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A saga do idoso que trocou o interior por Salvador e se recusa a ir para academia

Veja a crônica deste domingo, 7

Franklin Carvalho*
Por Franklin Carvalho*
A saga do velho Cícero
A saga do velho Cícero - Foto: Túlio Carapiá | Editoria de Arte A TARDE

O velho Cícero não gosta de sair de casa, mas viajou para visitar a irmã em Salvador por insistência dela. Lavínia, a irmã também idosa, quer expressar preocupação, cuidado, zelo, e obriga Cícero a fazer muitas coisas que a internet diz que são saudáveis.

— Ela parece que é tonta, todo dia manda mensagem para eu beber água. Quem é que tem perna para ir ao banheiro urinar de hora em hora? — Queixa-se o velho, reclamando da bexiga curta.

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Lavínia mora sozinha num apartamento subsolo no centro da capital. O imóvel, encalacrado entre outros, num fosso, quase não recebe luz do sol e às vezes precisa de lâmpadas e ventiladores ligados durante o dia.

Quando Cícero chega, ele já avisa que passará poucos dias. A irmã logo lhe entrega uma sacola de suplementos alimentares que viu recomendarem em vários lugares, e exige que ele tome três ou quatro cápsulas na frente dela: ômega 3, ora-pro-nóbis, castanha da índia, complexo B12, magnésio, o diabo.

Somente quando está por ali é que Cícero engole as doses. Depois deixará os frascos de pílulas escondidos num quarto cheio de tranqueiras, na casa onde mora, no interior.

— Ela mandou eu tomar essas drogas e fazer academia. Cadê que ela mesma não faz? Pensa que eu sou besta de levantar peso e ficar com dor — Resmunga o mano.

Lavínia já comprou um conjunto de roupas de nylon para o irmão se exercitar. Ele acha as vestimentas minúsculas e ridículas, mas não diz. Também não usa o material e guarda em casa no quarto das tranqueiras. O que Cícero gosta mesmo é das roupas que a irmã recolhe com as vizinhas “para mandar para os pobres do interior”.

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Ao retornar à sua cidade com as peças, ele entrega o que não lhe serve a uns parceiros de conversa e usa o resto até rasgar. As camisas de time de futebol ou de candidatos eleitorais, ou de campanhas públicas de vacinação, são confortáveis, verdadeiros presentes para o velho. Ele se sente estreando vestes de alta-costura.

Outra razão de Lavínia para insistir que Cícero viaje é a quantidade de gente alardeando que as pessoas devem fazer as malas, conhecer lugares, ganhar o mundo. Ela quase chorou ao saber que uns primos o chamaram para uma excursão a Aracaju, mas o irmão recusou o convite e perdeu a oportunidade.

— Tudo isso é sovinice? Não quer gastar dinheiro? Fala que eu pago para você.

Cícero acha tudo isso aborrecido. Na última vez em que foi a Salvador, um bebê chorou como um condenado, a viagem toda, no banco de trás do ônibus. O almoço na estrada era um tiro. Quando a irmã o leva a um lugar turístico na capital da Bahia, é tudo lotado e caro. Comem regrado. Viajar para quê?

— Ela mesmo não viaja, e fica enchendo a paciência!

A única coisa que Cícero aprendeu com a irmã nos últimos anos foi a ser mais tolerante com os religiosos que vêm pregar na sua porta. Dia desses, entregou um quilo de açúcar para jovens que arrecadavam doações para uma viagem de uma igreja. O velho achou bonito o movimento dos moços e a sua própria ação generosa.

Se está sintonizando a TV e passa uma mensagem espiritual, ele agora se senta, confere e às vezes ouve toda. Entende que essas coisas nos ligam aos pais e avós que há muito partiram deste mundo.

Só não vai a culto algum, de templo nenhum. Lavínia insiste que é bom para a saúde mental.

— Ela é doida, frequenta centro espírita, igreja, joga flor pra Iemanjá. Vai em tudo que é canto, gasta um dinheiro lerdo.

Cícero fica em casa, aproveitando sem custos as bênçãos que o Céu manda, e as roupas que o povo crédulo doa.

*Franklin Carvalho é autor de Tesserato – A Tempestade a Caminho (Ed. Noir)

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