ENTREVISTAS
"A temporada promete ser espetacular", diz presidente do Instituto Baleia Jubarte
Encalhes e mudanças climáticas: o que está causando o alerta dos pesquisadores no litoral baiano?


A chegada das baleias jubarte ao litoral brasileiro marca o início de uma das temporadas mais aguardadas do ano por pesquisadores, turistas e comunidades que recebem esses animais. Depois dos primeiros registros, inclusive na Baía de Todos-os-Santos, a expectativa é alta. "Este ano, temos uma expectativa muito boa", afirma o presidente do Instituto Baleia Jubarte, Eduardo Camargo, nesta entrevista ao A TARDE.
Ao longo da conversa, Camargo explica como o turismo de observação se consolidou como uma importante ferramenta de conservação, capaz de gerar emprego e renda durante a baixa temporada, e detalha os cuidados necessários para garantir a proteção dos animais. Ele também fala sobre os desafios impostos pelas mudanças climáticas, os riscos da exploração de petróleo e o trabalho de monitoramento realizado pelo Instituto Baleia Jubarte ao longo de quase quatro décadas
O pesquisador também destaca a importância ecológica das jubartes. “Quanto mais baleias tivermos, mais saudáveis ficarão os oceanos”, afirma. Ao falar sobre a relação entre seres humanos e esses gigantes do mar, ele deixa uma reflexão: "A resiliência das baleias é a maior lição que elas nos deixam". Confira a entrevista a seguir.
A temporada de avistamento de baleias acaba de começar no litoral brasileiro. Aqui mesmo, na Baía de Todos-os-Santos, os primeiros registros já foram feitos. O que esse início da temporada representa para os pesquisadores e quais são as expectativas este ano?
Todos os anos ficamos sempre ansiosos para confirmar a chegada das baleias. Nós estamos monitorando as baleias há mais de 30 anos. Os primeiros registros sempre trazem aquela satisfação de que elas estão de volta e todas as oportunidades e experiências que elas nos proporcionam a cada ano. Este ano, temos uma expectativa muito boa. Parece que já há muitos registros em diversas localidades, desde o Sudeste, São Paulo e Rio de Janeiro, subindo pelo Espírito Santo até a Bahia. Promete ser uma temporada espetacular.
O turismo de observação de baleias vem crescendo ano após ano no Brasil e movimentando a economia de cidades como Caravelas e Praia do Forte. Qual é a importância dessa atividade não apenas para a conservação das jubartes, mas também para o desenvolvimento sustentável das comunidades?
O turismo de observação de baleias é uma estratégia de conservação de grande sucesso que nós desenvolvemos. Lá nos anos 2000, as primeiras atividades ocorreram em Praia do Forte, no Litoral Norte da Bahia, fomentadas e incentivadas pelo Instituto. O Instituto Baleia Jubarte enxerga o turismo de observação como uma ferramenta de conservação. Além de agregar valor econômico à baleia, nós temos atividades econômicas ligadas ao uso sustentável desse patrimônio, gerando emprego e renda para as comunidades locais. Há ainda uma especificidade: as jubartes vêm de junho a novembro, sempre no período de baixa temporada do litoral. É o Inverno, quando o turismo nessas regiões diminui, e a observação de baleias ajuda a aquecer a economia e atrair novos visitantes.
Hoje, aqui na região de Abrolhos, em Caravelas, que é o berço da jubarte e abriga o primeiro parque nacional marinho do Brasil, o maior fluxo de turistas ocorre em julho, quando as baleias estão presentes. Já superou a época do Verão. Em Praia do Forte, essa atividade também é muito representativa. Nós já fizemos uma avaliação da atividade econômica e só o turismo de observação de baleias movimenta mais de R$ 10 milhões por temporada na economia da região de Praia do Forte. No litoral de São Paulo, essa atividade também vem salvando a baixa temporada. Acima de tudo, o mais importante é que essa atividade é a maior ferramenta de sensibilização do público. O que a gente precisa para salvar as baleias e os oceanos é um público sensibilizado, engajado em proteger as baleias, o oceano e o meio ambiente. Essa experiência muda a forma como as pessoas enxergam essas questões.
Você falou de Abrolhos. A Bahia, especialmente essa região, é considerada o principal berçário das baleias jubarte no Atlântico Sul. O que faz de Abrolhos uma área tão importante para a reprodução da espécie?
