ABRE ASPAS
Usar óculos do camelô é "abrir a porta para o inimigo entrar", diz médico
Oftalmologista baiano Iago Macedo alerta sobre os perigos dos acessórios

No que depender do médico oftalmologista baiano Iago Macedo, os óculos de sol vendidos no camelô estão com os dias contados. Ele alerta sobre os perigos dos acessórios para todos os pacientes que chegam ao consultório. “Geralmente, a qualidade dos óculos está relacionada ao preço, mas não é uma regra absoluta”, alerta. Isso porque a pupila dilata no escuro e permite a entrada ainda maior de radiação, podendo causar até retinopatia solar.
Nesta entrevista, Iago explica sobre quais são os pontos de atenção que os consumidores devem ter no verão. Nas festas da estação mais quente do ano, pomadas modeladoras para penteados também lotam emergências com casos de abrasão de córnea. Já mar e piscina podem ressecar os olhos e agravar alergias. Vermelhidão intensa que não melhora, dor forte e visão borrada são sinais de alerta, segundo Iago.
A recomendação é simples: comprar óculos em ótica, evitar produtos próximos aos olhos e usar lubrificante ocular quando indicado.
O verão na Bahia é intenso em sol, vento, mar e piscina. Quais são os principais riscos que essa combinação traz para a saúde dos olhos?
O sol tem os raios UVA e UVB, que são danosos para os nossos olhos, tanto para a parte externa quanto para a parte interna, que é a retina, um órgão interno muito sensível. A exposição solar intensa, sobretudo quando usamos óculos que não conferem proteção nos expõe ainda mais a esses riscos.
Quais são os perigos dos óculos falsos ou sem proteção UV?
O que acontece é o seguinte: quando estamos em um ambiente escuro, a nossa pupila tende a dilatar para permitir a entrada de mais luz. Quando colocamos óculos escuros – sejam eles de boa qualidade, com garantia de proteção UVA e UVB, ou lentes do camelô – o nosso organismo entende que estamos em um ambiente escuro. Então, a pupila vai dilatar, permitindo a entrada de mais raios dentro do olho. Se a lente que você está usando não oferece proteção, se os seus óculos são de camelô, você está abrindo a porta para o inimigo entrar. Isso pode resultar desde uma exposição leve, que não traz percepção visual imediata nem dano aparente ao tecido, até problemas mais graves, como a retinopatia solar, ou seja, dependendo de onde o raio incidir, pode levar até à cegueira.
A retinopatia solar pode variar: pode ser um caso leve, moderado ou muito grave. Tudo depende do tempo de exposição e da qualidade da lente utilizada. Geralmente, a qualidade dos óculos está relacionada ao preço, mas não é uma regra absoluta. Muitas vezes o preço está mais ligado à marca. É possível encontrar no mercado óculos com proteção adequada. Claro que será mais caro do que o óculos do camelô, mas não necessariamente precisa ser um óculos muito caro para ter proteção adequada.
Qual é a forma mais simples de o consumidor identificar se os óculos realmente protegem os olhos?
Ao comprar em uma ótica, normalmente há um aparelho que testa a lente com luz UVA e UVB e mostra na hora se os óculos têm proteção contra esses raios. Então, essa é a forma mais simples de o consumidor identificar. Existe uma máquina que faz esse teste. Nenhum oftalmologista consegue pegar uma lente e saber se ela vai proteger ou não. Só colocando na máquina que vai projetar um raio, que pode ser UVA ou UVB, e testar para saber se esse raio passou ou não.
Em algumas festas é comum o uso de glitter, maquiagem pesada e cílios postiços. Esses produtos representam riscos para os olhos? Quais cuidados são essenciais nesses casos?
Um quadro que chega muito na emergência oftalmológica são pacientes que usam glitter e pomadas modeladoras no cabelo. São danos à superfície do olho. Por exemplo, é muito comum chegar paciente com purpurina no olho. Dependendo de onde esse corpo estranho se alojar na superfície, pode arranhar a córnea, o que é um quadro muito doloroso. Então dói bastante, incomoda, e geralmente os pacientes não conseguem tirar em casa.
Às vezes, por ser muito pequeno e por doer muito, a reação da pessoa é fechar o olho. Na emergência, a gente tem que anestesiar para conseguir retirar a partícula. Sobre a pomada, não é aquela que já vem com glitter. Com a pomada modeladora, a pessoa faz um penteado e vai para uma festa. Chove ou então a pessoa transpira muito e a pomada escorre do cabelo e entra em contato com a superfície do olho.
