DIA DO ROCK
O Emo não morreu: como a cena atual está redefinindo o rock em Salvador
Festas e bandas emos têm encontrado espaço no Rio Vermelho


Franja lateral cobrindo um dos olhos, cabelo tingido, calça skinny, camiseta preta de banda. Por muito tempo, foi só isso que se enxergou quando se falava em emo: uma estética, um figurino, quase uma fantasia de adolescente triste. E foi justamente por essa leitura superficial que o emo virou alvo fácil de piada dentro do próprio universo do rock, celebrado neste 13 de julho: o “primo pobre” que usava guitarra distorcida, subia em palco, gritava no microfone, mas que muitos roqueiros mais tradicionais insistiam em não reconhecer como parte da família. Muita gente, durante anos, repetiu a mesma frase, quase como sentença: emo não é rock.
Só que a cena não parou de tocar, e em Salvador ela nunca parou de verdade. A capital baiana tem uma tradição de rock alternativo que remonta ao início dos anos 2000, quando portais e produtoras locais já cobriam bandas de fora e revelavam nomes daqui.
Hoje o emo ganhou nova cara e um endereço fixo: o Rio Vermelho, point de quem enche pubs como o bar 141 para ver bandas locais e visitantes dividirem o mesmo palco, com produtoras dedicadas e um público crescente. O recado deste grupo é simples e direto: o emo não morreu, ele amadureceu, e trouxe consigo novas distorções.
Franja, gótico, emo: o que é o quê, afinal?

Antes de entender por que o emo é rock, vale separar o que muita gente ainda confunde. Emo, gótico, punk, metal, pop punk: para o público de fora, tudo é “farofa” da mesma tribo alternativa. Para quem vive a cena, são coisas bem diferentes, e que hoje convivem sem tanta rivalidade.
Cairo Luna de Melo, 37 anos, diretor de arte e produtor cultural, um dos nomes por trás do NHL Emo Fest, que aconteceu no último dia 5, no Rio Vermelho, vê o cenário atual como uma mistura muito mais fluida do que a de vinte anos atrás: “Os góticos tão ali juntinho dos emos, e a maioria das vezes essa galera nem se importa com o nome do que elas são, mas sim com a comunidade e expressão pessoal.”
Para Yves Oliveira, 31 anos, operador logístico e emo desde os 19, a essência nunca esteve na aparência: “Ser emo não se resume em uma franja cobrindo os olhos, nem muito menos em apenas roupas pretas. Ser emo é ser alguém sentimental que é sensível e se expressa livremente, principalmente quando está em momentos de vulnerabilidade.”
A jornalista e produtora Bia Vaccari, 28 anos, idealizadora do festival itinerante Banda de Casinha, reforça que a estética é consequência, não definição: “Escrever sobre o que você está sentindo e cantar para as pessoas que estão sentindo a mesma coisa, eu acho que a maior característica é essa, e aí a questão estética vem como uma mera consequência. Tanto que hoje as pessoas que mais escutam emo não se vestem do jeito que as pessoas que escutavam emo se vestiam há 15 anos atrás”, completa.
Emo é rock?
Se a estética não define, o que estabelece isso então? A banda baiana Amélia Nos Observa, um dos novos nomes da cena baiana, vai direto à raiz da palavra. “Sentimentalismo. Não é à toa que o nome emo é uma abreviação de ‘Emotional Hardcore’. Apesar de usar elementos claros do metal, punk e esses outros subgêneros mais pesados, na maioria das músicas os artistas abordam situações íntimas com o objetivo de fazer quem escuta se identificar de alguma forma", afirma o baixista Macaulay Calazans.
Raphael Maiffre, 34 anos, produtor cultural que fundou o portal “RS Rock Salvador” em 2006, também vê o gênero como um guarda-chuva sem regra fixa: “O emo tem vários desdobramentos, isso desde aquela época. