INDÚSTRIA EM PAUTA
Energia renovável redesenha a indústria da Bahia
Expansão de parques eólicos, solares e biocombustíveis reposiciona o estado na transição energética nacional

A indústria da Bahia vive um momento de inflexão na forma como produz e consome energia. Sem abrir mão do petróleo e do gás, que ainda sustentam grande parte da economia, o setor no estado avança sobre novas fronteiras, impulsionando a expansão das energias renováveis e abrindo caminho para um novo perfil industrial, mais limpo, moderno e competitivo.
Esse movimento redesenha o papel da indústria baiana no cenário nacional. Entre parques eólicos e solares no semiárido e uma nova geração de projetos que integram etanol de milho no oeste, biocombustíveis e hidrogênio de baixo carbono, o estado se posiciona como um dos principais polos da transição energética no país — ainda que enfrente desafios para fazer esse potencial avançar.
O diretor-presidente da Bahiainvest, Paulo Guimarães, explica que a transição energética não ocorre por ruptura, mas pela convivência entre diferentes modelos. Para ele, o petróleo e o gás natural continuarão a ter papel relevante, mesmo diante do avanço das fontes renováveis. “A dependência da sociedade humana por petróleo e gás ainda é muito grande”.
A análise de Paulo Guimarães parte de uma posição estratégica no governo baiano. À frente da Bahiainvest, ele coordena o Programa de Transição Energética do Estado (Protener), lançado no ano passado e voltado à construção de uma economia de baixo carbono. A iniciativa busca uma matriz mais limpa e sustentável, contemplando diferentes fontes de energia — sejam mineral, eólica, verde ou solar.
O economista Carlos Danilo Peres, da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), conta que a matriz energética do estado foi historicamente estruturada a partir do petróleo. Segundo o especialista em Desenvolvimento Industrial da Fieb, esse processo começou ainda na década de 1930, com a descoberta do primeiro poço em Candeias, e se consolidou com a instalação da Refinaria de Mataripe e, posteriormente, do Polo de Camaçari. Essa base moldou o perfil produtivo da Bahia por décadas.
Nos últimos anos, no entanto, esse modelo começou a dar sinais de estabilização. “Hoje nós falamos em campos de petróleo maduros. Ou seja, já se esgotou aquela fase mais produtiva”, explica Peres. Embora a produção e o refino sigam relevantes, diz ele, já não apresentam o mesmo dinamismo de antes. É nesse contexto que as energias renováveis ganham espaço, impulsionadas pelas condições naturais e pelas vantagens competitivas da Bahia.
A transição para uma matriz produtiva de baixo carbono, no entanto, não ocorrerá de forma imediata, justamente porque a economia global ainda é fortemente dependente de combustíveis fósseis. Para Paulo Guimarães, não é possível romper rapidamente com um modelo construído ao longo de décadas, o que torna o processo necessariamente gradual. “Você não vai pegar 200 anos de dependência e acabar de repente”, diz.
O secretário estadual de Desenvolvimento Econômico em exercício, Aécio Moreira, também ressalta que, apesar do avanço das fontes limpas, os combustíveis fósseis ainda cumprem um papel de equilíbrio no sistema energético. “Mesmo com o avanço acelerado das energias renováveis, esses recursos (petróleo e gás) continuam tendo um papel importante para garantir segurança energética, estabilidade do sistema e suporte ao desenvolvimento industrial do estado”, afirma.

Frentes de avanço
O processo de renovação da matriz energética na indústria baiana ocorre em duas frentes, segundo Guimarães. A primeira é mais antiga e envolve a substituição de óleo — seja óleo diesel, gás óleo ou outro óleo fóssil — por gás natural. Isso porque o gás natural é o menos poluente entre os combustíveis fósseis. “Ele, inclusive, é considerado um combustível de início de transição efetivamente.”
A segunda frente é mais recente e representa uma mudança mais profunda. “Tem um outro movimento de mudança radical na fonte de energia que se usa para eletrificação e mesmo para acionamento de grandes máquinas”, diz Guimarães. Essa transformação impacta diretamente o funcionamento da indústria, sobretudo nos setores que mais consomem energia, como o químico.
Nesse segmento, a mudança já é visível. O consumo energético das indústrias químicas passou a ser majoritariamente renovável, impulsionado tanto por decisões de mercado quanto por avanços tecnológicos. “Você tem hoje empresas do setor químico que são sócias de parques eólicos e solares ou então compram essa energia no mercado livre”, afirma o diretor da Bahiainvest. Isso tem permitido que grandes operações industriais passem a operar com eletricidade de origem limpa.
Além da origem da energia, há também mudanças na forma como ela é utilizada. Equipamentos antes movidos a vapor — gerado a partir de combustíveis fósseis — vêm sendo substituídos por sistemas elétricos. “As empresas começaram a substituir o acionamento de grandes máquinas por equipamentos movidos a eletricidade”, explica Guimarães. Esse processo avançou ainda mais recentemente. “Até a geração de vapor está sendo agora substituída por caldeiras movidas a eletricidade.”
