MUITO
A menina canta muito: como Baby do Brasil mudou o Carnaval da Bahia
Antes das divas do axé, Baby já fazia história no Carnaval baiano

Por Gilson Jorge

Em 1976, já sem Moraes Moreira, os Novos Baianos lançaram o seu próprio trio. Moraes havia formado a sua banda, A Cor do Som, que logo depois ganharia vida própria. Paralelamente, o artista assumiu em 1975 os vocais do Trio Armandinho, Dodô e Osmar, tornando-se o primeiro cantor de trio. Na última noite daquele Carnaval, há 50 anos, os dois trios se encontraram casualmente na Praça Castro Alves.
Pepeu Gomes puxou na guitarra o Hino do Bahia e a flamenguista Baby Consuelo se animou a cantar a letra, inflamando a parte tricolor da massa carnavalesca. "Eu peguei o microfone do surdo e mais que depressa cantei quase gritando: ‘Quem é o campeão dos campeões?’ sob os olhares espantados de toda banda, e a massa gritou: ‘É o Bahia’, então cantei a música toda", lembra a cantora, primeira mulher a puxar um trio.
Voz no trio elétrico ainda era um tabu na invenção de Dodô e Osmar. Apenas Moraes Moreira tinha ultrapassado a barreira do som vocal no trio elétrico, autorizado diretamente pela Família Macedo, um ano depois que Armandinho trouxe de volta às ruas o trio pioneiro que havia deixado de circular por falta de recursos. Desta vez, Osmar, Armandinho, Moraes, Pepeu e Baby, absolutamente eletrizados pela loucura do trio, encontraram-se na Praça do Povo.
"De repente, quando eu olhei para traz, o Trio Elétrico do seu Osmar vinha descendo para a praça e o maior medo era que o seu Osmar não aceitasse essa minha ousadia, mas para minha e nossa alegria, ele me deu um sorriso maravilhoso", afirma a cantora.
Assim, há 50 anos, Baby estreava como cantora de Carnaval, e surgia, de forma espontânea, o encontro de trios. Provocados por Osmar Macedo, os dois grupos combinaram de oficializar a partir de 1977 o encontro, que durante décadas levou foliões a amanhecer a Quarta-Feira de Cinzas na praça.
Solo
Mesmo longe dos Novos Baianos, a figura de Baby não parou de crescer. Em 1980, o Brasil quase inteiro se sentava à frente da TV de segunda a sábado por volta das 20 horas para assistir à novela Água Viva. Enquanto velas de windsurf inundavam a abertura do programa com a juventude carioca, um arranjo de cordas precedia a bela e doce voz de Baby Consuelo cantando Menino do Rio, de Caetano Veloso, pedindo a Deus que o protegesse.
Dois anos depois, no centenário de nascimento do escritor Monteiro Lobato, a mesma Rede Globo levou ao ar o especial Pirlimpimpim, um programa infantil baseado nas personagens do Sítio do Picapau Amarelo, obra-prima do autor. Uma das principais atrações do show foi uma cantora fluminense, então com 30 anos, que havia seduzido o país, ainda sob ditadura militar, com sua poderosa voz, uma energia aparentemente inesgotável e cabelos coloridos de azul, um escândalo para a época. Baby Consuelo, primeiro nome artístico da agora religiosa Baby do Brasil, apareceu na cena artística nacional como um furacão.
Nesse especial de TV, particularmente, Baby cativou o país vestida como Emília, a boneca gente, título da canção que compôs em parceria com o seu companheiro de então, o guitarrista Pepeu Gomes. Ambos ex-integrantes de um dos mais cultuados grupos musicais do Brasil, os Novos Baianos, cuja trajetória começou em Salvador, 13 anos antes do especial de TV. E que produziu o lendário álbum Acabou Chorare, que em 2007 foi escolhido o melhor disco da música brasileira pela edição em português da revista Rolling Stone.
