MUITO
Casa de Chico Liberato no Trobogy vira centro cultural
Acervo do artista ganhou site com 3 mil documentos inéditos

Por Pedro Resende

A obra de Chico Liberato, um dos nomes centrais da arte moderna baiana, entra em uma nova fase de preservação e difusão. Dois projetos ganham forma pelas mãos da família do artista: um site dedicado à trajetória de Chico, com acervo digitalizado, documentos e visitas virtuais, e um espaço cultural em gestação na casa onde ele viveu por quase 50 anos, no bairro do Trobogy, em Salvador.
À frente dessas iniciativas estão os filhos do artista, Cândida e João Liberato, além da viúva, a também artista Alba Liberato. Cada um atua em um eixo distinto, mas complementar: Cândida coordena o site e os conteúdos de difusão; João se dedicou à digitalização e à organização técnica do acervo documental; enquanto Alba mantém viva a relação cotidiana com a obra, preservada na casa onde arte e natureza sempre caminharam juntas.
O site surgiu quase como um desdobramento natural do projeto de um documentário. O filme A Vida é da Cor que Pintamos foi produzido entre 2019 e 2021 e exigiu um amplo levantamento de documentos, imagens e registros da trajetória do artista.
Ao final do processo, o material reunido era vasto demais para permanecer guardado. “Daí surgiu a ideia de a gente fazer um site para colocar todo aquele material disponível para o público”, lembra Cândida.
A oportunidade veio por meio de um edital voltado à preservação da memória digital. Mesmo com recursos limitados, a equipe apostou alto. “Estávamos com uma turma superaguerrida, que viu o potencial, viu o material que a gente tinha na mão e topou essa empreitada”, diz a filha do artista.
Hoje, o site reúne a trajetória de Chico Liberato, documentos, imagens, textos e dois tours virtuais: um pela casa onde ele viveu e produziu grande parte da obra, e outro por uma exposição realizada no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) durante a pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2022. A empresa Elevenweb foi responsável pela concepção visual, implementação e também a manutenção técnica.
Há ainda uma linha do tempo detalhada, construída a partir da digitalização de mais de três mil documentos. “Você consegue ver tudo que aconteceu na vida de Chico Liberato ano a ano, do ponto de vista pessoal e profissional”, explica.
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Arquivo
Enquanto Cândida cuidou da difusão pública, João assumiu a etapa seguinte: a digitalização e o arquivamento técnico de um acervo ainda maior. “É um arquivo de uma vida”, diz. Não se trata apenas de obras finalizadas, mas de processos: cartas, esboços, projetos, roteiros, fotografias, documentos de gestão cultural e registros pessoais. “O processo também é muito importante de ser divulgado”, destaca.
O material revela não apenas o desenhista, pintor, escultor, gravador, cineasta e designer gráfico, mas também o gestor cultural que esteve à frente do MAM por 12 anos e ajudou a democratizar o acesso à arte no estado, lembra João, destacando que foi Chico quem criou as oficinas de formação que até hoje funcionam no espaço.
Para ele, preservar esse conjunto é também enfrentar um problema histórico do Brasil. “A gente vive num país em que a memória não é muito valorizada”, afirma João. “Rapidamente se esquece das contribuições que foram dadas por um artista”.
Morada

No coração desse esforço está a casa onde Chico Liberato viveu desde 1976, uma chácara arborizada no Trobogy, entre a Estrada Velha do Aeroporto e a Avenida Paralela. Ali, em meio à expansão urbana de Salvador, o espaço preserva o silêncio, o verde e a arte.
Para Alba Liberato, transformar o local em um centro cultural é quase uma extensão natural da história do casal. “O projeto traz o espírito de proporcionar à população baiana e visitantes a oportunidade de vivenciar o lugar onde nasceu essa obra, casa onde a natureza se enlaça com a arte”, afirma.
Foi nesse ambiente que Chico produziu parte significativa da obra dele e realizou experiências pioneiras no cinema de animação. “Aqui produzimos e criamos nossos cinco filhos enquanto Chico atendia ao seu entusiasmo contagiante", recorda Alba.
"Ele criava, pintava, esculpia, instalava equipamentos de cinema feitos de sucata por ele mesmo para desenhar à mão o filme Boi Aruá”. O longa, lançado nos anos 1980, tornou-se um marco da animação brasileira e ajudou a romper a dependência estética de produções estrangeiras.
A casa, hoje, é descrita pela família como um museu a céu aberto, com obras, objetos pessoais e vestígios do processo criativo espalhados pelos cômodos. Ainda assim, transformá-la em um espaço cultural aberto exige fôlego, recursos e tempo.
“Para você botar esse centro para cima é um sacerdócio, tem que dormir e acordar pensando nisso”, reconhece Cândida, ao mesmo tempo em que defende um maior olhar do poder público para o local.
Alba amplia essa leitura ao falar da dimensão humana do companheiro. “Chico foi um homem que carregou cores e sementes no matulão por onde arrastou suas alpargatas gastas”, diz, numa imagem que resume a mistura de simplicidade, rigor estético e compromisso social que atravessa a trajetória do artista soteropolitano.
Com os novos projetos, a família projeta o legado de Chico para além da preservação, como convite permanente ao encontro e à escuta. Mais do que preservar o passado, as iniciativas em curso buscam atualizar o diálogo da obra de Chico Liberato com o presente.
Para Cândida, essa conexão é quase imediata quando crianças e adolescentes entram em contato com o trabalho do artista. “É incrível a aderência, a conexão que os jovens têm”, afirma. “Eles se veem na obra de Chico, veem coisas que remetem à infância e à ancestralidade, é inspirador".
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