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ANCESTRALIDADE EM SOM

Capão in Blues 2025: veja datas, horários e programação completa

Festival começa no Dia da Consciência Negra

Maiquele Romero*
Por Maiquele Romero*
Cantora Rosa Marya Colin, de Minas Gerais, é uma das atrações
Cantora Rosa Marya Colin, de Minas Gerais, é uma das atrações - Foto: Divulgação

Nascido do canto de resistência de homens e mulheres negras nos Estados Unidos, o blues atravessou séculos e oceanos até encontrar novas paisagens onde suas melodias seguem reverberando, como o Vale do Capão. Entre serras, trilhas e a força cultural da Chapada Diamantina, o Capão in Blues retorna de 20 a 22 de novembro para sua segunda edição, celebrando o dia da consciência negra e firmando-se como um dos maiores festivais de blues do Nordeste.

Mais do que um evento musical, o festival se assume como projeto social, cultural e comunitário. Para o idealizador Ildázio Tavares Jr, essa complexidade é parte essencial do que dá vida ao Capão in Blues: “é um produto muito extemporâneo, é um produto muito diferente de tudo, porque ele não é só um produto cultural, ele é um produto social, ele é um produto sustentável, ele é um produto turístico”.

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O Vale, com sua forte cultura comunitária, luta pela preservação e resistência histórica, acolhe o festival de forma natural. Como afirma Ildázio, “fazer o Capão in Blues é devolver ao Vale um pouco do que ele representa para a Bahia e para o mundo: um lugar de encontro, de sensibilidade e de pertencimento”.

A força ancestral do blues

Celebrar o blues na Chapada é também celebrar a história da diáspora negra. O gênero nasceu no sul dos Estados Unidos, entre pessoas negras escravizadas que, privadas de liberdade, de língua e de direitos, cantavam como forma de lamento e resistência. Esses cantos, ancestrais do blues, eram principalmente de dois tipos: worksongs (músicas de trabalho) e spirituals (músicas de fundo religioso).

As worksongs eram canções entoadas durante o trabalho forçado nas plantações, tinham ritmo marcado e muitas vezes repetitivo. Os spirituals, por sua vez, eram cânticos de forte influência religiosa, resultado do encontro entre a espiritualidade africana e o cristianismo imposto pelos colonizadores. Expressavam fé, esperança e um desejo profundo de liberdade. Ao longo do tempo, essas tradições musicais se transformaram e deram origem ao blues, que moldou o rock, o soul, parte do pop e chegou à música brasileira, encontrando ecos no samba, no acorde maior com sétima menor tão comum no Nordeste e no gesto criativo de artistas que integraram o gênero às tradições locais.

É nesse terreno simbólico que o Capão in Blues se expande 50% em 2025 e abraça três dias de shows gratuitos, sempre conectando música, ancestralidade e território.

“O blues é toda nossa história de África, é todo nosso lamento, nosso sofrimento, nosso grito de independência, nosso grito de respeito. Ele traz todo esse sentimento de uma história forjada com muito suor e sangue”, comenta Lia Chaves, cantora brasileira, de matrizes africanas, que se apresenta ao lado de Julio Caldas, no sábado.

Para a cantora Rosa Marya Colin, grande ícone do blues brasileiro, apresentar-se neste festival revela camadas ainda pouco debatidas: “As pessoas acham que blues e jazz são de elite e, na verdade, a origem do blues e do jazz é a mesma do samba e do carnaval, por exemplo”. Por isso, cantar no Capão durante o novembro negro tem peso simbólico para ela: “Significa muito, porque além de ser uma homenagem, reforça a origem do blues e do jazz, que a origem é negra”.

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Diálogos entre mundos

Amanhã, o festival abre com Calu Manhães & Candombá Blues Dab, seguidos por Alma Thomas & Uptown Band e Rosa Marya Colin com participação de Jefferson Gonçalves. A sexta-feira apresenta Cacá Magalhães, o encontro entre Kasia Miernik & Cris Ferreira Trio e o show histórico de Luiz Carlini & Tutti Frutti. No sábado, Júlio Caldas convida Lia Chaves antes da apresentação da americana JJ Thames; o encerramento celebra a guitarra brasileira com Armandinho & Eric Assmar.

Curador do festival, Assmar destaca a relevância de cruzar fronteiras musicais: “Entendo que essa conexão entre o local e o global traz personalidade ao trabalho, pois incorporamos as nossas tradições ao blues. Como curador do Capão In Blues, acho positivo o festival trazer propostas com essa característica em meio à tradição centenária do blues, com toda sua multiplicidade de vertentes”.

Blues e identidade

A diversidade sonora encontra paralelo na própria lógica do Vale, que há décadas recebe festivais de circo, dança, teatro e música. Para Júlio Caldas, músico, produtor e pesquisador de cordas dedilhadas, essa tradição torna o encontro ainda mais coerente: “Um festival no Capão é uma coisa muito bacana, porque une o turismo com a música. Lá já é um lugar de tradição, de festivais de várias linguagens culturais. Então, o blues precisa ocupar o seu espaço”.

E ocupar esse espaço durante o Novembro Negro reforça o sentido de pertencimento: “Muito bom acontecer no mês do novembro negro. É importante falar que o blues é um gênero de música negra, um gênero negro, de origem negra, e a gente está celebrando isso! O blues é negro”.

Além da música, o Capão in Blues movimenta a economia criativa local, fortalece o turismo sustentável e amplia o protagonismo da comunidade. As pousadas lotam, restaurantes se movimentam, trilhas ganham novo fluxo e empreendimentos locais tornam-se parte ativa da experiência. Ildázio destaca essa simbiose: o festival nasceu e cresce em harmonia com o Vale, e isso se vê nas relações cotidianas, na circulação de visitantes e no orgulho compartilhado.

José Alves, que organiza o festival ao lado de Ildázio, reforça a importância da parceria com o poder público e com a comunidade local: “O Capão in Blues nasceu de um ideal coletivo e se consolida como um projeto que movimenta toda uma cadeia produtiva. Ver o comércio, as pousadas e os restaurantes cheios é a prova de que o festival cumpre seu papel social e econômico”.

A paisagem é parte fundamental do projeto, por isso, a arquitetura de Heráclito Arandas (GMF Arquitetos) integra palco e paisagem, reforçando a experiência que une natureza e música como dimensões inseparáveis.

Dessa forma, ao unir ancestralidade, música, território e comunidade, o Capão in Blues reafirma a Chapada como um polo de cultura viva, ecoando no presente as vozes que moldaram a história da música mundial, e abrindo caminhos para novas conexões.

Capão In Blues 2025 / A partir de amanhã até sábado (22) / Vale do Capão, Chapada Diamantina / Gratuito / Programação completa: capaoinblues.com.br

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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