E Baby não para. Agora, quando se celebram 50 anos de sua performance pioneira como vocalista de trio elétrico, a cantora e pastora prepara a turnê Arrebatamento, que depois da Quarta-Feira de Cinzas percorrerá cinco cidades dos Estados Unidos: Nova York, Houston, Miami, San Diego e Los Angeles. "Seguirei para as apresentações, com o meu Trio, Os Arrebatados, que toca todos os ritmos, como frevo, samba e muita swingueira, com uma superbanda incrível e com o repertório que vai da MPB, reggae, frevo, entre outros, até ao gospel", conta Baby. Antes disso, ela se apresenta no Carnaval baiano por quatro dias.
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A voz
Esse é mais um capítulo na vida da niteroiense Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, que desembarcou em Salvador sozinha na adolescência, fugindo da casa dos pais, e pouco depois conheceu Galvão e Moraes Moreira, que estavam formando um conjunto musical, do qual faria parte Pepeu Gomes, que se casaria com a cantora.
"Baby Consuelo começa, no primeiro disco dos Novos Baianos, como musa. Ela canta apenas uma música inteira. Mas a partir do Acabou Chorare, ela passa a ser a voz feminina da banda ", nota o cantor e compositor Paquito, dono de um canal no YouTube dedicado à música, o Jequietcong. No último dia 26 de dezembro, o canal trouxe, justamente, uma análise do disco Ferro na Boneca, cujo nome remete a uma expressão cunhada pelo falecido radialista França Teixeira.
Sobre as canções que Baby canta em Acabou Chorare, Paquito destaca que são músicas que parecem ter sido escritas para a cantora. "Ela é a própria menina que dança", analisa o cantor, referindo-se a A Menina Dança. Paquito destaca a voz e a interpretação como as grandes forças do trabalho de Baby, bem à frente do legado como compositora, mesmo em parceria com Pepeu, a partir do momento que a dupla deixa os Novos Baianos.
"E ela tem uma coisa interessante, que ao mesmo tempo que representa essa coisa do rock, ela teve influência de cantoras como Ademilde Fonseca, que era uma cantora de choro", afirma Paquito, ressaltando a particularidade de que esse é um gênero musical majoritariamente instrumental, com poucos cantores.
No aspecto comportamental, Paquito sublinha a mudança de chave que houve entre a irreverência do início da carreira e a sua postura atual. "É curioso e inquietante, que havia essa coisa libertária, radical, dos Novos Baianos, que era uma comunidade hippie. E Baby agora é uma conservadora religiosa. É o símbolo de uma crise que a gente vive", afirma Paquito.
Consuelo
Baby do Brasil, antes conhecida como Baby Consuelo, exerceu uma enorme influência no Carnaval de Salvador. Seja pela aparência, seja pela performance. Em cima do trio dos Novos Baianos, com seus cabelos coloridos, a cantora forjou um estilo que influenciaria outras estrelas carnavalescas. O icônico guitarrista Armandinho Macedo conta que uma vez avistou na avenida um trio elétrico comandado por uma voz feminina e julgou ser a sua amiga Baby. Era Sarajane.
O próprio musicou se deixou influenciar pela cantora telúrica. Armandinho estava em Nova York com a sua banda A Cor do Som para uma apresentação em praça pública em 1981, e Baby e Pepeu, que estavam na cidade, foram dar uma canja. Depois do show, a cantora levou o amigo a um salão de beleza e o convenceu a usar cabelos coloridos.
"Baby é uma pessoa maravilhosa. Está sempre em evidência, sempre agitando. Tem esse sangue artístico, de querer estar sempre no palco. Independente de sua vida particular, ela está sempre voltada para a arte", destaca Armandinho.
Amigo da cantora desde a época dos Novos Baianos, o guitarrista lembra com carinho do fato de, antes de se conhecerem pessoalmente, Baby ter assistido sua apresentação no programa A Grande Chance, de Flávio Cavalcanti, em 1968. Então com 15 anos, Armandinho tocou um pot-pourri de chorinhos, assombrando o Brasil inteiro, inclusive a menina fluminense, um ano mais velha, que ouvia chorinho em casa desde a infância.
