Busca interna do iBahia
HOME > ENTREVISTAS
Ouvir Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

ENTREVISTAS

"O setor privado precisa florescer sem depender do Estado", diz Zeina Latif

Zeina Latif analisa os entraves ao crescimento econômico do Brasil

Divo Araújo
Por Divo Araújo

Siga o A TARDE no Google

Google icon
Economista Zeina Latif
Economista Zeina Latif - Foto: Divulgação

O Brasil desperdiçou oportunidades, criou um ambiente hostil aos investimentos e ainda não conseguiu resolver problemas básicos que travam o crescimento econômico.

Essa é a avaliação da economista Zeina Latif, que defende uma mudança de rumo na condução das políticas públicas e critica a dependência do setor privado em relação ao Estado.

Tudo sobre Entrevistas em primeira mão!
Entre no canal do WhatsApp.

Em Salvador, onde participou do Index 2026, evento promovido pelo Sebrae e pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Zeina concedeu esta entrevista ao A TARDE, na qual afirmou que o país “ficou tão preocupado em proteger setores” que deixou em segundo plano funções essenciais, como educação.

“Se o setor privado começa a depender do Estado, aí você abre espaço para o que a gente chama de patrimonialismo”, explica. “Quem está mais próximo do poder leva mais.”

Ao longo da conversa, a economista também analisa os efeitos da taxa de juros elevada, os limites da Reforma Tributária, os entraves à produtividade e os impactos do chamado custo Brasil.

E critica a insegurança jurídica que, na avaliação dela, afasta investimentos e reduz a competitividade do país.

Confira a entrevista completa:

No Index Bahia, você abriu o debate propondo a atração de investimentos como vetor de desenvolvimento de uma região. Em um país marcado por desigualdades regionais históricas, até que ponto essa estratégia consegue, de fato, reduzir essas assimetrias?

Para mim parece bastante claro que as estratégias que a gente fez não deram certo. O hiato diminuiu nos últimos anos, é verdade, mas a gente está falando da diferença muito grande de desempenho da economia e de indicadores sociais.

Eu não tenho esse cálculo, mas parece justo falar que nós não gastamos bem esse dinheiro. Pensando nas referências de pesquisas lá fora, para uma região se desenvolver - vale para país, vale para região - o setor privado tem que florescer, não pode ficar dependendo do Estado. Se começa a depender do Estado, aí você gera ineficiências, abre espaço para o que a gente chama do patrimonialismo.

Quem está mais próximo do poder leva mais, quem tem grupos de pressão mais organizados leva mais. Você abre espaço para a corrupção. Então, uma coisa é você dar apoio para um setor nascente, que no primeiro momento tem custos muito elevados, mas não tem ainda como diluir esses custos, porque não tem ainda receita suficiente. Isso é uma coisa: dar um impulso para uma empresa de qualquer natureza nascente.

Aí você pode eventualmente dar um tratamento especial para algum setor que tem ali uma dificuldade maior do setor privado. Uma coisa é abrir um salão de cabeleireira, outra coisa é ter um setor que depende mais de capital intensivo, que é mais sofisticado. Aí às vezes precisa mesmo, porque a obtenção de crédito é difícil, o risco é alto.

E se o risco é alto o crédito é mais escasso. Mas não é para depender o tempo todo desse tipo de desenho - de empréstimo subsidiado, de renúncias tributárias -, porque gera ineficiências. Há um momento que você tem que deixar o setor florescer.

E como o Estado pode ajudar de forma mais efetiva o setor privado a florescer?

O Estado tem que fazer a sua parte, que é cumprir as funções típicas de Estado. Isso vai desde evitar desequilíbrios fiscais, que fazem os juros serem elevados, e a macroeconomia muito instável, porque afugenta o investimento.

Cuidar da obra, da qualidade de vida das pessoas, que no fundo é construir capital humano. E aí, quando a gente pensa na questão regional, com um olhar para aquilo que são as vantagens competitivas da região, algumas você pode desenvolver mais.

Quando a gente fala em desenvolver capacidades de uma região, é sempre pensar em ter mão de obra qualificada, treinada, para dar conta. Isso é a primeira coisa. O que faltou no Brasil, é que a gente não conseguiu que o Estado cumpra as suas funções.

Ele ficou às vezes tão preocupado em proteger uma região ou um setor, que não cumpriu as suas funções essenciais, que é aquilo que o setor privado não consegue entrar. Falo de educação básica, saneamento básico... Na saúde, a gente conseguiu muitos avanços. Mas tem o quadro desse Estado disfuncional.

