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19/05/2024 às 6:32 - há XX semanas | Autor: Pedro Hijo

“Medicações inovadoras começam com um custo alto”

Confira a entrevista com a médica Adriana Moura falando dos cuidados com o Ozempic

Adriana Moura, médica endocrinologista
Adriana Moura, médica endocrinologista -

Um medicamento revolucionário para tratar a obesidade. É assim que o Ozempic, nome comercial do medicamento cujo princípio ativo é a semaglutida, vem sendo propagado nos últimos anos pela classe médica em todo o mundo. Indicada inicialmente para o tratamento de diabetes tipo 2, a droga foi associada à perda de peso depois de estudos que comprovaram a ação emagrecedora. Segundo a Associação de Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), o Ozempic foi o medicamento mais vendido no mundo em 2021 e, desde 2022, as procuras pelo nome da droga no Google aumentaram cerca de 500%, de acordo com a ferramenta Google Trends. O crescimento da popularidade do remédio teve o incentivo de celebridades como a atriz Rebel Wilson e o empresário Elon Musk, que declararam ter emagrecido depois do uso do Ozempic. De acordo com a endocrinologista baiana Adriana Moura, o medicamento é uma ajuda química para que o paciente consiga seguir um plano alimentar, mas é preciso disciplina e acompanhamento médico. Nesta entrevista, a médica fala também sobre contraindicações, possíveis efeitos rebote, outros inibidores e estudos que associam o Ozempic à fertilidade.

Como o Ozempic age?

O Ozempic é a semaglutida, que é uma medicação da classe dos análogos de GLP-1 [grupo de medicamentos que auxiliam no tratamento do diabetes e no emagrecimento]. Em resumo, ele age tanto no cérebro, inibindo o apetite na região do hipotálamo, quanto no trato gastrointestinal, diminuindo a absorção dos alimentos, o que traz uma saciedade precoce. O medicamento ajuda o paciente a conseguir perder peso seguindo o plano alimentar de uma forma mais fácil, é como uma ajuda química para que ele consiga fazer o tratamento nutricional. Inicialmente, o medicamento era usado apenas para diabetes, mas, em estudos, atestou-se que pacientes sem diabetes perderam peso, o que ampliou a indicação para tratamento de obesidade. Inclusive, em doses maiores. A medicação vem dentro de um dispositivo em formato de caneta e as aplicações são semanais. Basicamente, o paciente acopla a agulha, faz a aplicação semanal e descarta. Cientificamente, o Ozempic é um hormônio intestinal que faz a sinalização entre o intestino e o cérebro. Quando o paciente se alimenta naturalmente, o intestino produz essa molécula que vai até o cérebro e passa a mensagem de que o paciente está alimentado e saciado. Então, elaboraram essa molécula sintética que faz essa ligação. Ela age em vários órgãos também, como no coração, nos rins e no pâncreas. Por isso, cada vez mais se amplia o uso do medicamento. Em breve, devem surgir novas indicações a partir de novos estudos.

Quais são os benefícios?

Existem vários benefícios já comprovados. O mais bem avaliado é para o controle de diabetes, porque ele age no pâncreas modulando essa ação da insulina e faz um controle bem adequado dos níveis glicêmicos. Nos rins e no coração, já se viu que em pacientes diabéticos, o Ozempic promove uma proteção desses órgãos. A perda de peso é bem-vinda tanto para não diabéticos quanto para diabéticos. Não dá para saber quantos quilos em média uma pessoa tende a perder durante o uso, mas, nos estudos, se comprovou que é possível diminuir cerca de 15% do peso corporal em três meses. Mas, na vida real, quando o paciente adere a outras terapias recomendadas como a nutricional e o exercício físico, ele chega a perder em torno de 20% do peso corporal ou até mais.

O Ozempic pode custar até mil reais nas farmácias. O preço desse remédio ainda é uma dificuldade para pacientes?

Sim, porque é, de fato, uma medicação cara e pouco acessível. No entanto, medicações inovadoras e efetivas começam com um custo alto, mas à medida que a pesquisa avança e que outros laboratórios se interessam pelo tratamento da obesidade, é comum que surja concorrência e o preço abaixe.

Por que é importante ter um plano alimentar e uma rotina de exercícios durante o tratamento?