É a característica geográfica e formação geológica do banco dos Abrolhos, que é importante para as baleias. Aqui, a plataforma continental, que é a parte rasa do fundo do mar, é muito extensa. Enquanto em boa parte do litoral ela tem cerca de 10 ou 15 quilômetros, aqui ela ultrapassa os 150 quilômetros. Na prática, é como um grande terraço, como se fosse a piscina infantil do clube. Temos águas quentes, tranquilas, protegidas e sem predadores. É um lugar ideal para baleia parir, amamentar os filhotes e encontrar o namorado. Por isso Abrolhos faz tanto sucesso com as baleias jubartes.
As baleias jubartes vêm de junho a novembro, sempre no período de baixa temporada de turismo no litoral
Com o aumento do turismo de observação de baleias, também crescem os desafios. Quais são os erros mais comuns cometidos por turistas e embarcações durante a observação das baleias e como eles podem ser evitados?
Isso realmente acontece. Como todas as atividades, têm pessoas que desconhecem os procedimentos e outras que ignoram. O principal problema é o excesso de aproximação. As embarcações devem permanecer sempre a mais de 100 metros da baleia. Outro erro muito cometido é quando mais de duas embarcações se aproximam do mesmo animal ao mesmo tempo. O excesso de barcos também é prejudicial. Mas essa é uma dinâmica muito complexa. O importante é conscientizar cada vez mais pessoas. Nos locais onde há essas dificuldades, precisamos estar presentes, orientando, educando e divulgando as regras. O Instituto tem sido muito responsável no fomento dessa atividade.
A cada temporada, aumenta o número de avistamentos de baleias em diferentes pontos do litoral brasileiro. Esse fenômeno é explicado apenas pelo crescimento da população de jubartes ou também reflete outros fatores, como o trabalho desenvolvido pelo Instituto?
Acho que são os dois. A população de jubartes vem crescendo sistematicamente nos últimos 20 anos e continua aumentando. Então, a cada ano, temos mais baleias no litoral. Mas também houve um aumento muito grande na divulgação. Hoje há mais pessoas fotografando, registrando, publicando notícias e compartilhando imagens das baleias. É um misto dos dois: mais informação, mais imagens, mais pessoas observando e mais baleias. E isso vai continuar.
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Em alguns anos, houve um aumento expressivo no número de encalhes de baleias. Como esses casos são investigados e o que eles podem revelar sobre a saúde dos oceanos e os impactos das atividades humanas sobre esses animais?
Isso é natural. Conforme temos mais baleias vivas, também teremos mais baleias mortas. Nós temos um programa que monitora todos os encalhes de baleias jubartes no Brasil. No trecho entre Bahia e Espírito Santo, o Instituto é o responsável por avaliar essas mortes, justamente onde ocorre o maior número de encalhes. É importante monitorar esses episódios para identificar situações críticas. Já houve anos em que o número de encalhes dobrou, mas não encontramos uma causa específica. Nosso objetivo é identificar justamente as causas que possam estar relacionadas à atividade humana, como atropelamentos ou enredamentos em redes de pesca. Monitorar o motivo da morte é importante. Nós temos que fazer isso permanentemente. Mas hoje, do ponto de vista estatístico, poucos animais morrem por interação com atividades humanas. A grande maioria morre por causas naturais. Temos uma mortalidade de muitos filhotes. Cerca de metade dos encalhes registrados todos os anos é de filhotes recém-nascidos, que é aquela mortalidade neonatal natural em todas as espécies. E alguns adultos que vão morrendo ao longo do litoral. Existem ocasionalmente casos de emalhe, casos de atropelamento. A grande maioria a gente não consegue precisar a causa da morte, mas não há indícios de atividade humana. Sempre que um animal morre, fazemos necropsia, coletamos amostras biológicas e tentamos entender a causa da morte. Até o momento, não identificamos nenhuma influência humana alarmante. Mas seguimos monitorando.
Em Abrolhos, temos águas quentes, tranquilas, protegidas e sem predadores. É um lugar ideal para baleia ter seus filhotes
Falando agora das mudanças climáticas: elas já estão afetando as baleias? Quais são os principais impactos observados até agora?
