GAMEPÓLITAN 2026
Dos celulares para a mesa: jogos de tabuleiro voltam a unir famílias
Fenômeno é impulsionado pelas redes sociais e pela busca por conexões presenciais


Em uma época marcada pelo tempo excessivo diante das telas, notificações constantes e partidas disputadas à distância, um movimento tem chamado atenção ao reunir novamente amigos e familiares em torno de uma mesa. Os jogos de tabuleiro, antes associados apenas à infância, vivem um novo momento e conquistam cada vez mais jovens e adultos em busca de experiências presenciais.
A tendência pôde ser vista de perto neste sábado, 1º, durante o segundo dia do Gamepólitan 2026, em Salvador. Em meio aos estandes de videogames, realidade virtual e tecnologia, um dos espaços mais movimentados do evento era justamente o salão dedicado aos jogos de mesa, onde desconhecidos se tornavam companheiros de partida em poucos minutos.
Mais do que entretenimento, os jogos analógicos passaram a representar uma alternativa para quem deseja desacelerar, socializar e criar conexões em um mundo cada vez mais digital.
Muito além da nostalgia
Para o diretor e cofundador da Toca do Coelho, Matheus Moyano, participar de um festival essencialmente voltado ao universo dos games digitais também é uma oportunidade de mostrar que existe espaço para outras formas de diversão.
Segundo ele, os jogos de tabuleiro funcionam como um contraponto ao excesso de telas e contribuem para o desenvolvimento de habilidades cognitivas e sociais.
"Para a gente é muito importante estar aqui justamente para promover essa alternativa ao excesso de telas. A gente acredita muito no potencial dos jogos de tabuleiro para desenvolver tanto a neuroplasticidade quanto várias habilidades sociais e cognitivas", afirmou.
Além da experiência presencial, Moyano destaca que, curiosamente, o próprio ambiente digital tem impulsionado o crescimento do setor. Jogos que viralizam em plataformas como TikTok e Instagram acabam despertando o interesse do público e chegando rapidamente às mesas.
"Hoje o TikTok, o Instagram e o tráfego pago têm uma importância muito forte na divulgação. Os jogos que aparecem nessas plataformas acabam chamando muito mais atenção das pessoas", explicou.

O reencontro com o contato humano
Entre os visitantes, o principal argumento para trocar algumas horas diante do celular por uma partida de tabuleiro foi justamente a interação presencial.
A estudante Fernanda Almeida, de 20 anos, acredita que o contato cara a cara faz toda a diferença na experiência.
"Nos jogos digitais é a pessoa lá e a gente aqui. No jogo de tabuleiro você conhece pessoas, vê as reações, conversa. É uma experiência completamente diferente", contou.
O estudante Matheus Fonseca, de 23 anos, compartilha da mesma percepção. Para ele, apesar da praticidade dos jogos eletrônicos, nada substitui a convivência proporcionada por uma mesa cercada de amigos.
"O jogo digital tem aquela dopamina rápida, mas quando você está cara a cara com as pessoas é uma experiência completamente diferente. Fica muito mais proveitosa", afirmou.
Ele cita clássicos como Banco Imobiliário entre os favoritos justamente pelo potencial de reunir a família nos fins de semana.
"É uma coisa que sempre tem um valor muito elevado para a interação das pessoas", declarou.

Socialização em tempos de excesso de telas
Para quem acompanha o universo dos jogos de mesa há anos, o crescimento do segmento também reflete uma necessidade de recuperar espaços de convivência que foram perdidos ao longo do tempo.
É o caso de Jadilson Machado, de 34 anos, que participa do evento como jogador.
Segundo ele, os jogos funcionam como ferramenta de socialização em uma geração cada vez mais conectada aos dispositivos eletrônicos.
"A galera está muito presa ao ambiente digital e acaba perdendo um pouco desse processo de estar junto com as pessoas. Os jogos de tabuleiro proporcionam momentos de alegria, comunicação e sociabilidade", destacou.

Mercado acompanha a nova geração de jogadores
O crescimento observado durante o Gamepólitan acompanha uma tendência mundial.
Dados reunidos pela ABRIN mostram que o mercado global de jogos de tabuleiro foi avaliado em US$ 14,36 bilhões em 2024 e pode alcançar US$ 31,9 bilhões até 2032, impulsionado principalmente pela valorização das experiências presenciais, pelo consumo entre adultos e pela busca por formas de entretenimento fora das telas.
No Brasil, o cenário segue o mesmo caminho. Segundo informações apresentadas pela ABRIN, os jogos de tabuleiro já representam 13,1% das vendas do mercado de brinquedos em 2025, enquanto o faturamento dos jogos analógicos cresceu cerca de 51% entre 2019 e 2023, consolidando o segmento como uma das principais apostas da indústria.
Parte desse crescimento também passa pelas redes sociais. Vídeos curtos no TikTok, demonstrações de partidas e recomendações de influenciadores têm transformado jogos de mesa em fenômenos de consumo entre jovens adultos, aproximando o universo digital de um hobby que acontece, essencialmente, longe das telas.




