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ABERTO PARA BALANÇO

De jornalista a compositor: Dorea lança disco confessional e assume riscos no palco

Dorea expõe fragilidades em seu álbum mais pessoal

Grazy Kaimbé*

Por Grazy Kaimbé*

19/02/2026 - 17:06 h

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Dorea expõe fragilidades em seu álbum mais pessoal
Dorea expõe fragilidades em seu álbum mais pessoal -

O cantor e compositor baiano Daniel Dorea, 40, decidiu atravessar a fronteira entre bastidores e palco. Conhecido profissionalmente apenas como Dorea, ele lança no próximo dia 27 o segundo álbum da carreira, O Que Mais Você Quer Saber de Mim?, trabalho em que transforma inquietações íntimas em canções de tom contido e confessional.

Jornalista de formação, Dorea conta que a música sempre esteve presente, mas por muito tempo permaneceu guardada. “Eu nunca deixei de estar envolvido com a música, mas demorei muito para ter coragem de mostrar o que eu fazia, de tocar para públicos maiores”, afirma.

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A virada começou em 2017, com um show em tributo ao cantor e compositor cearense Belchior, e se consolidou nos últimos anos, quando passou a lançar trabalhos autorais.

”Acho que a grande virada para mim foi quando lancei o tributo ao Belchior. Isso foi em 2017. A partir daí, algumas pessoas começaram a se interessar mais pelo meu trabalho, e isso também me deu mais coragem de lançar minhas próprias coisas. Também fui começando a gostar mais das minhas composições”, comenta o músico.

Se, no primeiro álbum, que ele lançou em 2021, as canções nasceram de uma inquietação coletiva, compostas durante o isolamento social, o novo álbum assume outro eixo. “No Grande Coisa, eu estava escrevendo muito sobre o que sentia em relação ao mundo, sobre o que estava acontecendo. Falei muito pouco de mim mesmo”, conta.

Ele recorda que atravessou aquele período em relativa estabilidade: “Eu estava em casa, com meus pais morando no mesmo prédio, tinha o que comer. Mesmo isolado, depois de uma separação, eu me neguei a falar de mim”, conta.

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O que você quer saber?

A pergunta que dá título ao novo trabalho surge de uma provocação íntima. “É uma pergunta-resposta a uma amiga que queria me decifrar. E também é uma vontade minha de olhar mais para dentro”, explica.

Ao longo das 11 faixas, todas compostas exclusivamente por ele, Dorea assume fragilidades, contradições e desejos. “Eu me apresento como um homem adulto que nunca tinha escancarado de tal forma as próprias portas. Eu digo: ‘Eu não me entendo, e nem pretendo’. Isso é muito diferente do disco anterior”, afirma. Para ele, há um gesto deliberado de exposição.

“É arriscar ser ignorado, ser apenas mais um entre bilhões, mas também assumir o risco de se revelar para que alguém possa se reconhecer em você”, observa.

Musicalmente, o álbum mantém a atmosfera intimista que já marcava o trabalho anterior, mas amplia as texturas. A produção é novamente assinada por Sebastian Notini, que também toca bateria, percussão, teclados e sax. Carla Suzart retorna no baixo, enquanto Joana Queiroz, integrante do grupo experimental Quartabê, assina arranjos de sopro que atravessam o disco. A guitarra de Junix, músico do Baiana System, adiciona ruídos e camadas mais elétricas a algumas faixas.

“A gente não usa grandes arranjos no sentido de grandiosidade. É tudo muito orgânico, mas há momentos em que eu deixo a discrição um pouco de lado”, diz Dorea.

Ele cita a faixa-título como síntese do espírito do álbum: “Ela começa da maneira mais íntima possível. Foi como um vômito, saiu tudo de uma vez. Eu precisava confessar coisas que estava sentindo, inclusive sentimentos pouco nobres, como a inveja”.

Preste atenção

O percurso do disco alterna climas. Maria Milhões e Essa Pressa incorporam o rock e o blues, com guitarras mais presentes. Mais Que Dois e Sem Ancorar exploram o romantismo, este último em dueto com Luiza Britto, parceira do coletivo Outras Vozes, grupo idealizado por ele e que reúne dez artistas baianos.

Já Meu Lugar e A Pé no Deserto retornam ao formato mais despojado, centrado em voz e violão.

“Minha música não é para festa. Não é uma música para ouvir distraído”, reconhece.

“É uma música que você precisa parar para escutar, prestar atenção na letra, na melodia”, acrescenta.

Ele admite que isso pode dificultar a circulação em um mercado dominado por lançamentos constantes e por sonoridades mais imediatas. “Muita gente está lançando coisas o tempo todo. É difícil alguém acreditar só porque o outro diz que o disco é bonito”, observa.

Ainda assim, o compositor vê o lançamento como continuidade de um processo iniciado quando decidiu assumir publicamente a própria produção. “Eu sinto que estou dentro de um ciclo que se abriu quando comecei a acreditar mais nas minhas músicas. Não sei quando virá um terceiro disco, mas já estou compondo”, enfatiza.

Para além da própria trajetória, Dorea enxerga o álbum como um posicionamento artístico. Em um cenário de revisitações e tributos, ele aposta em um repertório totalmente inédito e autoral. “Eu considero um ato político lançar um disco independente só com músicas minhas. É dizer que eu confio na minha criação e que quero que outras pessoas também lancem suas próprias composições”.

A expectativa, segundo ele, é simples e direta: “Eu quero fazer mais shows, tocar em outros lugares e mostrar minha música. Quem tiver disposição para ouvir, acho que pode ter uma experiência bonita”, finaliza Dorea

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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Daniel Dorea música brasileira

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