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Espetáculo premiado debate maternidade e papéis femininos em Salvador

Vencedor do Prêmio Braskem de Teatro em 2016, peça retorna aos palcos com uma reflexão poética

Júlio Cesar Borges*
Por Júlio Cesar Borges*
Espetáculo Pariré chega a Salvador nesta sexta-feira
Espetáculo Pariré chega a Salvador nesta sexta-feira - Foto: Divulgação | Diney Araújo

Duas mulheres dividem o mesmo espaço enquanto carregam o peso de um futuro já desenhado antes mesmo de qualquer escolha. Uma delas é uma idosa, prestes a se tornar avó.

A outra, uma jovem filha, destinada à maternidade. É a partir desse encontro que o espetáculo Pariré, da Companhia Operakata, de Vitória da Conquista, constrói uma reflexão sobre os papéis sociais de gênero impostos às mulheres e as expectativas que marcam as gerações.

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A montagem estreia hoje, no Teatro Sesc Senac Pelourinho, às 19h30h e amanhã, no mesmo horário.

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O espetáculo mistura humor, poesia, crítica social e teatro físico para discutir relações humanas, maternidade e autonomia feminina. Em cena, os atores Kécia Prado e Ricardo Fraga transitam entre diferentes linguagens de teatro, construindo uma narrativa marcada por silêncio e gestos.

A ideia para o espetáculo surge de uma investigação que acompanha a trajetória da companhia há mais de duas décadas: compreender como as relações humanas moldam escolhas, afetos e modos de existir.

Segundo o diretor Gilsérgio Botelho, Pariré nasce da observação de expectativas projetadas sobre as pessoas antes mesmo do nascimento. “As relações familiares aparecem como um primeiro território de influência, muitas vezes silencioso, naturalizado e até mesmo anterior à nossa própria consciência”, explica.

Apesar da complexidade da temática, o espetáculo aposta na leveza. Para Gilsérgio, o humor e a poesia permitem acessar questões profundas sem transformar a experiência em algo rígido ou distante.

“O riso abre o corpo, a poesia acessa o sensível. É nesse estado de abertura que conseguimos tocar em questões mais íntimas”, afirma.

Ao longo da peça, pequenas ações cotidianas ganham dimensão simbólica. Movimentos repetitivos, gestos delicados e situações absurdas fazem com que as personagens pareçam sempre preocupadas por cobranças invisíveis: a necessidade de corresponder às expectativas familiares, sociais e afetivas que lhes foram atribuídas ao longo da vida. Pariré questiona a ideia de destino feminino já estabelecido.

Sem seguir uma narrativa linear tradicional, Pariré constrói sua dramaturgia a partir da convivência entre duas mulheres de gerações diferentes.

De um lado, idosa que deposita no futuro neto a continuidade da própria existência. Do outro, uma jovem filha que já carrega sobre si o peso da maternidade antes mesmo de compreender seus próprios desejos.

Segundo Gilsérgio Botelho, a peça também propõe uma reflexão sobre o ato de “parir-se”, ideia central do espetáculo. “Buscar autonomia, reconhecer e, muitas vezes, perdoar essas expectativas impostas é um processo contínuo de ‘parir-se’”, define o diretor.

Linguagem corporal

De acordo com o diretor, a companhia buscava construir uma comunicação que ultrapassasse a palavra e alcançasse dimensões mais sensíveis da experiência humana.

“O corpo possui uma potência expressiva que acessa camadas mais intuitivas da comunicação”, afirma.

Essa pesquisa também tem a ver com o trabalho dos atores. Para Kécia Prado, um dos principais desafios da montagem é criar uma presença cênica verdadeira, baseada na escuta e na conexão entre quem está em cena. “Buscamos vivenciar, e não apenas interpretar, as relações e emoções”, explica a atriz.

As experiências pessoais dos integrantes da companhia também aparecem na construção dramatúrgica. Embora Pariré não seja autobiográfico, o espetáculo incorpora memórias, afetos e experiências compartilhadas pelo grupo ao longo de sua trajetória. “Não acreditamos em personagens dissociados de quem somos”, comenta Kécia.

Em transformação

Criada em 2003, a Companhia Operakata desenvolve um trabalho continuado de pesquisa e criação em artes cênicas em Vitória da Conquista. Ao completar 23 anos de trajetória, o grupo retoma Pariré entendendo o espetáculo como uma obra viva, em constante transformação.

Segundo Gilsérgio, cada nova apresentação modifica o espetáculo de alguma forma. “Não encaramos nossos espetáculos como obras finalizadas, mas como processos vivos, assim como nós”, afirma.

O diretor explica que cenas, intenções e significados foram sendo ressignificados ao longo dos anos, acompanhando o amadurecimento artístico e pessoal da companhia.

‘PARIRÉ’

  • Quando: sexta-feira, 29, e sábado, 30
  • Horário: 19h30
  • Onde: Teatro Sesc SENAC Pelourinho
  • Ingressos: R$ 20, R$ 10 e R$ 16 (comerciários)
  • Vendas: Sympla
  • Classificação: 14 anos

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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