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Você conhece o 'time preto' do Cabula? Professor resgata clubes extintos da Bahia

Colecionadores de Salvador guardam centenas de camisas e memórias vivas do futebol

Gilson Jorge

Por Gilson Jorge

08/03/2026 - 5:04 h

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Conheça o acervo de Paulo Leandro, onde cada camisa é um manifesto político e cultural
Conheça o acervo de Paulo Leandro, onde cada camisa é um manifesto político e cultural -

A três meses da Copa do Mundo, as discussões sobre futebol na capital baiana ainda se concentram na dupla Ba-Vi, que disputou ontem a final do estadual de 2026. Ao longo da semana, camisas tricolores e rubro-negras ornaram os corpos de soteropolitanos que começam e encerram o expediente de trabalho discutindo, sorrindo, gozando com a cara dos amigos, às vezes com argumentos de décadas passadas.

O futebol é o ópio do povo? Não é o que pensa o jornalista, professor universitário e pesquisador Paulo Leandro, ícone de gerações de jornalistas esportivos e dono de uma impressionante coleção de camisas de times. São mais de 300 peças que falam de paixão, mas também de história. Um legado que ele cuida carinhosamente. "Eu procuro preservar esse conhecimento que está se perdendo. Inclusive grande parte dele, você não encontra no Google", afirma.

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A primeira camisa de sua coleção, naturalmente, é uma do seu time do coração, o Vitória, que ele ganhou do avô, quando ainda era criança. Adulto e formado em jornalismo, Paulo passou a trabalhar com esportes, uma editoria que lhe rendeu contatos com jogadores, dirigentes, cronistas esportivos e pesquisadores de várias partes do 'planeta bola'. Um plantel de aficionados pelo futebol, com quem passou a trocar informações e uniformes, mais ou menos como fazem atletas de equipes adversárias ao final de uma partida.

E, finalmente, a pesquisa acadêmica no mestrado e no doutorado veio como uma prorrogação infinita do tempo em que o professor se dedica aos estudos do futebol muito além da prática esportiva. Muitas vezes, é como se cada camiseta, com suas cores e a história por trás dela, tornasse o seu proprietário um embaixador do clube, o representante de uma ideia. O tradicional conceito de vestir a camisa.

Há casos clássicos de representação política, como a Democracia Corinthiana, da primeira metade da década de 1980, quando, em plena ditadura militar, Sócrates, Wladimir e Casagrande lideraram o movimento que levou os atletas do time a decidir no voto coisas que eram impostas pela comissão técnica, como as regras da concentração antes das partidas. Uma prática que extrapolou o futebol e levou a liderança do elenco a participar ativamente da campanha Diretas já. Nada mais natural para um clube criado por operários, em setembro de 1910, com a missão declarada de ser o time do povo.

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Internacionalmente, algumas camisas de clubes estão, inclusive, mais associadas à política do que ao futebol. Fundado quatro meses antes do Corinthians, em Hamburgo, importante cidade portuária da Alemanha, o St. Pauli é muito mais conhecido e amado por abraçar o combate ao racismo, à xenofobia e à homofobia do que pelos seus gols ou craques. Claro que na coleção de camisetas de Paulo Leandro há uma do St. Pauli e outra do Corinthians, entre as mais de 300 que guarda como material de referência.

O professor desenvolveu uma parceria com uma malharia mineira. Ele faz as pesquisas sobre os clubes, reproduz os escudos e a padronagem para a empresa, que inclui as camisas de times na sua coleção à venda. Em troca, recebe em casa um exemplar de cada camisa.

"Assim, eu preservei a memória dos times de Salvador que foram campeões e são esquecidos", destaca o professor, que integra o grupo de pesquisa Futebol, Cultura e Sociedade na Ufba.

Paulo Leandro tem no seu portifólio a reconstituição de camisas de clubes extintos há muito tempo, como o Internacional de Cricket e o São Salvador. Além do pouco conhecido Esporte Bahia, que era alvinegro. O professor recupera os escudos e as cores originais e a cordinha que se usava na época, mas cria a partir disso novos uniformes.

"Seria arrogância de minha parte dizer que faço réplicas de camisas de 1905", afirma o pesquisador. Outra relíquia de seu acervo é a camisa do Santos Dummont, time baiano criado em homenagem ao inventor brasileiro, que tinha acabado de exibir o seu 14-Bis em Paris. Mas na "checagem do árbitro de vídeo", o título da criação do avião acabou indo para os irmãos Wilbur e Orville Wright. Pode isso, Arnaldo?

De volta ao campo político, PL destaca a importância de um certo Fluminense de Salvador na luta antirracista. "Muito antes de lermos Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon, já havia em Salvador um time de futebol preto", conta o pesquisador.

O time usava o mesmo padrão do original carioca, que era da elite branca. A versão soteropolitana era formada por homens pretos do Cabula. "E era o time mais popular. As pessoas falam do Ypiranga, mas antes dele houve o Fluminense de Salvador", destaca PL, para quem a luta de classes permeou o começo do ludopédio em Salvador.

Trazido à Bahia oficialmente por Zuza Ferreira, em 1901, o futebol foi adotado pela elite baiana, que disputava campeonatos no extinto Campo da Graça. Mas em bairros periféricos da capital o esporte ganhou cara de povão.

Outra vertente da pesquisa de Paulo Leandro são os times antifascistas. Nesse trabalho, o jornalista acabou refazendo a camisa do SC Karl Marx Stadt, um time de futebol da antiga Alemanha Oriental, criado em 1945, ano do fim da Segunda Guerra Mundial.

