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Agroindústria avança e gera valor na Bahia

Expansão da produção agrícola abre caminho para nova etapa do desenvolvimento

Luciana Amorim
Por Luciana Amorim
Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá foi criada em 2004
Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá foi criada em 2004 -

Segundo maior produtor agrícola do País, o estado da Bahia se destaca no cenário nacional com crescimento linear, através da ampliação da área cultivada, investimento em tecnologia, capacitação dos produtores, apoio à agricultura familiar e ao agronegócio e melhoria da infraestrutura de escoamento. O momento, agora, exige um passo ainda maior: verticalizar a produção, por meio do incentivo ao beneficiamento, e conquistar os mercados interno e externo. A Bahia mira, portanto, a transformação do campo em produto industrial de alto valor agregado.

A agroindústria vem a reboque de uma expansão acelerada na produção agrícola. De acordo com a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura (Seagri), o setor cresceu 8,4% em 2024, com recorde histórico de R$ 47,3 bilhões no valor de produção. O Plano Safra Bahia 2025/2026 é o maior da história, com R$ 4,3 bilhões em recursos. Além do bom desempenho em grãos – com alta de 10,9% na safra 2024/2025 ante período anterior –, a fruticultura cresceu 30,5%, com montante de R$ 7,4 bilhões. Já a produção de leite passou de 800 milhões (2017) para 1,2 bilhões de litros (2024).

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“O governo projeta 2026 como ano de diversificação estratégica, ao investir no polo de fruticultura e sucos, expansão no Vale do São Francisco e no Litoral Norte/Recôncavo, com foco em extratores automáticos e agroindústrias de pequeno porte. Também está no radar o polo de bioinsumos e o incentivo à criação de indústrias de fertilizantes biológicos para reduzir a dependência externa, já que o Brasil ainda importa mais de 80% de fertilizantes”, explica o diretor de Desenvolvimento da Agricultura da Seagri, Assis Pinheiro Filho.

“Historicamente, nosso agro sempre foi muito forte na produção primária, mas nos últimos anos temos avançado de forma consistente na agregação de valor”, afirma a assessora de Economia da Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb), Bárbara Cordeiro. Na fruticultura, por exemplo, há ampliação significativa de unidades de beneficiamento, produção de polpas, sucos e frutas processadas, especialmente em regiões como o Vale do São Francisco e o extremo sul.

No caso dos laticínios, há crescimento relevante de pequenas e médias agroindústrias, muitas com identidade regional, focadas em queijos e derivados com maior valor agregado. “Ainda não estamos no nível ideal de industrialização, mas o movimento é claro e consistente”, avalia. As perspectivas são bastante positivas. A tendência é de fortalecimento de polos já consolidados e de surgimento de novas regiões com perfil agroindustrial. “O oeste baiano, por exemplo, já é altamente tecnificado na produção e começa a avançar mais no processamento. O Vale do São Francisco tende a se consolidar ainda mais como referência em fruticultura de exportação com valor agregado”, cita Cordeiro.

Como incentivo à verticalização, a Faeb trabalha na capacitação, oferecendo formação técnica e gerencial a produtores e agroindústrias. “Também atuamos com assistência técnica e gerencial, ajudando o produtor a melhorar produtividade, qualidade e gestão do negócio. Além disso, fazemos a articulação institucional para facilitar o acesso a crédito, políticas públicas e mercados”, lista. Outro ponto importante é o incentivo à organização produtiva, por meio de associações e cooperativas, fundamentais para viabilizar a agroindustrialização, sobretudo entre pequenos e médios produtores.

Com os caminhos abertos, produtores enfrentam, no entanto, problemas estruturais, a exemplo das vias de escoamento. A logística é um dos principais gargalos, principalmente em regiões mais afastadas dos grandes centros, o que impacta diretamente o custo e a competitividade. “O Estado também tem investido em recuperação de estradas vicinais e eletrificação rural para suportar as unidades de beneficiamento (freezers e extratores)”, completa Pinheiro Filho. Segundo ele, o governo inclui no rol de ações o incentivo à construção de silos em cooperativas, para melhoria da capacidade de armazenamento, e na expansão de redes trifásicas e fomento à energia solar no campo.

Para Bárbara Cordeiro, o crescimento do valor agregado da produção baiana resulta de uma combinação de fatores, como o avanço tecnológico no campo, maior profissionalização dos produtores e uma mudança de visão do próprio setor, que passou a investir mais em qualidade e diferenciação. “Hoje, não se trata apenas de produzir mais, mas de produzir melhor, com foco em mercado, rastreabilidade e valor agregado. Esse movimento fortalece toda a cadeia produtiva, gera mais renda no interior e amplia a competitividade da Bahia, tanto no mercado interno quanto externo”, pontua.

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Imagem ilustrativa da imagem Agroindústria avança e gera valor na Bahia
| Foto: Reprodução

Agricultura familiar

Pilar importante da segurança alimentar, a agricultura familiar é, segundo dados da Embrapa, responsável por mais de 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. O setor representa cerca de 77% dos estabelecimentos agrícolas do País, sendo fundamental para o desenvolvimento local. Cultiva itens essenciais como mandioca, feijão, café, banana e abacaxi, e emprega mais de 10 milhões de trabalhadores no campo, movendo a economia rural. Além disso, o foco na agricultura sustentável e agroecologia torna o setor fundamental para o desenvolvimento do País.