Esse quadro é típico. O paciente chega aqui com muita dor. Quando a gente examina, a córnea está com uma abrasão corneana central, toda deteriorada. E, quando vamos investigar, houve uso da pomada. Nesses casos, o ideal é usar uma cola mais resistente, o que pode evitar que o glitter fique soltando, e evitar aproximar da região periocular.
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Mar e piscina fazem parte da rotina do verão. A água salgada ou o cloro podem causar problemas nos olhos?
Podem. A água salgada e o cloro, sobretudo nessas piscinas de uso coletivo, que muitas vezes não têm uma quantidade tão bem controlada de cloro, podem ressecar a superfície ocular e gerar uma conjuntivite alérgica. Mas existe um perfil de pacientes que sofre ainda mais com esses efeitos. O paciente que é usuário de lentes de contato, tanto gelatinosas quanto rígidas, é mais sensível a essas situações com água salgada e a água de piscina.
Também sofrem mais aqueles que já têm alergia ocular, aquele paciente que tem coceira nos olhos, que muda o tempo e já começa a coçar. Ele é um paciente alérgico ocular e sofre mais com isso. Pacientes que têm olho seco também sentem mais. É muito comum, por exemplo, mulheres acima dos 40 anos terem o olho mais seco por alterações hormonais. Neste caso, o ideal é usar óculos de natação ou já ter um lubrificante ocular apropriado, indicado pelo médico que acompanha o paciente. A pessoa entra na água, toma banho e depois pinga uma gota, que ajuda como uma lágrima artificial.
Por que coçar os olhos pode ser perigoso?
Coçar os olhos é ruim porque, na superfície do olho, temos a córnea e a conjuntiva. A córnea é um tecido que funciona como a lente natural do olho. É como se fosse o vidro do relógio dos nossos olhos: é transparente. A cor de um olho está por trás. O que vemos é uma superfície transparente. É por ela que a gente enxerga. Quando se coça o olho, o microtrauma gerado pela coceira pode deformar essa lente. E deformidades nessa lente geram, por exemplo, astigmatismo elevado e ceratocone, que é uma doença de deformidade da córnea.
Então, coçar os olhos é ruim, é muito deletério, principalmente para pacientes mais jovens. Quanto mais jovem o paciente for, piores são as consequências da coceira. Um paciente de 40 anos, tem o tecido completamente formado. Já um paciente de 10 anos está com a córnea em formação, um tecido que ainda está se moldando. Então, quando ele coça, pode gerar uma deformação maior.
Os cuidados com os olhos das crianças são os mesmos dos adultos ou existem recomendações diferentes?
São basicamente os mesmos. Eu sou oftalmologista e atendo crianças também. Os pais costumam perguntar: “Doutor, eu queria comprar uns óculos escuros para ele. Como a gente faz?”. Eu digo que a criança pode usar óculos escuros, não tem problema, desde que sejam comprados em ótica, com o mesmo cuidado que para adultos. Nos meus pacientes pediátricos que são alérgicos e vão se expor muito a banhos, eu oriento o uso de um colírio sem conservante.
Então, acabou de sair da piscina ou do mar, pode usar um colírio lubrificante para dar uma lavada na superfície. Dependendo do caso, há pacientes que têm indicação de usar xampu nos olhos, higienizar mesmo os cílios, mas isso varia de caso para caso. Não é uma orientação geral. De modo geral, a recomendação principal é o uso de óculos e colírio.
Durante o verão, quais são os principais casos que chegam à emergência oftalmológica?
O que mais chega aqui é trauma. Então, aquele paciente que se envolveu em alguma briguinha no Carnaval, por exemplo. Corpo estranho, como o glitter, também chega muito. Outra situação bastante comum é paciente que colocou lente de contato e não consegue tirar.
Quais são os sinais de alerta que indicam que a pessoa precisa procurar um oftalmologista imediatamente?
Vermelhidão intensa que não melhora é um deles. Dor moderada a intensa também é sinal de alerta. Aquela dor tão forte que a pessoa não consegue nem abrir os olhos. Borramento visual também é um sinal de alarme: a visão fica mais baixa, a pessoa sente a visão flutuando. Diante desses sintomas, o ideal é procurar uma emergência oftalmológica.
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