Sim, esse é um tema que nos preocupa bastante. É muito difícil medir exatamente o que é uma mudança de comportamento causado pelas mudanças climáticas. Mas o que mais chama nossa atenção é a disponibilidade de alimento. O alimento da jubarte é o krill, um pequeno crustáceo, camarãozinho, que têm grande abundância na região antártica. Ele também tem sua variação de disponibilidade ligada às condições climáticas. Já tivemos anos em que acreditamos que alterações climáticas reduziram a oferta de alimento, provocando um aumento na mortalidade. Essa é nossa principal preocupação: tentar entender como as mudanças climáticas afetam a disponibilidade de alimento e como isso interfere no ciclo de vida das jubartes. Nossa estratégia para mitigar isso é sensibilizar as pessoas, estimular um consumo mais consciente de energia, água e incentivar o descarte correto dos seus lixos. Trabalhamos essa parte de educação ambiental usando o carisma da baleia para conscientizar o público e mostrando que eles também têm responsabilidade sobre tudo isso.
Os microplásticos nos oceanos também preocupam? Que impactos eles podem causar às baleias?
Ainda estamos tentando entender os impactos dos microplásticos não só para a saúde dos cetáceos, mas para a própria saúde humana. O que podemos afirmar é que, sim, os cetáceos estão contaminados com microplásticos, tanto as baleias, como os golfinhos mais costeiros, os botos, as doninhas. Estamos monitorando e sempre encontramos microplásticos nos seus estômagos. Ainda conhecemos pouco sobre os impactos disso na saúde desses animais. Pode interferir em tudo, mas a gente ainda não conhece os efeitos.
O Brasil possui uma legislação considerada avançada para a proteção das baleias. Na prática, ela é suficiente ou ainda existem lacunas que precisam ser preenchidas?
A legislação específica é muito focada na questão da aproximação das baleias, e eu considero que ela é suficiente. Sempre pode ser aprimorada para incorporar novas tecnologias, como drones e jet skis, que não existiam quando ela foi criada. Sempre pode evoluir, mas acho que ela ainda é suficiente. O maior problema hoje não é a legislação, mas sua fiscalização. Nosso país ainda carece de estrutura para que os órgãos responsáveis estejam presentes no mar orientando, fiscalizando e protegendo as baleias. A gente vê os servidores comprometidos, dedicados, mas infelizmente nosso país ainda tem uma estrutura insuficiente para estar no mar, orientando os barcos e protegendo as baleias. Nosso problema não é a legislação. É a estrutura de vigilância.
A exploração de petróleo e gás em áreas próximas a ecossistemas sensíveis, como Abrolhos, continua gerando debates. Quais são os principais riscos dessa atividade?
O maior risco é um eventual derramamento de petróleo, que afetaria toda a fauna marinha, como já vimos acontecer em outros lugares do mundo, inclusive aqui próprio no Brasil. Esse é o risco permanente. Se houver um derramamento pode afetar toda a fauna marinha oceânica. Essa é a nossa grande preocupação. Nós temos uma série de atividades de pesquisa sobre como os cetáceos se relacionam e convivem com a atividade de exploração. O ruído, a presença das plataformas, os navios, as atividades sísmicas. Tudo isso vem sendo monitorado e pesquisado. Até o momento, não identificamos impactos alarmantes nesse sentido. E as pesquisas buscam justamente reduzir essas interferências. Mas o grande risco é o vazamento. Na região de Abrolhos, felizmente, as empresas desistiram da exploração. Não há interesse em perfurar ali, principalmente porque ás águas de Abrolhos são rasas. Hoje, o Brasil é especializado em águas profundas, do pré-sal. Então, não tem motivo para perfurar naquela região de Abrolhos, que seria muito pior. Numa região rasa, o impacto de um vazamento de petróleo seria muito mais grave do que em águas profundas. Mas o risco da atividade é permanente. Acho que as empresas têm cumprido a legislação. Acho que a legislação também é suficiente. A indústria também tem diversos programas de monitoramento da interação com os cetáceos. Nós fazemos parte desse monitoramento. Podemos sempre aprimorar. E essa é uma missão nossa: garantir a conservação das baleias, mas harmonizar com a atividade humana. Porque a sustentabilidade é a continuidade de tudo.
Durante muitos anos, o Japão liderou um movimento para flexibilizar a proibição da caça comercial de baleias. Isso ainda representa uma ameaça importante para a espécie?
Existe um acordo internacional. A International Whaling Commission (IWC) ou Comissão Baleeira Internacional (CBI), na sigla em português, controla essa questão. O Japão há poucos anos pediu para sair da moratória, deixou a comissão e retomou a caça comercial, mas apenas em suas águas jurisdicionais. Para as populações de baleias que estão próximas, às minkes e até algumas jubartes, volta a ser um risco. Mas, do ponto de vista global, a caça deixou de ser uma grande preocupação. Não há mais um interesse, existe, sim, pelo contrário, um entendimento de que a conservação e o uso sustentável, por meio do turismo, são os melhores caminhos. Para a população de jubartes, a caça já não representa uma ameaça relevante. E, para nossa população de jubartes, com certeza não.