O Ozempic age exclusivamente na quantidade do alimento ingerido e não no valor nutricional do que o paciente come. Se o paciente, por exemplo, tinha o hábito de comer três pizzas, com o Ozempic, ele vai conseguir comer apenas uma. É por isso que é tão importante que ele siga um plano alimentar, para que ele não reduza apenas a quantidade, mas melhore a qualidade daquele alimento. Substituir a pizza, por exemplo, por outras fontes nutricionais de maior valor. Uma coisa bem importante no emagrecimento é que o paciente mantenha a massa magra. O indivíduo que só usa o Ozempic e ignora o exercício físico perde músculos. Por isso, é indicado ter um plano alimentar e aliar isso à musculação.

Remédios para emagrecer são comumente associados a vários malefícios como problemas gastrointestinais, alterações de humor e dependência química. Qual é a diferença do Ozempic para outros inibidores de apetite?

Os principais efeitos colaterais do Ozempic são relacionados ao mecanismo dele no trato gastrointestinal. Náusea, vômitos, diarreia... Alguns sentem fadiga, e isso é bastante comum. Mas, o Ozempic não causa dependência. Quando o paciente quiser parar para não sofrer o efeito rebote, ele precisa aderir ao exercício físico e à dieta. Não há um rebote químico como existe com outras medicações. Também não há alteração do humor, porque o Ozempic não mexe em neurotransmissores, como dopamina e serotonina, como agem algumas medicações de ação central para perda de peso.

O uso é contraindicado para quais pacientes?

Pacientes que já tiveram pancreatite e pacientes que têm história familiar ou pessoal de câncer medular de tireoide. Neste último caso, é preciso avaliar risco e benefício porque alguns relatos de câncer de tireoide foram obtidos em estudos, mas, na vida real, isso não foi reproduzido.

Se uma pessoa deseja emagrecer por via medicamentosa, mas não tem indicação para o uso do Ozempic, quais são as alternativas?

Existem outras opções. Vai depender do padrão alimentar do paciente e se ele tem comorbidades. Outro ponto importante é analisar se ele precisa de outro remédio que age em via central, ou seja, na relação emocional com o alimento. Hoje em dia, já temos medicações como o Contrave, que é a associação de cloridrato de bupropiona com cloridrato de naltrexona. Ele age em pacientes que têm uma relação emocional com a comida, como pessoas com compulsão alimentar, por exemplo. Existem outras opções como sibutramina e orlistat, que são aprovadas pela Anvisa, mas que têm usos específicos que demandam uma análise do paciente mais detalhada.

Qual é a relação entre o Ozempic e a fertilidade de pacientes?

A princípio se questionou se mulheres teriam facilidade para engravidar a partir de uma ação da própria medicação, mas, a classe médica acredita que, na verdade, a infertilidade tem relação com resistência insulínica, sobrepeso e obesidade. Quando essas mulheres usam o Ozempic, no momento em que elas perdem peso, elas tratam também inflamação crônica e a resistência insulínica. Assim, essas pacientes passam a ovular normalmente. O que melhora a fertilidade é o próprio tratamento da condição dela. Não é algo milagroso da medicação. É, de fato, o tratamento.

Os inibidores de apetite têm ganhado espaço na mídia, especialmente depois que algumas celebridades passaram a usar o Ozempic na busca da perda de peso. Qual é a sua opinião sobre o uso indiscriminado desses remédios?

É algo muito perigoso. Sem acompanhamento médico, há uma grande chance de fracasso do tratamento porque o paciente precisa dessa orientação de dose. A gente sabe que existe em bula um esquema de dose, mas, o paciente, às vezes, responde diferente. Há quem use o medicamento em doses altas, e isso é um grande risco para o paciente. É muito importante o acompanhamento médico até mesmo para contornar esses efeitos colaterais e evitar que o paciente não seja refém de um efeito sanfona. Atualmente, qualquer pessoa pode comprar o Ozempic na farmácia. É uma medicação liberada mesmo sem receita, então, existe o risco de o paciente decidir usar sozinho, ignorar o efeito colateral, abandonar o tratamento e ter complicações pelo uso excessivo do medicamento.

Mas, o que acontece quando se para de tomar Ozempic?

Se o paciente não aderir a um novo estilo de vida, existe um risco alto de engordar depois do Ozempic, como com qualquer outro tratamento para peso. Não é um rebote químico, como eu disse, mas, se o paciente não está em atividade física e não aprende a comer, ele vai continuar se alimentando errado, em grande quantidade, e vai ganhar peso.

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