INÉDITO
Estrela da arte mundial, Beatriz Milhazes abre mostra em Salvador
Artista celebra 30 anos de carreira com panorama inédito na Bahia

Por Eugênio Afonso

Uma das artistas plásticas brasileiras de maior projeção internacional, a carioca Beatriz Milhazes, 65, nunca tinha feito uma exposição individual na capital baiana. Agora, com 30 anos de produção, Milhazes traz a Salvador 100 Sóis.
A mostra, que abre na próxima quinta-feira (29, às 18h, no Museu de Arte da Bahia - MAB (Corredor da Vitória) e fica em cartaz até 26 de abril deste ano, oferece diferentes fases da trajetória da artista e evidencia elementos recorrentes que estruturam sua poética.
“O ponto central deste projeto é fazer um panorama da minha obra, dos últimos 30 anos, com foco na pintura, o tronco do meu processo criativo. A partir dela, as questões de linguagem se desenvolvem. A prática de outros meios, como serigrafia, colagem sobre papel, escultura, projetos instalativos e obras públicas aquecem e enriquecem o retorno à pintura”, comenta Beatriz.
De acordo com a artista, só agora as energias se uniram e ela conseguiu realizar o sonho de ter uma exposição própria na Bahia. “Sempre defendi a descentralização do eixo Rio-São Paulo. O Brasil é um país enorme, muito rico em cultura, diversidade e força criativa. A mostra também acontece em um momento que pude conhecer melhor, através de pesquisas, a trajetória de minha família paterna, Milhazes, visceralmente conectada com a história da heróica Cachoeira”, relata.
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Baiano bailinho
Com curadoria do crítico e historiador da arte Tiago Mesquita, 100 Sóis exibirá pinturas históricas, além de trabalhos inéditos e recentes. As obras estarão dispostas em uma espécie de colagem espacial, revelando a amplitude do repertório formal de Milhazes e a sofisticação de suas composições artísticas.
Além disso, a artista vai montar uma instalação nas janelas do MAB. Será um vitral com filmes translúcidos multicoloridos, que filtram a luz solar e projetam feixes caleidoscópicos para dentro do espaço expositivo.
No total, são 21 obras, sendo 16 pinturas, quatro colagens e uma instalação, fazendo um percurso dos anos 1990 até os dias de hoje. “Especialmente para a exposição, fiz uma pintura em formato monumental, O Giro das Águas, e um vitral para as portas e janelas da fachada do Museu, Baiano Bailinho“, detalha a artista.
A Seda, obra emblemática de sua produção dos anos 2000, na qual elementos gráficos em cores vibrantes se expandem do centro da tela em movimento centrífugo, também estará na exposição. Um emaranhado de arabescos rendados forma o coração da composição, combinando fluidez e ordem.
Formulação espacial
Para o curador, a produção de Milhazes propõe questões decisivas para pensar de que modo as formulações de uma modernidade brasileira nos ajudam a compreender nossa posição diante de outras configurações contemporâneas no mundo.
“O recorte temporal da exposição é marcado pelo pleno desenvolvimento da técnica do monotransfer, que a artista utiliza até hoje. Trata-se de uma maneira indireta de pintar: a artista não aplica a tinta acrílica diretamente sobre a tela com o pincel, como é convencional, mas combina procedimentos da pintura, da colagem e da monotipia”, esclarece o curador.
“As formas cromáticas são pintadas sobre outra superfície, deixadas secar e depois transferidas por decalque para a tela. Como cada forma adquire uma especificidade própria, a cor nunca parece subordinada a uma luz geral do quadro. Tudo brilha com a mesma intensidade”, complementa.
100 Sóis reúne obras de diferentes períodos e Tiago conta que procurou enfatizar o desenvolvimento de um espaço muito particular elaborado por Milhazes em suas pinturas, colagens, trabalhos gráficos e intervenções arquitetônicas.
“São obras fundamentais em sua trajetória, que lidam diretamente com a formulação espacial da artista. O percurso culmina com uma pintura realizada especialmente para esta exposição, uma instalação concebida para a galeria do MAB e alguns trabalhos inéditos no Brasil”, pontua o curador. Ainda segundo Mesquita, a formulação estética da artista carioca abre possibilidades de percepção e de novos problemas. “Acho que temos muitas picadas para serem exploradas no trabalho de Beatriz Milhazes”.
Modernismo latino
Reconhecida por ter uma produção que combina rigor construtivo, repertórios da cultura popular e referências da história da arte, Beatriz elabora questões centrais da modernidade pictórica de maneira profundamente original.
“Além disso, faz um balanço crítico dessa modernidade não apenas por incorporar elementos brasileiros e latino-americanos, mas por compreendê-los dentro de contextos de visualidade que extrapolam o campo estrito das artes visuais”, destaca o curador.
“Acredito que seu trabalho tenha sido entendido como uma das sínteses possíveis de como a modernidade se deu na América do Sul. Então, acho que tem uma elaboração própria e que faz pensar as formas da modernidade sob outro prisma”, alinhava Mesquita.
Conceituada por ela mesma como uma artista abstrata, Beatriz diz que sua linguagem é influenciada pelo modernismo brasileiro e europeu, pela arte popular e aplicada, e pela geometria.
“O meu contexto do Rio de Janeiro com toda sua exuberância natural, sua beleza quase espiritual, seus contrastes urbanos, seu calor tropical, me possibilitou unir popular e erudito, criando novas possibilidades conceituais para a pintura abstrata”, ressalta a artista.
Por fim, ela dedica 100 Sóis às suas famílias materna e paterna. “Tive a sorte de ter na minha ancestralidade duas cidades coloniais que são parte importante da história do Brasil nos séculos XVIII e XIX. Parati, origem de minha família materna, com suas festas populares e religiosas, e Cachoeira, de minha família paterna, meus avós baianos”.
Minibio
Pintura, colagem, gravura e grandes instalações de Beatriz Milhazes (Rio de Janeiro, 1960) estão presentes em instituições de destaque ao redor do mundo. Ao longo de sua carreira, a artista desenvolveu uma linguagem imediatamente identificável que ocupa um lugar central no debate da arte contemporânea no Brasil e no mundo.
Com uma trajetória internacional consolidada, Milhazes já participou da Bienal de Veneza (2003 e 2024), além de inúmeras exposições individuais em instituições mundo afora.
Em 2025, o museu Guggenheim, em Nova Iorque, inaugurou Rigor e Beleza, primeira mostra individual de um artista brasileiro na instituição. Milhazes ainda possui trabalhos em coleções públicas de referência espalhadas por diversos museus e galerias nacionais e internacionais.
100 Sóis é uma realização do Ministério da Cultura, Museu de Arte da Bahia e do Itaú, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Rouanet), com apoio institucional do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia - IPAC, Secretaria de Cultura, Governo do Estado da Bahia.
100 Sóis, de beatriz milhazes / 29 de janeiro a 26 de abril / Museu de Arte da Bahia, Corredor da Vitória, 2340 / Visitação: terça a domingo, 10h às 18h
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