ENTREVISTA EXCLUSIVA
Djavan antecipa novidades de show em Salvador: "Vai ser uma emoção imensa"
Trocando a Concha pela Fonte Nova, cantor pode trazer músicas diferentes para repertório


Entre oceanos, sinas e pétalas, a obra de Djavan sempre encontrou um jeito singular de traduzir sentimentos em melodia. Há cinco décadas, o artista alagoano constrói uma trajetória que parece fluir como maré: ora serena, ora intensa, mas sempre profunda o suficiente para atravessar gerações. Agora, é embalado por esse mesmo repertório que ele retorna a Salvador no próximo dia 23, com a turnê Djavanear 50 anos, na Casa de Apostas Arena Fonte Nova.
Mas, afinal, o que os soteropolitanos podem esperar desse encontro? Posso adiantar que a experiência é arrebatadora, afinal, acompanhei a estreia da turnê, em São Paulo, no último dia 8. Amparado por uma banda afiadíssima, capaz de misturar o suingue do samba com a elegância do jazz de olhos fechados, o alagoano, de 77 anos, desfilou uma potência vocal que desafia a lógica.
Mesmo estando aparentemente gripado, ele passeava pelas notas mais agudas com uma facilidade absurda. E claro, distribuindo carisma. Em diversos momentos emocionantes - entre eles, uma homenagem à Gal Costa, sentou-se no palco e conversou diretamente com os fãs.

Mais do que um show, a apresentação é um mergulho coletivo por canções que habitam a nossa memória afetiva: da delicadeza de “Meu Bem Querer” à imensidão de “Oceano”. É Djavan por Djavan, em seu estado mais puro: ele prefere saborear as faixas por inteiro, dispensando mashups apressados ou participações especiais para dividir os holofotes. O protagonismo é exclusivo dele, da banda e da multidão.
Quando ele se despediu da plateia cravando que a noite havia sido “inesquecível”, ninguém ousou discordar. Para nós, testemunhas oculares em São Paulo, e para os baianos que já esgotaram os ingressos dos principais setores da Fonte Nova, essa genialidade não é apenas uma promessa. É a confirmação do que se pode chamar, literalmente, de um amor puro entre o artista, sua obra e o palco.
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Mas se diante dos holofotes ele é um gigante que parece inatingível, fora deles a reverência cede espaço a uma simplicidade cativante. Dias após o espetáculo, pude atestar isso de perto ao conversar com exclusividade com o cantor.
Simpático e generoso ao telefone, Djavan conduziu a nossa entrevista com leveza, bom humor e ainda encerrou a ligação me desejando o bem mais precioso: “Saúde para você”, disse, de forma afetuosa, ao se despedir. Confira abaixo o nosso bate-papo exclusivo sobre as emoções dessa nova turnê.
A TARDE: No show de São Paulo, chamou atenção a sua decisão de não levar convidados e de cantar as músicas inteiras, sem medleys nos clássicos. Como foram essas escolhas?
Djavan: Olha, eu segui minha intuição. Os meus shows são assim. Em geral, eu não tenho muitos convidados. E as músicas, elas são como nasceram na origem. Eu não mudo isso. Posso mudar o arranjo, mas a música vai inteira, vai normalmente como ela foi criada. Eu acho que isso é fundamental. O meu público está acostumado a receber dessa maneira. As pessoas vão ali para ouvir o que elas já conhecem no disco. Isso para mim é fundamental e é algo que faço questão de manter.
AT: Dando um "spoiler" baseado no que vi em São Paulo: o que você está preparando para o show de Salvador? Vai seguir aquela mesma linha?
O show de Salvador não vai ser o mesmo de São Paulo. Em primeiro lugar, porque o show nunca se repete. A plateia muda, muda o dia. Às vezes chove, às vezes não. Mas chover não vai, porque eu vou fazer o show no estádio! Já fiz um contrato lá com o homem lá de cima, não vai ter chuva (risos)
Djavan - sobre show em Salvador
AT: Então pode haver mudanças no repertório?
Djavan: A gente segue fazendo o roteiro que a gente preparou. Mas como a gente preparou também músicas a mais do que a gente está apresentando, mudar uma coisa ou outra ali e acolá é possível, é provável.
AT: Uma baiana na plateia de SP pediu pra eu te dar um 'conselho': disse que o povo daqui é bem elétrico e que exige animação. Como fica a expectativa de sair do formato da Concha Acústica e ir para a grandiosidade da Fonte Nova?
Djavan: O público baiano é muito participativo. Existe uma interatividade forte que a minha música propõe, e na Bahia isso se dá de uma maneira absurda. De modo geral, os meus shows baianos foram quase sempre realizados na Concha, que é geograficamente um lugar propício para uma interação condensada. A Concha concentra a emoção de um modo inescapável. É uma loucura.
E agora a Fonte Nova vai ser igual, ou talvez ainda melhor. Não poderia ser considerado o mesmo show, feito na Concha e na Arena. Mas o essencial se mantém. A gente vai manter aquela emoção imensa que vai eclodir dessa reunião de pessoas. Vai ser um show inesquecível.
AT: Um dos momentos mais bonitos do show em São Paulo foi a homenagem à Gal Costa. Cantar "O Vento" na Bahia terá um peso diferente?
A homenagem à Gal faz parte da minha vontade de nunca esquecer o quanto ela foi importante para mim, em primeiro lugar porque nós éramos amigos. A Gal foi a minha maior intérprete, gravou 13 músicas minhas. Todas as músicas que eu fazia para ela, eu sabia que a identificação seria automática. Além da amizade pessoal, do carinho, do amor que a Gal exalava sempre. Ela ouvia uma música minha e já saía cantando. Então, fazer uma homenagem à Gal, seja na Bahia ou onde for no Brasil, vai ser uma coisa que vai me alegrar muito
Djavan - sobre Gal Costa