A gente está falando de má alocação de recursos e de uma insegurança jurídica muito grande. Cada vez que você tenta proteger um, proteger outro, gera mais complexidade nas nossas regras tributárias, regulatórias, de comércio exterior. Tudo é complexo no Brasil. Às vezes por iniciativas que são bem intencionadas, mas que só trazem mais complexidade.

Um exemplo agora foi essa reforma do IVA (Imposto sobre Valor Agregado), que foi um passo importante, mas podia ter saído muito melhor. Mas daí começa: tem que proteger esse aqui, tem que proteger aquele lá, agora aquele lá também. Aí a gente tem um sistema muito mais complexo do que era o desejável. E nem é garantia de sucesso.

O Brasil — governo, empresas e instituições — parece ter uma dificuldade crônica de coordenação. O que explica essa falha recorrente?

Isso tem bases históricas no país. Esse chamado patrimonialismo, essa busca dos setores de terem vantagens dentro do sistema. Isso está na raiz do nosso país. Só que é claro que esse patrimonialismo foi ganhando novas feições, e se expandiu e muito. A gente tem tantas corporações... Agora mesmo, abre o jornal que você vai ver.

Vai criar o penduricalho do não sei o que, vai criar o piso de remuneração dos profissionais de não sei o que. Isso é patrimonialismo. Só que não tem milagre na economia. Se um grupo está sendo protegido, alguém está tendo que pagar.

Aí vai pagar como? Com carga tributária, com juros mais elevados. A primeira coisa, quando se pensa em uma política pública, qualquer que seja, é que é muito fácil fazer e é difícil tirar depois.

Para tirar depois é um problema, porque legitimamente ou não, todo mundo quer defender a manutenção. Você fala, não, eu fiz um investimento aqui na minha empresa, ou na minha região contando com esse benefício, agora você vai tirar? Não, não pode.

Mas a gente precisa de um equilíbrio maior, e tem que ter mais técnica na hora que vai propor uma política pública. O que a gente observa é que o Congresso toma a decisão, o Supremo toma a decisão, o Executivo toma a decisão, e não têm estudos para dizer se aquilo vale a pena ou não.

A disputa global por investimentos está cada vez mais intensa. O que o Brasil precisa fazer para jogar esse jogo de forma competitiva?

Não tem bala de prata aqui, e tampouco é uma agenda para um presidente da República ou um governante resolver. Até porque precisa haver muita coordenação entre os entes da federação e diálogo com os poderes.

Mas um ponto essencial é essa questão da insegurança jurídica, que afasta muito investimento do Brasil. Eu acho que a gente podia estar atraindo muito mais. Diante das nossas possibilidades, era para a gente estar atraindo muito mais investimento. Mas a judicialização no país é alta.

Quem contrata mão de obra já sabe que vai ter o risco de um processo lá na frente. Tem um contencioso tributário que não tem nada nem de longe parecido com o que a gente tem no Brasil.

O cálculo do pessoal do Insper é de um contencioso de 75% do PIB. Não tem nada parecido no mundo. Mas nem de longe – estamos falando no mundo de percentuais de um dígito. E tem a insegurança jurídica...

Você pega, por exemplo, a fala comum de um CEO de multinacional, quando compara as métricas do Brasil com as de outros países. O número de processos, tributários, trabalhistas, tudo no Brasil é superlativo. E, junto com isso, vem o exército que você precisa contratar para cuidar desse custo do Brasil. É recurso que você deixa de usar no seu negócio.

A Reforma Tributária foi apresentada como um marco para melhorar o ambiente de negócios. Na sua avaliação, ela resolve os principais entraves?

A Reforma Tributária também podia ter saído melhor, mas ela tende a melhorar esse ambiente. A questão é que menos do que seria o potencial dela. Sensivelmente menos do que seria o potencial dela. Podia ser muito melhor.

Mas o ponto é: a insegurança jurídica afeta e muito. Porque afeta a taxa de retorno do seu investimento. É importante a questão fiscal, para o país ter uma carga tributária e juros mais baixos, isso é óbvio.

A gente tem ainda um ambiente macroeconômico, uma carga tributária que atrapalha.

Você diria que a indústria é o setor mais sensível a esse custo Brasil?

Eu não tenho dúvida que a indústria sofre mais. Quando começa a ter problema na política econômica, é o primeiro setor que denuncia o problema. Porque no agro, ou no setor de commodities, a carga tributária é menor.

Muitas pessoas do agro pagam na pessoa física. Isso simplifica muito. Eles não dependem tanto de mão de obra. Claro que depende, mas não como a indústria tradicional, que precisa ter uma mão de obra treinada.

