ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Polarização e extremismo: como José Saramago veria o mundo atualmente?
A jornalista e viúva do autor Pilar del Río comentou sobre a relação do autor com os extremismos atuais

Quase todo brasileiro leu pelo menos um dos clássicos do escritor e vencedor do Nobel de Literatura José Saramago na escola ou para o vestibular. Apesar de ter nascido em 1922 e falecido em 2010, o autor consegue ser absolutamente atual para quem o lê hoje em dia - quase como se soubesse prever o futuro.
Sua obra mais famosa, "Ensaio sobre a Cegueira", fala sobre uma "cegueira moral" que assola a sociedade e faz com que as pessoas não vejam os absurdos que acontecem à sua frente, uma realidade mais atual que nunca.
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Para a jornalista espanhola Pilar del Río, viúva do escritor José Saramago, essa visão que o autor tinha o mantém presente e atual no mundo mesmo após sua partida, em especial no Brasil.
Segundo Pilar, a obra do autor segue viva entre os leitores brasileiros e continua dialogando diretamente com os desafios do mundo atual, especialmente diante da ascensão de extremismos e da polarização global.
"Os leitores do Brasil continuam a ler Saramago, há leitores que se incorporam agora. Porque eu noto, eu noto as pessoas quando estou no Brasil, noto as comunicações", afirmou em entrevista na Bienal do Livro de Salvador.
"Digo Saramago e noto que há simpatia, um abraço. Sei que os livros continuam a ser reeditados e, sobretudo, é essa simpatia e essa amabilidade que se percebe em diferentes lugares do Brasil", destaca. A cegueira que ele previa, no entanto, é presente desde as gerações mais antigas até as mais atuais.

Ensaio sobre a Cegueira
Ao comentar como o escritor reagiria ao cenário atual, marcado por polarização, extremismos e tensões sociais, Pilar foi direta: nada do que acontece hoje seria uma surpresa para ele.
"Acho que nenhuma coisa poderia indignar mais a Saramago do que o que já viu e deixou escrito", disse. "Escreveu talvez um bocadinho antecipadamente 'Ensaio sobre a Cegueira'. Somos cegos que, vendo, não vemos", completou.
Para Pilar, os principais problemas atuais já estavam identificados no pensamento do autor: "Todas as ameaças terríveis, a construção de armas, as imposições dogmáticas, o fascismo que avança, o desprezo pelo imigrante, o desprezo pela pessoa pobre... tudo isso já está antecipado".
"O problema não é que ele era um profeta. Ele simplesmente era uma pessoa que pensava com intelecto e foi capaz de antecipar com o pensamento o momento atual que estamos a viver, que é caótico", analisou.
Fundação José Saramago
Apesar da fama por ser esposa de um dos imortais da literatura, Pilar sempre foi uma voz ativa na escrita, no feminismo e nas pautas sociais.
Hoje presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Río afirma que sua atuação é inseparável de sua trajetória pessoal, especialmente no campo do feminismo e da defesa dos direitos humanos.

"Tenho uma idade, tenho uma cor de pele, uma cor de cabelo. Tudo isso forma parte de mim. O feminismo forma parte de mim desde que abri os olhos e entendi que não era nem mais, nem menos que ninguém", afirmou.
Ela explica que suas decisões são guiadas por princípios claros: "Estou procurando decisões que tenham que ver sempre com a cultura, com a pluralidade, com os direitos humanos e com os deveres humanos".

Assim, ela segue no mundo que o marido previu mas não conheceu, representando seus ideais e tentando, o máximo possível, "abrir olhos" para a cegueira dos extremismos que assolam tanto o tempo do autor, quanto os dias atuais.
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