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"X" DA QUESTÃO

Por que Carlinhos Brown mudou nome de importante bloco do carnaval?

Bloco criou o primeiro camarote de rua e até banheiros para foliões

Gilson Jorge

Por Gilson Jorge

18/01/2026 - 8:01 h
Carlinhos Brown volta às origens e vira tema do Apaxes do Tororó no Carnaval 2026
Carlinhos Brown volta às origens e vira tema do Apaxes do Tororó no Carnaval 2026 -

Em 1993, o músico Carlinhos Brown ligou para Adelmo Costa, presidente do bloco Apaches do Tororó, uma agremiação que já tinha 35 anos de história, com uma sugestão inusitada: mudar a grafia do nome, trocando o "ch" pelo "x".

Costa não tinha então um motivo para levar o pedido em consideração, mas, em um encontro pessoal posterior, Brown, que tem uma longa história de colaboração com o bloco, destrincharia sua ideia: as primeiras três letras formam APA, sigla de Área de Proteção Ambiental. Com o x, a segunda, a terceira e a quarta letras passaram a formar a palavra Pax, que em latim significa paz. E o x ainda está no meio da palavra axé. Parecia um bom argumento de marketing e o presidente do bloco aceitou a mudança.

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Mas seria esse o X da questão? Trinta e três anos após esse ajuste no nome, o quinto mais antigo bloco carnavalesco em atividade ainda luta arduamente para recuperar os tempos de glória.

O bloco, que já teve mais de sete mil membros e foi um divisor de águas no Carnaval, sofreu um duro revés na folia de 1977 após um homem com fantasia de bloco indígena ter supostamente assediado uma integrante do Lá Vem Elas, agremiação de mulheres de classe média alta. Esse evento, no Corredor da Vitória, e outras ocorrências de rua estigmatizaram os blocos indígenas, que entraram em processo de decadência.

"Parece que a mulher era casada com um figurão e a partir daquilo começou uma perseguição aos blocos indígenas. Havia discriminação com os blocos afros, mas os homens com fantasias de blocos indígenas passaram a ser perseguidos", afirma o presidente do Apaxes, que sucedeu no cargo o histórico Antônio Belmiro, também conhecido como Toninho Apache.

A tensão que gerava o desfile do bloco já estava presente em letras feitas antes do primeiro Festival do Apaches do Tororó, em 1970, vencido por Nelson Rufino, com a canção Blusão do Ano Passado.

Nomes como Paulinho do Reco e Almir Santos, do Grupo Perfil, também compuseram para o Apaches, ainda com ch. E uma das músicas mais famosas da agremiação, o Samba da Fumaça, foi composta por Clarindo Silva e Silvio Mendes.

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Socialização

O Apaxes surgiu em 1968, fundado por integrantes da escola de samba Filhos do Tororó, que queriam um bloco para rivalizar com o Caciques do Garcia, agremiação inspirada no bloco carioca Caciques de Ramos.

Durante décadas, mesmo fora do Carnaval, o Apaxes do Tororó foi uma das principais alternativas de socialização para os jovens negros do Tororó.

Em uma entrevista concedida há quatro anos ao canal do YouTube do DJ e músico André Oliveira, o presidente do bloco, Adelmo Costa, contou que havia um grande orgulho na exibição de penteados black power e que, a cada fim de semana, algumas meninas apareciam com roupas inéditas.

Desde a década de 1990, acontecem iniciativas que visam a recuperação da entidade, que tem desfilado anualmente, mas de forma precária. Adelmo estima que para cobrir todos os custos do desfile seriam necessários pelo menos R$ 500 mil.

O bloco pleiteou junto ao Governo do Estado, via Ouro Negro, um aporte de R$ 300 mil, mas conseguiu a metade deste valor. "Não dá para trazer os representantes dos povos originários, bancar a bateria, as alas", pondera Costa.

Entre as pessoas que em algum momento apoiaram o bloco estão nomes como Lícia Fábio e Daniela Mercury, além do próprio Brown. Este ano, o bloco inaugura uma parceria com o artista Caboclo de Cobre, e tem como homenageado no desfile o próprio Brown, o grande cacique do Candeal.

A parceria com Caboclo de Cobre, um artista e pesquisador indígena, inclui uma série de três shows com atrações diferentes na Praça Tereza Batista, no Centro Histórico, durante o Carnaval.

"Esse projeto foi pensado para que o Apaxes recupere o seu vigor", afirma Caboclo, que também assina como Luiz Guimarães e Itupynijú.

Caboclo propôs ao Apaxes um projeto de modernização estética, que mescla o samba tradicional da agremiação alvirrubra com a música eletrônica, base estética do seu trabalho artístico. "Desse encontro, nasce um estudo em que o presidente Adelmo e eu confluímos para uma proposta de reavivamento", afirma.

Filho

Com o tema do bloco Carlinhos Brown – A Volta do Rei de Oyó à ‘Tribo Americana’ Apaxes do Tororó, o homenageado afirma sentir-se como um filho que à casa retorna. "Foi no Apaxes que descobri minha paixão por baterias de samba-angola, que dão origem rítmica aos blocos afros. Foi na liderança do Apaxes que surgiu a força dos blocos afros na Bahia", afirma Brown.

Sobre a importância do bloco no Carnaval, Brown destaca que, antes do trio elétrico, o Apaxes deu voz ao cantor no carro de som. "Moraes Moreira é o primeiro cantor de trio, inegavelmente, mas o Apaxes do Tororó já havia sonorizado um carro de som, que não era um trio elétrico, e posto alguém para cantar em cima", afirma o inventor da Timbalada.

E essa não é a única inovação que Brown atribui ao bloco. "Se forem buscar na história, vão ver que o Apaxes do Tororó organizou o carnaval com banheiro, com estrutura, deu sinal dos primeiros camarotes de bloco na rua", defende o músico, para quem o Apaxes virou um conglomerado de várias etnias e lideranças indígenas na Bahia e no Brasil.

Sobre as perspectivas do bloco, Brown considera que o Apaxes do Tororó vem se atualizando. "O que não podemos é contar com a ideia de que o Apaxes do Tororó tenha que ser o que foi no passado, quando as fantasias indígenas colidiam com as fantasias internacionais, que saíam de mosqueteiro e cavalaria americana, na conquista do Oeste, que eram inspiradas nos filmes de cowboy exibidos nos cinemas da Bahia", pontua o músico.

Brown considera que o Apaxes foi um bloco tão grande quanto o Filhos de Gandhy. "Foi a partir dele que houve uma regularização de que o bloco não poderia contar com mais de 3 mil pessoas nas suas cordas", destaca.

O artista defende que o Apaxes continue liderando o retorno das etnias indígenas para o centro da cidade no Carnaval. "O que o Apaxes precisa é de força e apoio financeiro para ser o que é, e para que sejam reconhecidos como grandes organizadores do Carnaval e desse movimento educacional e urbano na Bahia", declara.

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Apaches do Tororó Apaxes do Tororó Carlinhos Brown carnaval Carnaval 2026 carnaval da Bahia Carnaval de Salvador

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