Falando agora sobre o Instituto Baleia Jubarte. Após quase quatro décadas de atuação, qual é o principal legado dessa trajetória?
Eu acho que a gente produz muito conhecimento. O projeto que sempre foi baseado em pesquisa e conhecimento científico para contribuir na tomada de decisão. Então, o Instituto traz um legado de pesquisa, conhecimento, não só de monitoramento, onde as baleias estão, o que elas estão fazendo aqui, quantas elas são, mas evoluindo com isso. Traz o próprio desenvolvimento dessa pesquisa. Esse é um legado que a gente vem trazendo hoje. Muitas outras instituições, universidades, estão com pesquisas de ponta ligadas também às baleias. O instituto foi pioneiro nisso e trouxe essa questão para o cenário nacional. Temos uma pegada muito importante na conscientização, divulgação, comunicação. Sempre apelamos muito para a comunicação, para a imagem da baleia, para engajar cada vez mais pessoas, não só no turismo, mas na vida das baleias. Esse é outro legado muito importante. E o próprio legado do Instituto é ser resiliente, forte, atuante. Somos uma instituição do terceiro setor que atua em extrema sintonia com o governo, com as empresas privadas, para conservar. É o papel perfeito do terceiro setor.
Quanto mais baleias tivermos, mais saudáveis ficarão os oceanos. Porque teremos muito mais nutrientes
Hoje, o Instituto tem unidades em Caravelas, Praia do Forte, no Espírito Santo e em São Paulo. Fale um pouco sobre essa estrutura e como ela contribui para o trabalho de conservação das baleias.
O projeto nasceu em 1988, com a criação do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, em Caravelas. De lá para cá viemos seguindo as baleias. No ano 2000, abrimos nossa sede em Praia do Forte. E temos também uma equipe instalada e bastante presente em Salvador. Conforme as baleias foram se espalhando fomos nos espalhando também. Em 2018, inauguramos a sede do Espírito Santo, em Vitória. Desde 2022, também estamos presentes em Ilhabela, no litoral de São Paulo. Além dessas quatro sedes, temos equipes atuando em diversas cidades, como Rio de Janeiro, Itacaré e Porto Seguro. Temos quatro sedes físicas e diversas unidades de operação. São mais de 80 pessoas dedicadas à conservação das baleias.
As baleias desempenham um papel fundamental no equilíbrio dos oceanos. Como elas contribuem para a saúde dos ecossistemas marinhos?
As baleias têm um papel ecossistêmico muito importante. As baleias são as jardineiras dos oceanos. Elas se alimentam nas regiões polares e, quando sobem para as regiões tropicais, sempre defecando, distribuem nutrientes por meio de seus dejetos, que ficariam presos na região antártica. Essa distribuição de nutrientes faz com que toda vida no oceano aumente. Aumenta o consumo de CO2, que é um papel muito importante das baleias, a produtividade marinha, e consequentemente aumenta a pesca, e ainda fortalece toda a cadeia ecológica. As baleias têm um papel ecológico muito importante. Quanto mais baleias tivermos, mais saudáveis ficarão os oceanos. Porque teremos mais nutrientes em todos os oceanos. Esse é um papel muito importante das baleias também.
Para encerrar, muita gente diz que as baleias têm muito a nos ensinar. Na sua visão, qual é a principal lição que elas deixam para os seres humanos?
O que mais me impressiona é a resiliência. Elas foram quase dizimadas e, pacientemente, estão se recuperando. Mesmo assim, convivem com a gente e frequentemente se aproximam dos barcos de pesquisa e de turismo. Elas interagem com a gente. Essa capacidade de recuperação e convivência é a maior lição que elas nos deixam.
Raio-X
Eduardo Camargo é engenheiro químico, mestre em Tratamento Biológico de Efluentes pela EESC-USP e especialista em Gestão Ambiental pela POLI-USP. Atua na conservação marinha desde 2002, com trajetória ligada à região de Abrolhos. Preside o Instituto Baleia Jubarte desde 2018, após retornar à instituição como diretor executivo em 2017. Entre 2011 e 2016, foi gerente do Programa Marinho da Conservation International Brasil, onde trabalhou com áreas marinhas protegidas e pescarias sustentáveis. Dedica-se à conservação dos oceanos por meio da pesquisa, da educação ambiental e da observação de baleias, em diálogo com governos, comunidades e o setor privado.


