CRÔNICA
Por que toda mãe vive cansada...e esquecendo tudo ao mesmo tempo
Confira a Crônica do Caderno Muito deste domingo


Mães têm ótima memória, quando se trata de seus filhos. Lembramos de cada vez que eles não nos escutaram, negligenciaram um conselho ou desobedeceram uma ordem. Lembramos também de cada acerto, conquista, vitória. Só não peça para nos lembrarmos da chave do carro, perdida dentro da bolsa ou na sacola de compras; da panela no fogo, enquanto terminamos outra tarefa; do dia da festinha de aniversário da coleguinha, cujo convite foi mandado quase um mês antes.
Não é novidade que, quando passa a gestar um bebê, a mulher tem sua vida toda mudada e ela já não é a mesma. A memória, então, sofre uma transformação. É como se um novo proprietário chegasse para morar em um apartamento que ainda está cheio de tralhas do antigo morador. O que ele faz? Sai varrendo, tirando fora tudo que não lhe é útil, abrindo espaço em meio às tranqueiras antigas para arrumar seus móveis e objetos pessoais. Ah, mas aquele bibelô foi tão importante para alguém um dia… pouco importa. Vai tudo embora. Resta uma grande sala vazia pronta para ser arrumada. Pena ser tão pequena! Não tem jeito, algumas coisas ficarão de fora.
É assim que a memória materna começa a funcionar em outra frequência, toda rearranjada e com menos espaço para guardar o que aparece pela frente. O resultado é que já não dá pra reter nada de cabeça, melhor botar no papel ou nas notas do celular. O risco, no entanto, torna-se um grande problema: esquecer de olhar o papel ou o celular. Aí, só a agenda digital com notificações resolve. Ou, como faziam os maias e astecas, trocar o anel de dedo — minha estratégia para quando já estou deitada na cama e lembro de algo importante que preciso fazer no dia seguinte. Claro que, ao acordar, vejo o anel, mas já esqueci por que o troquei de dedo.
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Cabeça de mãe é terra arrasada, chão onde só se pisa com muito cuidado pra não desfazer as pegadas na areia. Se for mãe de recém-nascido, com privação de sono, então… já viu! Outro dia, um grupo de amigas contava os casos peculiares pelos quais passaram. Quase todas já acordaram assustadas de madrugada procurando o bebê que estaria no colo, quando ele estava deitado pleno no berço. Algumas delas ainda amamentavam o nada, enquanto o guri saciado dormia longe do peito.
Quantas mães já chamaram desesperadamente por seus filhos que estavam bem ali.. em seus colos. Uma amiga quase teve um treco um dia, ao receber uma encomenda em casa. Pegou o pacote, assinou o papel, se despediu do entregador… mas, espera aí, não está faltando alguma coisa? Ainda gritava para o filho mais velho procurar o mais novo, que jurava ter sido levado pelo carro do Mercado Livre, quando se deu conta de que o bebê não havia saído dos seus braços.
Outra foi buscar as filhas na escola, e nada da mais velha aparecer. Chamou pelo nome, se impacientou. Por uma funcionária, foi informada de que alguns alunos da turma ainda estavam em sala. E toca esperar. As mais novas com fome, sem entender direito. A impaciência aumentando. Como é que pode essa demora toda? Não sabe que temos horário? Assim não dá, vou entrar pra buscar na sala — se queixou com a funcionária. Foi quando, sem graça, se lembrou: a menina não havia ido pra escola naquele dia. Desculpa aí, minha filha teve febre essa noite, não tô raciocinando direito… foi dizendo enquanto arrastava um sorriso amarelo em direção ao carro.
Só as mães descansadas e sem sono têm a memória muito afiada e nunca passaram por alguma dessas, mas, como elas não existem, é praticamente uma questão de saúde pública. No papo de amigas, uma delas, calada a maior parte do tempo e observando com atenção, pensou que só podia ter algum problema com ela. Não por a memória falhar de vez em quando, mas por uma falta dela, ainda pior. É que não estou lembrando de nenhuma situação dessas agora… será que é grave?!
*Luisa Sá Lasserre é escritora e jornalista, autora do livro de crônicas “Pensei, mas não disse” (Ed. Patuá)


