MEMÓRIA AFETIVA
Obras da estação Campo Grande reacende memórias de moradores
Frequantadores do largo também relembraram histórias vividas no local

No final da década de 1970, três dos meus irmãos e eu frequentamos o mesmo imóvel, no Largo do Campo Grande (Praça Dois de Julho), em horários e por motivos diferentes. De segunda a sexta, logo depois do almoço, eu subia a íngreme Ladeira da Fonte para formar fila antes de entrar em sala de aula na Escola Cruzeiro da Vitória, onde comecei a estudar aos seis anos.
A fila, uma expressão de disciplina típica da ditadura militar, se dava na porta principal do imponente prédio da sede do Cruz Vermelha, primeiro clube carnavalesco da cidade, fundado em 1883.
Terminada a semana letiva, meus irmãos entravam no mesmo edifício nas noites de sexta-feira para se divertir nos bailes. Havia mais de uma década, a instituição que trouxe para a elite baiana os festejos carnavalescos em ambiente privado, transformara-se em uma das principais opções de lazer do centro para a juventude trabalhadora da cidade, como eram os meus irmãos, e rivalizava com os bailes do Fantoch es da Euterpe, no atual bairro Dois de Julho.
Oito anos mais velho do que eu, meu irmão Jorge lembra que no princípio ele era encarregado por nossos pais de tomar conta das irmãs adolescentes, Jaciara e Jussara. Georgina, que me levava à escola nos primeiros dias, não era muito de festa.
Pouco tempo depois, Jorge conseguiu um estágio bem remunerado no Pólo Petroquímico de Camaçari e passou a frequentar o clube não mais como o irmão menor vigia, mas como ente ativo na paquera. "Era um lugar família, tinha portaria, só entrava a pessoa bem vestida, não podia estar esculhambado", lembra Jorge Santos, servidor público.
Um pouco mais velho, Jorge conseguiu trabalho por duas vezes no clube, em bailes de Carnaval, como percussionista, com ajuda de nosso pai, seu Jonas, que era trombonista de uma orquestra que atuava no Cruz Vermelha. Esses dias em que ele tocava eram os únicos em que eu entrava no clube, fora os dias de aula.
Ao longo do ano, havia shows nos finais de semana e visitar o Cruz Vermelha, criado como reduto da elite, era uma conquista simbólica para os pobres de diferentes bairros de Salvador. E inclusive para as jovens que vinham do interior e trabalhavam como empregadas domésticas nos elegantes prédios do outro lado da praça, que ainda era de terra batida.
O Campo Grande, como um todo, permitia uma sociabilização que na maior parte do tempo só era desfrutada pelas pessoas de baixa renda.

Oficialmente, os menores só podiam permanecer no clube até as 22 horas, quando se encerrava a matinê. "Mas o baile estava sempre cheio e ninguém ligava muito", lembra Jorge. Quem não tinha idade suficie nte para ir ao clube, contentava-se com a Sorveteria Campo Grande, que era conhecida pela qualidade de seus produtos.
O negócio que começou no térreo, vendendo picolés e sorvetes para passantes, com o tempo ganhou uma extensão mais chique no primeiro andar, com mesas onde se podiam degustar milk shakes, dust millers e outras delícias. "O pessoal ia até mais bem vestido", lembra Jorge.
Blocos
Na infância, minha vida se limitava basicamente ao Campo Grande, à escola, à sorveteria, e a uma lanchonete na esquina. No Carnaval, a família carregava bancos de casa para colocá-los na calçada do Forte de São Pedro e assistir sentada o desfile dos blocos.
De vez em quando, nos intervalos das atrações, eu pegava dinheiro com minha mãe, dona Ester, e cruzava a rua para comprar sorvete. Um dia, eu voltava segurando com devoção a casquinha com duas bolas que havia comprado quando um jovem adulto, acompanhado de sua namorada, me pediu sorvete e eu neguei. O cara simplesmente meteu a mão na casquinha e roubou a bola de cima inteira, dando-me as costas, em frente ao Cruz Vermelha.
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O pequeno encrenqueiro que habitava em mim foi atrás do ladrãozinho, cutucou a sua perna e, quando ele virou, arremessou-lhe na cara a segunda bola. Com minha baixa estatura, escondi-me entre os foliões e saí correndo em disparada, buscando a companhia segura de minha família.
À época do auge do Cruz Vermelha como clube popular, a maioria das linhas de transporte coletivo que se dirigiam ao Centro tinham como destino o Terminal do Campo Grande, o que garantia grande frequência não só ali, mas na sorveteria, na praça e no parquinho que era montado no largo nas temporadas de verão com carrossel e carros bate-bate.
Os ônibus eram abundantes. Havia uma linha da Transur, gratuita, até a Praça da Sé, os carros verdes da Vibemsa e a Via&cced il;ão Campo Grande. Em 1981, quando minha irmã mais velha, Georgina, casou-se e mudou-se para a Cidade Nova, pegávamos com assiduidade os veículos coloridos da Joevanza para visitá-la aos finais de semana. Mas no ano seguinte foi inaugurado o Terminal da Lapa, desviando para lá a maior parte das l inhas e esvaziando gradualmente a praça.
Os negócios locais frequentados nesse período pelas famílias de classe média e média alta eram a casa de chá Nubar e, posteriormente, o Bar Capoeira, lugar intimista do Tropical Hotel da Bahia, que eu conheceria na adolescência, graças à dica de minha irmã Jussara, que trabalhava no Grupo Varig, então dono do empreendimento.

Diversão
Taxista que faz ponto em frente ao hotel, João Rabelo lembra de seus tempos de diversão no Cruz Vermelha, onde assistiu shows de Nelson Rufino e Bezerra da Silva, entre outros. "Era um clube que a gente vinha para ouvir serestas, para se encontrar com os amigos. Era um espaço em que a gente tinha um entretenimento noturno no centro da cidade", destaca João.
Morador do Campo Grande há mais de 50 anos, quando chegou ainda criança com a família, vindo de Jequié, o músico Paquito lembra que no início o bairro era apenas um território muito grande para um menino vindo do interior. Roqueiro no início da carreira, Paquito não chegou a frequentar o Cruz Vermelha, mas lembra de cruzar o largo em direção à sorveteria.
O músico lamenta que a imensa praça que pode ser vista desde a janela de sua casa seja cada vez menos um lugar de encontro. "Quando eu era menor, eu não tinha ideia do que significava o Campo Grande. Hoje, eu não sei o que vai ser depois desse negócio (a construção de uma estação de metrô)", afirma o músico.
Sua irmã gêmea, a psicóloga Cristina Moura, que morou no Campo Grande até 1991, não guarda muitas lembranças da praça, apenas a poluição sonora do Cruz Vermelha, do Carnaval e de todos os eventos que acontecem no bairro. Moradora do Canela, Cristina está otimista com o metrô. "Acho que vai melhorar a vida por aqui", arrisca.
Desde os prédios ao redor da praça, o barulho mais emblemático que se escuta agora, além do desmonte da estrutura do Carnaval 2026, é o de uma escavadeira Volvo, que começa a transformar as memórias da sorveteria, do clube e de uma certa praça em pó.
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