O setor de serviços tem muita informalização e não concorre com o produto importado. Então, não há dúvida que, no conjunto da obra, a indústria é a que mais sofre. Todas essas reformas horizontais que são importantes para o país crescer, para a indústria é particularmente mais importante.

Falando dessas reformas horizontais, quais seriam as mais importantes para destravar o crescimento no Brasil?

Tudo que vai impactar a rentabilidade. Eu já falei da insegurança jurídica. A tributária ajuda a reduzir uma parte. Tem a burocracia ligada ao tributário. Mas, é claro, tem as licenças de toda ordem, essas NRs, enfim, é uma agenda que começou a avançar um pouco.

Mas, meia-volta, é uma regra nova que é criada. Isso cria um ambiente de incertezas. Para a indústria, é particularmente importante essa questão do ambiente de negócios que é custo na veia. No caso, para a indústria, machuca muito a nossa carga tributária.

Por isso que essas medidas de contenção de despesas deveriam ser seguidas por presidente atrás de presidente. A gente precisa ter uma sequência de presidentes que abracem essa agenda. Para conseguir, lá na frente, colher uma carga tributária um pouco mais baixa.

O debate fiscal ganhou centralidade nos últimos anos. Sem um ajuste mais profundo nas contas públicas, o Brasil compromete sua capacidade de atrair investimentos?

Ah, compromete. Você vai investir para quê com a Selic nesse patamar? Para quê você vai tomar risco? Só setores que têm taxa de retorno elevada que vão entrar ou tem algum benefício do governo que dá sustentação ao seu retorno.

Senão, fica muito difícil. Só acho que a gente deve ter que tomar um certo cuidado para não pôr um peso excessivo nessa questão. Porque se a gente tivesse um ambiente menos hostil ao investimento, sem dúvida seria mais palatável.

Na sua avaliação, é necessário manter uma política monetária tão dura para combater a inflação?

Eu acho que a gente tem no Brasil uma taxa de juros estruturalmente elevada, principalmente por causa da questão fiscal. Então, você sobrecarrega o Banco Central. Não tem muito jeito. Agora, não quer dizer que o tempo todo a gente tem que estar com os juros pressionados.

Eu mesmo acho que o Banco Central deveria continuar cortando os juros. Já está bastante elevado. Tem margem para cortar. A questão é que estruturalmente a gente precisa de juros elevados. E é o fiscal, o fiscal, o fiscal. Não adianta querer fazer milagre.

Todas as vezes que a gente tentou fazer milagre e cortou demais os juros, a inflação voltou com mais força. Foi assim lá no governo Dilma (Rousseff), foi assim na pandemia. A Selic chegou a ser 2%. Não se sustenta, não adianta.

Outro problema sobre o qual você fala muito é a baixa produtividade, que parece ser uma dificuldade generalizada da economia brasileira. Como enfrentar essa questão?

Todos esses fatores que eu falei para você são fatores que tiram produtividade. O setor produtivo, para o mesmo estoque de capital que tem, para o mesmo estoque de mão de obra, poderia estar produzindo sensivelmente mais. Mas você não consegue porque tem uma economia muito travada.

Tudo que atrapalha o setor produtivo machuca a produtividade. Agora, é claro que não é só isso. Tem a questão da qualidade da mão de obra. Esse fator é importante. O Estado não consegue cumprir bem sua função. O setor privado tem dificuldades, porque se você pega uma pessoa que já não teve boa escola no início, vai ser muito mais difícil treiná-la para outras ocupações. É muito mais difícil.

Tenta aprender uma língua já adulto. É muito mais difícil. Tem coisa que tem que ser da infância. O Estado falha. Uma das formas de você acumular capital humano é no ambiente de trabalho. Quando chega no ambiente de trabalho, você não consegue acompanhar, porque falta treinamento. Porque o empresário está tendo que lidar com tanta dor de cabeça fora da porta da fábrica, do seu estabelecimento, que ele vai cuidar menos do treinamento de pessoas, de qualificação.

Vai utilizar menos métodos modernos para produção, usar tecnologia digital para melhorar a produtividade do trabalhador. As tarefas repetitivas poderiam ser feitas de forma robotizada e, com isso, aumentar a produtividade do trabalhador. Tudo isso compõe essa baixa produtividade do Brasil.

Imagino que esses desafios sejam ainda maiores quando se fala de pequenas e microempresas. Políticas como o Simples ajudam na inclusão dessas empresas?

Da forma que está o Simples, não, porque a pessoa não quer crescer. Ela não quer crescer, porque se ela crescer, ela vai pagar mais imposto. Então, ela não vai investir lá, prefere não crescer. Veja, uma coisa é você simplificar a estrutura, mas do jeito que a gente faz, não melhora.

