MUITO
Após anos de obras, um dos espaços mais importantes da Bahia reabre com novas atrações
Local destaca legado de Mãe Stella e Zélia Gattai

Por Pedro Resende

Em dezembro, a movimentação na Fundação Casa de Jorge Amado passou de um trânsito intenso de pedreiros e arquitetos para turistas e soteropolitanos. Terminou a maior reforma desde a criação da instituição, em 1987, marcando uma etapa importante na consolidação do equipamento como referência na preservação da memória literária e da cultura baiana.
A atualização dos casarões 47, 49 e 51 ampliou a área de visitação, reorganizou acervos e criou ambientes voltados para a trajetória de duas personalidades da história da Bahia: Mãe Stella de Oxóssi e Zélia Gattai.
Para o diretor-executivo da Fundação, Ticiano Martins, a reforma exigiu equilíbrio entre cuidado estrutural e atualização museográfica. “Qualquer obra, por menor que seja, quando realizada em imóveis do Centro Histórico de Salvador, exige cuidado e sensibilidade”, explica. “Mas, quando tratamos de grandes intervenções em três imóveis em pleno Largo do Pelourinho, a preocupação é redobrada”.
Ticiano acompanhou o processo de perto. De acordo com ele, mesmo que os imóveis não sejam tombados internamente, foi preciso respeitar características originais, ao mesmo tempo em que se incluíram demandas como acessibilidade, segurança e conforto. Os colaboradores também foram ouvidos durante o processo: “Diziam quais eram as necessidades dos visitantes, pesquisadores e dos estudantes”.
De acordo com a presidente da instituição, Angela Fraga, a Fundação tem um impacto importante no fluxo de visitantes no Centro Histórico da capital baiana, o que amplifica a imagem do Pelourinho. “Qualificamos a experiência do público”, afirma.
São mais de 300 mil peças que compõem os acervos dos autores Jorge Amado, Zélia Gattai e Myriam Fraga. A reforma, ainda segundo Angela, vai além da preservação material. A intenção da atualização é tornar as obras ainda mais acessíveis e conectadas ao público jovem.
Hoje, cerca de 70% dos visitantes com menos de 20 anos vêm da rede pública de ensino. A expectativa da diretoria é de que os novos ambientes ampliem esse movimento.
“Acreditamos que, com a realização de projetos e com a utilização das redes sociais da instituição, haverá um aumento do público que visita a Casa e que se interessa por Jorge Amado e a cultura da Bahia”, diz Ticiano.
A criação dos novos espaços carrega importância simbólica, segundo o diretor-executivo: “A mulher sempre teve o papel de protagonismo na obra de Jorge Amado”. Ticiano reforça que a homenagem a Zélia reconhece a trajetória da baiana como escritora e fotógrafa, e não apenas como companheira do romancista.
Sobre Mãe Stella, o diretor destaca o vínculo histórico com Jorge e com a própria Fundação. “Foi ela, em 1987, que assentou a imagem do Exu que guarda os caminhos e que protege a Fundação Casa de Jorge Amado”, diz. Ele observa ainda que a ialorixá e escritora simboliza, junto a Zélia, “a força feminina e a pluralidade cultural da Bahia”.
Com a conclusão da reforma, a instituição passa a oferecer espaços mais interativos e adequados às novas programações. A atualização da museografia também foi pensada para atrair públicos diversos, de acordo com Angela. A intenção é ampliar a compreensão sobre a obra e fortalecer o pertencimento cultural da Bahia.
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Família
Integrante do conselho da Fundação e filha do casal Jorge Amado e Zélia Gattai, a escritora Paloma Amado acompanha a trajetória da instituição desde o início. Paloma vê na Fundação um espelho do impacto que os pais tiveram na Bahia. “A cada dia ela cumpre mais o papel original de manutenção do acervo e de centro de cultura”, afirma a filha do casal sobre a Fundação.
Paloma reconhece a força da obra de Jorge Amado de se manter viva entre leitores jovens. “Me deixa muito feliz a obra do papai continuar dialogando com as novas gerações”, diz. Ela diza que recebe mensagens de leitores de 18 anos que descobriram recentemente Capitães da Areia, publicado em 1937, e se emocionaram com o livro. “Vai completar 90 anos desde o lançamento e segue absurdamente real até hoje”, comenta.

Turístico
Localizada em um dos pontos mais visitados de Salvador, o equipamento tem relevância para além da literatura. Para Angela, essa presença tem peso real. “A Fundação atualiza a imagem do Pelourinho como território vivo de cultura e memória”, diz. A instituição oferece exposições, debates, atividades educativas e uma programação contínua.
A ampliação dos espaços expositivos e a modernização da estrutura, de acordo com Angela, reforçam o compromisso da instituição com a preservação da memória, com a produção cultural contemporânea e com a formação de novos leitores. “É um trabalho que segue em permanente construção”, afirma.
Obras essenciais para visitar
Zélia Gattai
Anarquistas, Graças a Deus (1979) - Memórias da infância e juventude da escritora, retratando a família de imigrantes italianos em São Paulo.
A Casa do Rio Vermelho (2002) - Relato afetivo sobre a casa onde ela e Jorge Amado viveram por décadas, hoje um museu.
Crônica de uma Namorada (1968) - Romance memorialista que mistura ficção e experiências pessoais, muito citado por leitores jovens até hoje.
Mãe Stella de Oxóssi
Òsósi — O Caçador de Alegrias (2005) - Obra que apresenta ensinamentos sobre o orixá Oxóssi e sua relação com a sabedoria e a fartura.
Meu Tempo é Agora (2001) - Reflexões da ialorixá sobre espiritualidade, cotidiano e os caminhos do Candomblé.
Epé Laiyê (1999) - Introdução aos fundamentos, rituais e ensinamentos do Candomblé.
Serviços
Fundação Casa de Jorge Amado
Endereço: Rua das Portas do Carmo, nº 49/51, Largo do Pelourinho. Salvador, BA
Funcionamento: de segunda a sexta, das 10h às 18h. Sábado, das 10h às 16h.
Preço: R$ 10,00 (inteira), R$5,00 (meia) (menores de 5 anos não pagam)
Às quartas a entrada é gratuita para todos.
Telefone: (071) 4103-0081, 4103-0082
E-mail: [email protected]
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