No ano seguinte, Baby, ainda a jovem Bernadete, fugiria da residência dos pais e se mudaria para Salvador, que na época vivia uma efervescência cultural. Antes de se enturmar, Baby, 16 anos, viveu na rua. "Eu morei embaixo de uma ponte em Piatã por dois meses", conta a cantora.
Sem pecado e sem juízo
Baby se casou com Pepeu aos 18 anos e o encontro com os baianos rendeu à jovem fluminense um nome artístico. O Baby já estava assentado, mas o Consuelo veio de uma personagem do filme baiano Meteorango Kid – O Herói Intergaláctico (1969), de André Luiz Oliveira, que tinha no elenco Pepeu Gomes e Nilda Spencer.
Moraes e Galvão compuseram a música Baby Consuelo para a trilha sonora da película, que inspiraria o nome artístico da nova baiana que, por sua vez, teria provocado uma pequena alteração na identificação do grupo. "O nome seria Novos Bahianos, mas como eu sou da Baía de Guanabara ficou sem o agá", conta Baby.
A cantora descobriu o poder de sua voz aos 14 anos, quando venceu um festival de música em Niterói, cantando uma canção composta por Eduardo Lages, que reencontraria anos depois como o maestro de Roberto Carlos. A carreira artística, entretanto, não foi apoiada pelos pais. Poucos anos depois, já na Bahia, a menina que na infância sonhou ser religiosa começaria a deixar a sua marca na MPB.
Sua interpretação de Brasileirinho, de Waldir Azevedo e J. Pacheco, com o solo de Armandinho, se tornaria uma marca do Carnaval baiano. Ambos costumavam tocá-la no encontro de trios, cada um em seu caminhão da alegria.
Baby está escrevendo uma autobiografia. É o seu segundo livro. O primeiro, Peregrina, Meu Caminho no Caminho, lançado em 1995, foi um diário sobre a sua experiência de 31 dias no místico Caminho de Santiago Compostela, na Espanha.
"O novo livro fala sobre a minha história de vida até os dias de hoje, em que eu conto como tudo começou; a minha carreira nos meus 16 anos, passando também pela minha infância e todos acontecimentos importantes e marcantes da minha vida", anuncia a cantora.
Além disso, deve ser lançado o documentário O Apocalipse de Baby do Brasil, dirigido por Rafael Saar. "Muitos fatos que estão no livro foram filmados para o documentário que sai esse ano", diz.
Há dois anos, Baby virou notícia depois que seu trio encontrou o de Ivete Sangalo no Circuito Ondina e ela mencionou a uma atônita Ivete a proximidade do fim do mundo. Era o ano de Macetando e, depois do susto, sua interlocutora disse que ia macetar o apocalipse. Baby afirma que sua fala não foi premeditada, mas mantém o que disse. "Foi Deus que me mandou dizer".
A cantora reafirma a sua crença no Apocalipse e que os cristãos serão arrebatados. Mas não renega a vida que levou na juventude. "Particularmente, eu tenho a honra de ser a única cantora do grupo e de viver com os meus irmãos durante 10 anos sem me preocupar em ir no cabelereiro ou comprar uma roupa nova, ou ter qualquer dinheiro no banco", afirma Baby.
A cantora lembra que durante o tempo que morou em um sítio no Rio de Janeiro com os companheiros de banda foi julgada por ser a única mulher em meio a tantos homens, e foi acusada de ser promíscua, como se tivesse sexo com todo mundo na casa. Mas não se abalou com os julgamentos.
"Minha única preocupação prazerosa era cantar, aprender, observar, me soltar musicalmente, evoluir musicalmente, como fiz, observando os mestres da música: Pepeu Gomes, Jorginho Gomes, Moraes Moreira, e o nosso grande João Gilberto. Me considero uma privilegiada!", declara Baby.
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