Tem até pesquisa nessa linha que mostra que o Simples não entregou aquilo que prometia. Então, precisaria rever. Agora, de novo, é melhor proteger quem está começando do que o pequeno.

O pequeno tem que ter tudo mais simplificado. Isso sim. Ele não tem condição de ter um time de tributaristas para cumprir todas as obrigações. Por isso, tem que ser mais simplificado.

Mas tem que tomar muito cuidado para não proteger excessivamente. É que nem filho, sabe? Você protege demais, o sujeito não vai estar preparado para a vida. A analogia não é muito feliz, mas é um pouco isso. Se você protege demais um setor, você cria desincentivo para ele crescer.

Como se já não tivéssemos problemas suficientes aqui dentro, o cenário internacional também traz muitas incertezas. Há guerras, tensões geopolíticas e mudanças nas cadeias globais. Isso abre oportunidades ou aumenta os riscos para o Brasil?

Deus deve ser brasileiro, porque realmente os país está bem posicionado na geopolítica. Abriu-se uma janela aqui para a gente. Estamos distantes dos conflitos, temos insumos que são importantes, temos uma matriz de energia limpa. Então, tem oportunidades. Agora é isso.

Para a gente de fato conseguir se beneficiar dessa janela de oportunidades, a gente tem que promover um ambiente mais previsível na macroeconomia e na microeconomia. E o que a gente vê é sempre a ideia de vamos proteger, vamos incentivar aqui, vamos incentivar ali. Agora mesmo está tendo a discussão sobre minerais críticos.

Veja, eu não conheço o projeto, mas o risco é sempre de você acabar criando mais um incentivo e não cuidar do entorno. Você tenta lá fazer regras, mas não cuida de todos os outros fatores que são necessários para se viabilizar investimentos no Brasil. Não só reduzir carga tributária.

Achar que vai reduzir carga tributária do setor, dar crédito subsidiado vai resolver. Não. Porque a gente faz tanto isso e não resolveu. Tem alguma coisa que está faltando nessa equação. O Estado não pode abrir mão das suas funções primordiais.

Na hora que ele faz isso, qualquer política pública vai para o vinagre. Se você vai lá, dá crédito subsidiado, mas depois gasta um monte, a Selic vai para 15%, você jogou fora a sua política pública.

Para a gente concluir, olhando para a Bahia — um estado com potencial industrial, energia renovável e uma posição estratégica — o que ainda falta para transformar essas vantagens em um crescimento mais consistente e duradouro?

Tem que dar um passo atrás e olhar essas políticas públicas que estão sendo conduzidas. A Bahia está formando mão de obra? A Bahia está conseguindo gerar um ambiente propício para atrair investimentos de fora que complementem com aquilo que são as vantagens competitivas da região.

Eu vou dar um exemplo. Recentemente saiu uma reportagem falando de fábricas ligadas à produção de cacau, chocolate, em São Paulo. Por que isso não está acontecendo na Bahia? O agro é tão importante aqui... Aliás, dentro da Bahia o grau de desigualdade é grande. As regiões do agro vão melhor. Por que a gente não está conseguindo aproveitar melhor essas vantagens competitivas? Isso vale para a Bahia, vale para o Brasil. Onde o Estado está falhando? E aí vai toda essa discussão que a gente fez.

A carga tributária é alta, a insegurança jurídica é alta, eu não tenho mão de obra. Agora, olhando os números dos indicadores sociais da Bahia, de fato, tem trabalho que precisa ser feito. Os indicadores sociais precisam ficar mais próximos da experiência de outros estados.

Realmente, é preciso entender o que está acontecendo. Os índices de pobreza estão muito elevados, os indicadores sociais não estão evoluindo como deveriam. Até teve algumas melhoras, mas, enfim, era esperada uma melhor evolução. E os indicadores de educação estão bem frágeis. Tem trabalho para ser feito.

Raio-X

Zeina Latif é formada em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), onde também concluiu o mestrado e o doutorado.

Com ampla trajetória no mercado financeiro, foi economista-chefe do Banco Bilbao Vizcaya e da XP Investimentos, uma das maiores corretoras do país.

Também foi secretária de Desenvolvimento Econômico do Governo de São Paulo. Atualmente, é sócia da Gibraltar Consulting, colunista do jornal O Globo e integrante de conselhos administrativos e consultivos.

É autora do livro Nós do Brasil: Nossa Herança e Nossas Escolhas, publicado pela Editora Record.

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.

Participe também do nosso canal no WhatsApp.

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Email Compartilhar no X Compartilhar no Facebook Compartilhar no Whatsapp

Tags:

economia Zeina Latif

Siga nossas redes

Siga nossas redes

Publicações Relacionadas