CULTURA
Fundador do punk no Brasil lança primeiro álbum solo e livro de memórias


Filho de um baiano de Cruz das Almas, Clemente Tadeu Nascimento é figura fundadora do movimento punk brasileiro. Após mais de três décadas à frente da banda Inocentes, saiu no final do ano passado com seu primeiro disco solo e um livro, este em parceria com Marcelo Rubens Paiva. “Agora só falta o filme”, diz ele ao telefone, encaixando na sequência sua famosa risada meio esganiçada.
Autor do histórico manifesto do punk brasileiro – “Vamos pintar de negro a Asa Branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer” – Clemente inaugura uma nova fase na vida e na carreira com Antes Que Seja Tarde (o disco) e Meninos em Fúria (o livro).
No disco, lançado via selo Hearts Bleed Blue, ele toca acompanhado da Fantástica Banda Sem Nome, trio formado por Joe Gomes (baixo), Johnny Monster (guitarra) e Rodrigo Cerqueira (bateria). O baixista, anteriormente conhecido por Joe Tromondo, é figura histórica do rock baiano: é ex-baixista dos The Dead Billies, Retrofoguetes e Pitty. Clemente diz que é fã de Joe desde o tempo dos Billies.
“Formei a banda com os caras que gosto, que tem o som que me agrada. Cada um complementa a banda de um modo. Joe é um maestro. Toda hora dá palpite: ‘vamos mudar um arranjo aqui’ e tal. Ele é divertido demais”, conta.
Ele diz que a estreia solo foi motivada pela busca de fazer algo diferente. “Foi justamente esses 30 e poucos anos de Inocentes que me motivou, né? Você acaba querendo fazer alguma coisa diferente que a banda não permite. Ou até permite, já fizemos experiências, mas achei que não ficou legal. Desta vez, resolvi fazer fora da banda”, afirma.
Rock brasileiro, mas sem batucada ou referências ao Tropicalismo para soar descolado, Antes Que Seja Tarde guarda como principal semelhança ao Meninos em Fúria, um caráter intimista, o compromisso apenas consigo mesmo. “A gente não queria ser nada nesse sentido, sabe? Tô cansado dessa coisa de ficar respondendo ‘o que é punk?’ de novo. Não representamos nada além de nós mesmos”, diz.
O cadeirante doidão
Já o livro Meninos em Fúria, subintitulado E o som que mudou a música para sempre, é um livro de memórias da dupla que o assina. O texto de Marcelo, o célebre autor de Feliz Ano Velho, claro, predomina, o que é até natural.
Marcelo foi testemunha ocular do movimento punk paulista no final dos anos 1970, início dos 80. No livro, ele costura com habilidade sua própria biografia com a de Clemente e o contexto político, social e artístico da época.
“A gente adorava ver o Marcelo no meio da bagunça dos shows punks. Era o cadeirante doidão, todo mundo queria empurrar a cadeira dele. Hoje ela é chique, mas na época, não, sempre tinha alguém pra empurrar. E todo mundo ficava doidão, se divertia, ninguém sabia que ele tinha escrito um livro”, lembra Clemente.
“Mas faz tempo que sentia isso, essa necessidade de contar minha história. O Ratos de Porão (banda de João Gordo) e o Inocentes começaram em 1981, mas o Inocentes já era uma banda de veteranos. Eu comecei em 1978, com Restos de Nada, depois Condutores de Cadáver. É uma história que estava meio no vácuo, que precisava ser contada”, diz.
Em 1986, o Inocentes fez o impensável para uma banda punk: assinou com uma multinacional e lançou seu primeiro disco, Pânico em SP. “E depois teve esse lance de ter ido para a Warner, o que fez de mim ‘traidor do movimento’. Mas o movimento era uma bosta, os caras só queriam saber de brigar, e a gente, de tocar”, ri Clemente.
Curiosamente, o livro de Clemente e Marcelo saiu quase ao mesmo tempo que Viva La Vida Tosca (DarkSide Books), as memórias de João Gordo, em parceria com o jornalista André Barcinski. Em entrevistas, Gordo jura que teve a ideia primeiro e que a contou para Clemente durante seu programa Panelaço (You Tube).
“E foi mesmo! É que o Marcelo escreve muito rápido!”, gargalha Clemente. “Mas deixa eu te contar uma coisa: há vários anos, no site Showlivre (onde trabalha), eu tinha um programa, Pé na Porta. Eu ia na casa dos artistas bater papo. Um dos primeiros foi o Gordo. Logo depois ele criou um programa igual na MTV, Gordo Visita”. Agora tá tudo certo.