O neofascismo e o crescimento da extrema-direita no Brasil, aliás, é uma das razões pelas quais o pesquisador considera que diminuiu o interesse da população pela camisa verde e amarela, que ficou muito associada às manifestações desse espectro político nos últimos anos. "Eu tenho a preocupação de tirar o futebol dessa condição à que a nossa intelectualidade, infelizmente, o condenou, de alienação, afirma.

Desgosto

Imagem ilustrativa da imagem Você conhece o 'time preto' do Cabula? Professor resgata clubes extintos da Bahia
| Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

No caso do tricolor Sidney Brito não foram as manifestações políticas que o afastaram da camisa verde e amarela ou da própria Seleção. O desgosto com o Scratch Canarinho começou em 1989, na Copa América.

Pressionado pela opinião pública na Bahia, o técnico Sebastião Lazaroni convocou às pressas o atacante Charles, que meses antes se sagrou campeão brasileiro pelo Bahia. Foi apenas uma estratégia para apaziguar a torcida às vésperas de um jogo na Fonte Nova. Mas o jogador não entrou em campo. "Eu e boa parte da torcida do Bahia ficamos com raiva. Hoje em dia, eu não sou mais fã da Seleção", diz Sidney.

Seu amor incondicional ao Bahia viveu um grande momento em 1994, quando o tricolor estava perdendo o título estadual com a derrota para o Vitória e precisava empatar para ser campeão. No finalzinho do jogo, Raudinei, que tinha acabado de entrar em campo, fez o gol do título, enlouquecendo a torcida tricolor. Sidney e sua companheira na época estavam esperando um filho, um menino. Adivinhe que nome ele recebeu? Raudnei.

“Sabe aquela paixão que você tem por uma coisa?", indaga o tricolor, que afirma ter várias camisas do Bahia ainda com etiqueta, que ele ainda não conseguiu usar. "Eu devo ter mais de 300 camisas do Bahia, mas já não consigo contar. Quando chega em 100 ou 150, eu paro", afirma Sidney.

Aurinegra

Imagem ilustrativa da imagem Você conhece o 'time preto' do Cabula? Professor resgata clubes extintos da Bahia
| Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

Poucas camisas de times de futebol na Bahia são tão cultuadas quanto a aurinegra do Ypiranga, time formado por operários que, fora a dupla BaxVi, é o maior vencedor de campeonatos baianos, com 10 títulos.

Filho de um estivador que era torcedor do Ypiranga, o advogado Luiz Luz cresceu vendo o time jogar no Campo da Graça. "Daí em diante, não houve mais separação", conta o torcedor que chegou a ser diretor e presidente interino do clube. Luiz acabou se tornando uma espécie de embaixador do time. Esta semana, o advogado esteve em São Paulo e se encontrou com Marcos Tadeu, diretor do time paulistano, e com o ex-goleiro Zetti, coordenador de goleiros da divisão de base, e os presenteou com uma camisa do Ypiranga.

Autointitulado arquivo vivo do clube, Luiz lembra dos tempos em que o aurinegro ajudou o atual campeão da Copa do Nordeste. "Houve uma época em que esse Bahia todo-poderoso foi despejado da sede dele na Rua Carlos Gomes, e time que o acolheu, compartilhando o espaço no seu escritório na Rua da Ajuda, foi o Ypiranga", diz o advogado.

Orgulhoso, Luiz conta que o Ypiranga foi o primeiro time no Brasil a fazer publicidade na camisa. "Ao contrário do que conta a história de que foram o Democrata de Sete Lagoas, em 1982, e o Flamengo, em 1984, o Ypiranga, no final da década de 1960, já estampava o patrocínio da Fratelli Vita", declara o advogado, afirmando que o caso do Bangu, em 1948, não conta porque era marca da fábrica de tecidos que fundou o time homônimo.

Sobre a seleção, Luiz declara que ainda não se empolgou, mas acredita no protagonismo brasileiro. Para ele, os críticos estão tomando como parâmetro os times nacionais e estrangeiros. "Quando pulverizar os atletas dos times europeus por suas respectivas seleções, veremos que elas estão na maioria niveladas", aposta o advogado.

Luiz aposta que a penúltima convocação da seleção, no próximo dia 16, vai dar a ideia do elenco que disputa a Copa. "Creio que teremos surpresas e nomes famosos ficarão de fora. Essa é a minha expectativa", afirma o ypiranguense.

Histórico

Quando organiza partidas de futebol na sua casa na Ilha de Itaparica, o advogado Maraivan Rocha divide os dois times em um de camisa vermelha e short branco e outro de camisa branca e short vermelho, afinal são as cores do Botafogo Sport Club, histórico time soteropolitano, fundado por um sargento do Corpo de Bombeiros. "O Botafogo é uma paixão. Em tudo o que diz respeito à minha vida, o Botafogo está ligado", declara o alvirrubro.

No que se refere à seleção brasileira, Maraivan mostra-se otimista. "É sempre uma alegria ver jogar, pois reúne os melhores jogadores", afirma o botafoguense que, por outro lado, considera que falta um líder no grupo.

"Para competir tem que ter liderança, infelizmente o Brasil está carente de técnico, e o Ednaldo Rodrigues, quando presidente, sempre quis trazer o atual treinador, Carlos Ancelotti. Acredito que temos boas chances de trazer o caneco, contudo tem que levar o craque Neymar. Estou confiante", declara o botafoguense.

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