O resultado é uma mudança estrutural no perfil energético da indústria. Dados apresentados pela Associação Brasileira da Indústria Química no fim de 2025 indicam que mais de 80% da energia consumida pelo setor não só na Bahia, mas em todo Brasil já tem origem renovável. Ainda assim, Guimarães pondera que nem todas as transformações avançam no mesmo ritmo.
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Exemplo em Camaçari
Com uma das sedes em Camaçari, a Braskem é uma das empresas que vêm ampliando sua estratégia de descarbonização, com foco na eletricidade de baixo carbono, combinando autoprodução e contratos de longo prazo no mercado livre. Segundo a gerente de Energia e Descarbonização da companhia, Angélica Bertin, a empresa tem reduzido a dependência de fontes convencionais.
Na Bahia, esse movimento já aparece de forma mais consolidada. De acordo com a executiva, “mais de 90% da energia elétrica adquirida pela Braskem nos últimos anos teve origem em fontes renováveis”. A estratégia envolve tanto contratos de compra de energia quanto projetos de geração associados a fontes como eólica e solar, com impacto direto na operação industrial da companhia no estado.
Um dos principais exemplos dessa atuação é a parceria com a EDF Renewables para fornecimento de energia eólica a partir de parques instalados no estado. “A colaboração reforça o compromisso da companhia com a transição energética, garantindo maior previsibilidade e competitividade à matriz elétrica, além de contribuir para a segurança energética regional e estimular o desenvolvimento de infraestrutura sustentável no estado”, diz Angélica.
Limitações existentes
A substituição de matérias-primas na industria química, porém, ainda enfrenta limitações. “Existe um movimento interessante, mas ainda mais lento, até em função da indisponibilidade de matéria-prima”, afirma Paulo Guimarães. Um dos exemplos citados por ele é a produção de plástico verde, que utiliza etanol em vez de derivados de petróleo. Esse modelo já é adotado pela Braskem em sua unidade no Rio Grande do Sul, onde produz polietileno a partir de etanol, mas ainda não é uma realidade na Bahia pela falta desse insumo.
Mas esse cenário começa a mudar com a chegada de novos projetos de etanol no oeste do estado. A instalação de biorrefinarias, como a que será construída no município de Luís Eduardo Magalhães e iniciativas como o Projeto Farol devem alterar a disponibilidade do insumo. “Se você somar o projeto da Impasa com o projeto Farol, a Bahia vai se tornar em breve -em 2027, 2028 - um estado autossuficiente em etanol”, projeta o dirigente da Bahiainvest.
Esses empreendimentos são estruturados para integrar produção de energia e insumos. Em Luís Eduardo Magalhães, a biorrefinaria da Inpasa Agroindustrial, financiada pelo BNDES, terá capacidade para processar até 1 milhão de toneladas de grãos por ano, com produção de quase 500 milhões de litros de etanol, além de coprodutos como ração animal (DDG), óleo vegetal e geração própria de energia elétrica.
Já o Projeto Farol será implantado entre os distritos de Rosário e Brejão, área que abrange os municípios de Correntina e Jaborandi, também no oeste. O empreendimento prevê a conversão de milho em etanol, óleo de milho e insumos proteicos para alimentação animal, além da captura de CO₂ biogênico, que poderá ser utilizado na produção de combustíveis renováveis como diesel verde (HVO) e querosene de aviação sustentável (SAF).
Além disso, esses empreendimentos inauguram um novo modelo industrial mais integrado. “Do milho você vai obter não só etanol, mas ração animal e, consequentemente, aumento da produção de proteína animal”, explica Guimarães. A lógica, diz ele, é de encadeamento produtivo, em que diferentes etapas se complementam e geram novos negócios. “Uma cadeia vai alimentando a outra”.
Energia eólica e solar
A expansão das fontes renováveis na Bahia está diretamente ligada às condições naturais do estado. Segundo o economista Carlos Danilo Peres, regiões do interior que antes não eram associadas à geração de energia passaram a se destacar com o avanço da tecnologia. É o caso do eixo que vai de Caetité a Juazeiro, no semiárido baiano, onde a combinação de ventos constantes e topografia favorável criou um ambiente ideal para a instalação de parques eólicos.
Ele explica que os equipamentos mais modernos já não dependem de ventos fortes, mas de regularidade. “Hoje, as torres eólicas chegam a 150 metros e precisam mais de ventos constantes do que intensos”, afirma. Essa característica ampliou significativamente o potencial de áreas do interior do estado, que antes não eram consideradas estratégicas para esse tipo de investimento.