AT: Em 50 anos de carreira, você viu muitas mudanças no cenário cultural, que foi do vinil ao streaming, por exemplo. O que te preocupa hoje na cultura brasileira e o que te dá esperança na música?
Djavan: A feitura, a composição, a interpretação e os arranjos são quem realmente leva a minha melhor atenção e preocupação. Toda a movimentação de distribuição que passou a ter a partir da internet são coisas importantíssimas e você tem que estar ligado, mas eu não deixo que isso tome conta dos meus melhores pensamentos.
A periferia da música me interessa, mas não tira o meu sono. Eu tenho uma equipe maravilhosa que cuida de tudo, sobretudo dessa parte da rede social. Eu sou atuante na net, estou ligado em tudo, na verdade.
AT: Quando essa turnê terminar, o que espera que o público tenha entendido ou reforçado sobre a sua obra?
O que eu desejo é que, ao término, a gente tenha um público com a certeza de que o amor que eu deposito na profissão, na feitura das canções, vai continuar. Porque isso em mim não cessa. Eu sou uma pessoa que nunca tive preguiça, digamos assim. Sempre trabalhei incessantemente e ininterruptamente, nunca parei. São 50 anos de carreira dedicados à música completamente, não por nenhum mérito pessoal, mas porque isso me alegra, me faz feliz. E assim vai ser.
AT: Com os ingressos quase que esgotados em Salvador, que recado você deixa para os fãs baianos?
Dizer a todos que se preparem, porque a gente vai chegar forte para se divertir, para se alegrar, para esquecer qualquer mazela do mundo, da família ou entre os amigos. Ali é só para se divertir, para ficar alegre, para dançar e cantar, e eu vou tentar levar minha contribuição para que isso aconteça do começo ao fim do espetáculo!
Djavan - sobre recado para Salvador
SERVIÇO
O quê: Turnê "Djavanear 50 anos" – Djavan
Quando: Sábado, 23 de maio
Onde: Casa de Apostas Arena Fonte Nova (Ladeira da Fonte das Pedras, s/n - Nazaré, Salvador - BA)
Ingressos: De R$ 105,00 a R$ 1.065,00 (com diversos setores esgotados)
Plataforma de vendas online: Ticketmaster
Bilheteria física: Loja SED – SEDLMAYER (Shopping Ponto 7 – Rua Vereador Maltez Leone, 138, Loja 06 – Pituba, Salvador/BA – 41830-125)
Setlist completa da turnê de Djavan
- Abertura - Vocais Melodia Improviso
- Sina
- Eu Te Devoro
- Boa Noite
- Cigano
- Nem Um Dia
- Miragem
- Linha do Equador
- Outono
- Um Brinde
- Meu Bem Querer
- Oceano
- Lambada de Serpente
- Mal de Mim
- Azul
- Açaí
- O Vento
- Cordilheira
- Se
- Me Leve
- Pétala
- Serrado / Fato Consumado / Flor de Lis
- Quase de Manhã
- Seduzir
- Samurai
- Lilás
- Bis
- Um Amor Puro
- Sina (Versão Up)
Veja os próximos shows de Djavan
- 23 de maio – Casa de Apostas Arena Fonte Nova (Salvador)
- 30 de maio – Centro de Formação Olímpica - CFO (Fortaleza)
- 13 de junho – Pedreira Paulo Leminski (Curitiba)
- 27 de junho – Arena Mané Garrincha (Brasília)
- 18 de julho – Arena MRV (Belo Horizonte)
- 01, 02 e 08 de agosto – Farmasi Arena (Rio de Janeiro)
- 29 de agosto – Arena Opus (Florianópolis)
- 24 de outubro – Hangar (Belém)
- 31 de outubro – Classic Hall (Recife)
- 05 de dezembro – Estacionamento do Jaraguá - Maceió
- 12 de dezembro - Mercado Livre Arena Pacaembu (São Paulo) - ESGOTADO
- 13 de dezembro - Mercado Livre Arena Pacaembu (São Paulo) - NOVA DATA
*Jornalista viajou a São Paulo à convite da equipe de Djavan


