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Evento inédito traz dança, cinema e música negra para Salvador
Festival das Artes estreia com programação potente e protagonismo negro

A partir desta quinta-feira, 9, até o dia 19, a arte negra toma o palco como território de afirmação em Salvador. O Cineteatro 2 de Julho abre suas portas para a primeira edição do Festival das Artes, evento que mistura diferentes linguagens, que oferece ao público de todas as idades, uma agenda repleta de música, teatro, dança e cinema. Majoritariamente gratuita, a programação acontece sem perder de vista um eixo comum: a potência criativa das matrizes afro-brasileiras.
Mais do que uma mostra, o festival nasce como gesto político e pedagógico. Reformado e reaberto ao público em 2024, o espaço passa a se afirmar também como lugar de formação e democratização do acesso à cultura.
“A minha inquietação era entender o que eu, enquanto artista negro periférico, poderia trazer de importante para esse espaço”, explica o coordenador geral do Cineteatro, Ridson Reis. “O festival surge desse desejo de contribuir de forma democrática, tanto para a cultura quanto para a educação”.
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Programação
Ao longo de 11 dias, o público encontrará uma programação diversa, que reflete múltiplas experiências negras: do afeto à denúncia, do sagrado ao cotidiano. A abertura fica por conta da cantora baiana Majur, com o espetáculo Gira Mundo Experience, na quinta-feira, 9, às 20h. No dia seguinte, o palco recebe o espetáculo teatral Akoko Lati Wa Ni – Tempo de Ser. Já no sábado, 11, é a vez de Dembwa fazer de memórias uma coreografia ancestral.
No domingo, 12, às 19h, a cantora Gab Ferruz apresenta o show Ferruz Mais de Perto. A segunda-feira, 13, começa mais cedo, com exibições do documentário Terras que Libertam – Histórias dos Cupertinos às 9h30 e às 14h30, com entrada gratuita. Na terça-feira, 14, a agenda tem início às 9h30 com o filme Ijó Dudu: Memória da Dança Negra na Bahia. À tarde, 14h30, acontece um workshop gratuito de dança afro. Já na quarta, 15), às 14h30, a roda de conversa “Entre o canto e a dança: mulheres negras em movimento” reúne Carol Xavier e Nara Couto, enquanto às 20h o público pode assistir ao longa Timidez.
A programação segue na quinta-feira, 16, às 20h, com o espetáculo musical Matriarcas, do grupo Pradarrum. Na sexta, 17, o público acompanha o espetáculo Gota d'Água. Sábado, 18, às 20h, a Cia Jorge Silva apresenta o espetáculo de dança De Dentro. Encerrando no domingo, 19, às 19h, a banda Afrocidade sobe ao palco com sua mistura de ritmos.
Entre o ritual e a cena
No teatro, a premiada Akoko Lati Wa Ni – Tempo de Ser tensiona a existência de jovens negros diante de um país que insiste em negar futuros. Já Gota d'Água, ambientada no subúrbio de Salvador, revisita conflitos sociais e afetivos a partir da trajetória de uma mulher negra atravessada pela desigualdade e pela traição.
A dança também ocupa papel central. Em Dembwa, memórias do cotidiano se transformam em coreografia ancestral, conectando quintal, barro e cantigas a ritmos urbanos como pagode e funk. No espetáculo De Dentro, a Cia. Jorge Silva aciona elementos do candomblé para construir uma narrativa que transita entre o sagrado e o cotidiano.
Esse trânsito entre linguagens é, segundo Ridson, um dos pilares da curadoria. “A gente buscou abraçar várias temáticas dentro do eixo das artes negras. Tem espetáculo que fala diretamente sobre racismo, mas também tem artistas falando de amor, de sonho. A gente também tem direito a isso”, afirma.
Imagens que educam
O cinema aparece como ferramenta de memória e formação. Documentários como Terras que Libertam e Ijó Dudu tensionam passado e presente ao abordar territórios quilombolas e trajetórias da dança negra. Já Timidez mergulha no suspense psicológico que expõe as camadas do racismo e das relações familiares.
Parte significativa da programação é externa para estudantes da rede pública estadual. A expectativa é que cerca de 1.700 alunos participem das ações formativas. “A gente acredita na arte como ferramenta de transformação. Eu sou fruto disso”, diz o coordenador. “Foi através da música e do teatro que minha vida mudou”, afirma.
O som das matrizes
Na música, o festival reverbera a ancestralidade. O espetáculo Matriarcas, idealizado pela percussionista Gabi Guedes, celebra os saberes dos terreiros de candomblé ao dialogar com gêneros como samba, jazz e funk.
“Esses ritmos percorrem suavemente os toques do candomblé, criando conexões para agradecer às mulheres e yalorixás que resistiram e seguirão lutando”, explica Gabi.
Já Majur destaca seu canto em iorubá. “Gira Mundo marca um momento muito importante da minha trajetória, ao falar sobre cultura, transformação e os ciclos que me atravessam enquanto artista e pessoa. No álbum, canto em iorubá, trazendo essa sonoridade e ancestralidade para o centro do meu trabalho. É projeto íntimo, mas que dialoga com o coletivo, com as nossas vivências e com a força da cultura negra”, declara a cantora .
Direito ao sonho
Em uma cidade marcada pela força da cultura negra, o festival propõe uma reflexão que vai além do palco. Para Ridson, é preciso pensar o lugar da população negra na capital baiana e, sobretudo, garantir o direito à existência plena. “A gente combate o racismo também falando de amor, de poesia, de sonho. O povo negro tem direito a viver”.
O I Festival das Artes do Cineteatro 2 de Julho é uma realização do Cineteatro 2 de Julho/ IRDEB e Secretária de Cultura do Estado da Bahia
I Festival das Artes do Cineteatro 2 de Julho (R. Pedro Gama, 413 E - Federação) / A partir de amanhã até dia 19 / Cineteatro 2 de Julho / R$ 20 e R$ 10 / Gratuito
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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