O mesmo ocorre com a energia solar. De acordo com Peres, a Bahia reúne algumas das melhores condições do país em termos de radiação solar, especialmente em municípios como Xique-Xique, Remanso e Caetité. Nesses locais, a incidência de luz ao longo do dia — fator mais importante do que o calor — favorece a geração de energia em larga escala. “O que importa não é a temperatura, mas o tempo de incidência da luz sobre os painéis”, explica.

Além disso, fatores como baixa nebulosidade aumentam a eficiência dos projetos, reforçando a competitividade da geração solar no estado. “Essa combinação de vento constante e alta radiação coloca a Bahia em posição privilegiada para expandir sua matriz renovável e sustentar o avanço de uma indústria cada vez mais baseada em energia limpa”, diz Perez.
Dessa forma, a Bahia se tornou o quinto maior gerador de energia elétrica do Brasil e um dos principais protagonistas da transição energética no país. E, segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico, Aécio Moreira, com “99% da energia elétrica produzida proveniente por fontes renováveis”.
O avanço, diz Moreira, ocorre em diferentes frentes. O estado lidera a geração eólica nacional e também amplia sua presença na energia solar, apoiado por fatores estruturais e condições naturais favoráveis. “No caso da eólica, a Bahia se destaca pelos ventos fortes e unidirecionais em seu corredor de ventos, o que garante alta performance dos parques”.
Políticas públicas
Esse processo de expansão das energias renováveis na Bahia vem sendo acompanhado por uma sequência de políticas e instrumentos de planejamento que ajudam a orientar investimentos e dar escala às novas tecnologias. Segundo Guimarães, essa construção começou ainda em 2013, com o lançamento do Atlas da Energia Eólica, que já apontava o potencial do estado — hoje ampliado com o avanço tecnológico, que permitiu dobrar a capacidade de geração.
Em 2018, veio o Atlas da Energia Solar, reforçando o peso da radiação solar no semiárido baiano e evidenciando a possibilidade de combinação entre as duas fontes em algumas regiões do interior. Já em 2023, o Atlas do Hidrogênio Verde marcou a entrada da Bahia em uma nova fronteira energética, ao mapear tanto o potencial de produção quanto de uso desse insumo em setores industriais, como mineração e a indústria química concentrada no entorno de Camaçari.
Mais recentemente, em março, o governo lançou o Atlas da Bioenergia, ampliando ainda mais esse escopo ao incluir o aproveitamento de resíduos orgânicos, lixo urbano, esgoto e biomassa florestal como fontes energéticas. A proposta é transformar esses materiais em energia ou biometano — um gás com características semelhantes ao gás natural, mas de origem renovável.
Mineração é pilar estratégico
Para Guimarães, esse conjunto de iniciativas ajuda a estruturar novas cadeias produtivas baseadas na integração entre agropecuária e indústria, que tem na mineração outro pilar. Ele explica que a expansão da matriz energética renovável — como eólica, solar e hidrogênio verde — aumenta a demanda por minerais estratégicos, que são a base física dessas tecnologias.
Turbinas eólicas, painéis solares, redes elétricas e sistemas de armazenamento dependem de materiais como cobre, níquel, vanádio. “A Bahia é o estado com a maior diversidade mineral do Brasil”, diz, ressaltando que essa disponibilidade coloca o estado em posição privilegiada nessa nova economia.
Esse encadeamento entre mineração e transição energética também se conecta diretamente a uma outra dimensão estratégica da nova economia baiana: a indústria de equipamentos para geração renovável. Para Paulo Guimarães, além de produzir energia, a Bahia começa a se consolidar como um polo industrial capaz de fabricar os próprios sistemas que tornam essa matriz possível.
Segundo ele, o estado já reúne o maior conjunto de fábricas voltadas à cadeia da energia eólica no país, o que inclui desde componentes estruturais até sistemas completos de geração. Nesse ambiente, empresas de origem estrangeira — especialmente chinesa — passaram a ter papel central na instalação e operação dessas unidades industriais.
Entre os exemplos citados estão a Sinoma Blade, considerada uma das principais fabricantes de pás eólicas em operação no estado, e a Goldwind, que atua na produção de turbinas. Ambas fazem parte desse movimento de consolidação de um polo industrial integrado à cadeia global de energia renovável. Há também a presença do grupo Nordex Acciona, de origem alemã e espanhola.

Mais estrangeiras
A presença de empresas estrangeiras, na verdade, tem se tornado um dos pilares da expansão da energia renovável na Bahia, com destaque tanmbpem para grupos europeus que já operam em larga escala no estado. Segundo o secretário Aécio Moreira, esse movimento é também resultado da articulação institucional do governo para viabilizar novos investimentos.
Ele cita como exemplo a atuação da italiana Enel Green Power, que concentra um dos maiores portfólios de energia renovável em operação no estado. Também ressalta a presença de grandes grupos franceses, que ampliam a escala dos investimentos no setor. Outro destaque é a Statkraft, empresa norueguesa de controle estatal e uma das maiores geradoras de energia renovável da Europa.
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