“A Bahia está implementando uma robusta estratégia para desenvolver a agroindústria familiar, focando na verticalização e agregação de valor aos produtos, o que gera impacto econômico significativo, distribuição de renda e dignidade para as comunidades rurais”, afirma Jeandro Ribeiro, diretor-presidente da Companhia de Ação Regional (CAR), vinculada à Seagri. Ele destaca que a Bahia é grande produtor de alimentos, com mais de 760 mil estabelecimentos rurais, dos quais quase 600 mil são da agricultura familiar – o equivalente a 15% do total nacional. “Somos o maior produtor de cacau e maracujá, o 2° de coco, 3° de café, 5° de mel e 7°de leite”, pontua.

Ações em nível estadual e federal vêm sendo desenvolvidas para incentivar o setor. Em setembro de 2023, a Bahia lançou programa para fomentar a agregação de valor. A iniciativa apoiou 400 agroindústrias familiares em 27 territórios baiano. A agroindustrialização, especialmente via cooperativas e associações, agrega valor, desconcentra e distribui renda, e injeta recursos diretamente na economia local. “A Cooperativa do Sertão processa frutas típicas do semiárido, vendendo para varejo, atacado e alimentação escolar”, exemplifica Ribeiro.

Outra ação importante é a realização de festivais de queijos artesanais, revelando a necessidade de legalização para muitos produtores. Políticas públicas como o SIM (Serviço de Inspeção Municipal) e o SUSAF (Sistema Unificado Estadual de Atenção à Sanidade Agropecuária) permitiram a saída da clandestinidade, elevando o número de cidades baianas com sistemas de inspeção de 43, em 2018, para 206, hoje.

O diretor de Desenvolvimento da Agricultura da Seagri, Assis Pinheiro Filho
O diretor de Desenvolvimento da Agricultura da Seagri, Assis Pinheiro Filho | Foto: Divulgação

“Empréstimos com o Banco Mundial e o FIDA garantem financiamento a associações e cooperativas sem acesso fácil a crédito. Editais são lançados, e 400 agroindústrias já foram financiadas para requalificação ou construção”, informa Ribeiro. As dificuldades de financiamento para produtores têm sido mitigadas através de incentivos fiscais. “A Bahia oferece crédito presumido de 100% do ICMS para produtos da agricultura familiar que têm selo de identificação, gerando crédito para quem compra, um incentivo exclusivo no Brasil”, diz.

No setor de laticínios, a Bahia avança com a estratégia de descentralização do processamento de leite com a entrega de 34 novas unidades regionais – Paratinga, Irecê, Palmas de Monte Alto, Itapirapuã, Jacuí –, visando atender o grande mercado consumidor de leite e derivados no estado. Já na fruticiultura, Ribeiro destaca a crescente produção na Chapada Diamantina e no norte.

Fundada há mais de 30 anos para criar opção de mercado aos produtores de leite do sul baiano, a Laticínios Davaca coleta mais de 750 mil litros de cerca de 5 mil famílias no estado. A fábrica está em Ibirapuã, perto da divisa com Minas e Espírito Santo, e emprega mais de mil pessoas na produção exclusiva de queijos e derivados, como manteiga e soro de leite em pó. A produção anual é de cerca de 30 mil toneladas. “Naquela época, as opções para os produtores eram limitadas (Nestlé ou cooperativa estadual), e não havia mercado robusto para o leite cru”, afirma Lutz Lima, diretor de Operações da Davaca.

A empresa atende o mercado interno. “O Brasil é importador de produtos lácteos, sofrendo concorrência predatória, especialmente do Mercosul. Há necessidade de políticas industriais mais agressivas para defender a cadeia produtiva nacional contra importados”, defende o empresário. Os planos para o futuro incluem a modernização e investimento em tecnologia. “Em outubro de 2025, fizemos grande automação no setor de mussarela para melhorar a qualidade e o volume de produção”, informa. Lima diz que projetos de expansão são estudados "com microscópio" devido às altas taxas de juros. “Isso torna o investimento proibitivo, incentivando investidores a manterem o dinheiro no banco em vez de arriscar em negócios, o que trava o PIB industrial”, avalia.

A necessidade de gerar renda no norte baiano, especificamente em Uauá, motivou a criação, em 2004, da Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc). Com apoio da ONG Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada e da comunidade católica, a cooperativa surgiu com 44 associados – hoje, são 285. “Produzimos uma variedade de itens, incluindo geleias (umbu, maracujá), compota de umbu, sucos, polpas congeladas, cervejas de umbu e doces (goiaba, banana com maracujá)”, lista a diretora comercial da cooperativa, Denise Cardoso.

Entre os cooperados, 70% são mulheres, capacitadas para fazer geleias e doces – opções para contornar a falta de energia elétrica na região, impedindo a refrigeração adequada à conservação de outros produtos. Em 2003, a Coopercuc foi uma das primeiras no País a acessar o Programa de Aquisição de Alimentos, da União, permitindo venda direta de produtos.

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