita autonomia e realizada profissionalmente. De repente, Tessa se vê do outro lado da tribuna, como vítima e testemunha. Então, ao mesmo tempo em que experimenta o sucesso, precisa encarar uma crise que a obriga a rever uma série de valores e princípios, além de refletir sobre o sistema judicial, a condição feminina e as relações conturbadas entre as diversas esferas de poder.
Conhecida também das novelas (Avenida Brasil) e séries televisivas, Débora tem 30 anos de carreira e, além de colecionar prêmios, está em seu primeiro solo teatral.
Prima Facie estreou em abril de 2024 no Rio de Janeiro e se tornou um fenômeno de público com sessões extras e um debate que tem mobilizado a ala feminina da advocacia.
Para falar sobre teatro, violência sexual, atuação judicial, relação com a Bahia e com a arte, entre outros temas relevantes, Débora Falabella conversou, com exclusividade, com o Caderno 2 + do jornal A TARDE. Confira a seguir.
O que quer ‘Prima Facie’? Fale um pouco sobre o espetáculo.
O espetáculo conta a história de Tessa, uma advogada criminalista que vem de uma família humilde, consegue entrar na faculdade, se formar e construir uma carreira extremamente promissora. Ela atua na área criminal sem fazer distinções. Acredita que todo caso que chega até ela precisa ser defendido. Entre esses casos, estão também os de agressores sexuais. Tessa é o que ela mesma chama de uma ‘puro-sangue’. Vive em um ambiente majoritariamente masculino, mas se destaca como referência na profissão. É brilhante, segura, não perde um caso. Uma mulher livre, realizada profissionalmente, que vive sua vida e sua sexualidade com autonomia.
O que o público vai ver em cena?
A história, por si só, já é muito forte. E a forma como ela é contada faz com que o público se aproxime dessa personagem, caminhando ao lado dela durante toda a trajetória da peça e passando junto com ela por tudo o que precisa enfrentar.

A personagem é sempre muito assertiva e cheia de autonomia, inclusive realizada profissionalmente e, de repente, há uma mudança drástica. O que acontece a partir daí?
Tudo muda quando ela sofre uma violência e, pela primeira vez, se vê do outro lado do sistema. Não mais como advogada, mas como vítima e testemunha. A partir desse acontecimento, ela começa a questionar profundamente o próprio sistema jurídico do qual sempre fez parte. Essa mudança é central na peça. É quando Tessa e o público passam a enxergar como todo o processo jurídico é permeado por violências estruturais e como ele foi historicamente construído e conduzido por homens.
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Como tem sido trabalhar com a grande Yara de Novaes? Sei que vocês são mineiras e se conhecem há algum tempo.
Eu conheço a Yara há muito tempo. Cresci assistindo a ela no teatro e ela sempre foi uma das minhas grandes referências como atriz. De certa forma, fez parte da minha formação. Comecei a trabalhar com a Yara aos 16 anos e, desde então, nunca mais nos afastamos. Tivemos uma companhia juntas, o Grupo 3 de Teatro. Essa já é a quarta ou quinta vez que ela me dirige. Existe uma conexão muito forte entre nós. Somos muito amigas e parceiras de cena. Para fazer teatro, como ela mesma diz, é preciso ter grupo, ter turma, dividir alegrias e dificuldades. A Yara é, sem dúvida, minha grande companheira e formou uma turma muito linda para que a gente pudesse trabalhar juntas mais uma vez.
Como mulher, para você, não é difícil e talvez até doído tocar nessas questões de feminicídio?
A peça não fala diretamente sobre feminicídio nem sobre violência sexual. Mas, claro, é difícil. Estou lidando com um tema muito sensível para todas nós, mulheres, e isso inevitavelmente me afeta. Ainda assim, acredito que, como artistas, muitas vezes acabamos dizendo aquilo que já não cabe mais dentro da gente. Talvez essa seja uma forma de lidar com as dores, com as inquietações e com questões que atravessam a nossa vida e o nosso tempo. Transformar isso em teatro é uma maneira de refletir e de compartilhar algo que precisa ser dito.

O que é vida e o que é lei, segundo Suzie Miller, autora da peça?
Acho que a Suzie Miller questiona a forma como o sistema jurídico enxerga, principalmente, os casos de violência sexual. São situações que exigem um recorte de gênero, porque nem sempre existem provas materiais, visíveis ou objetivas. Muitas vezes, o que está em jogo é a palavra da mulher, o contexto e a experiência vivida, e isso nem sempre se encaixa na lógica tradicional do Direito. A lei trabalha com aquilo que pode ser comprovado, enquanto a vida é feita de experiências que nem sempre deixam registros. E acho que é justamente essa a distinção que a Suzie faz entre lei e vida.
Onde mora a verdadeira Débora.. .no audiovisual, no teatro?
Acho que os atores estão sempre em busca de bons personagens e de boas histórias, e não fazem essa distinção entre um lugar melhor ou pior para se estar. O desejo é estar onde o trabalho faz sentido.
Qual a sua relação com a Bahia?
Já me apresentei algumas vezes em Salvador e tenho muitos amigos queridos que são daí. Também costumo passar parte das minhas férias em uma praia da Bahia, então é um lugar pelo qual tenho muito carinho. Tenho um enorme respeito e admiração pela cultura baiana, pela força artística e pela energia dessa terra. Estou muito animada por poder ficar três semanas em cartaz na cidade e viver um pouco Salvador, especialmente nesse período tão especial de pré-carnaval, com o 2 de fevereiro e tudo o que essa época carrega de significado e beleza.

Como se vê daqui a 30 anos?
Espero ter saúde suficiente para aproveitar bastante a vida, estar perto da minha família e seguir trabalhando com o que amo.
O que quer a sua arte?
Sou artista porque preciso dizer algo que está além de mim mesma. Essa é a minha forma de expressão no mundo.
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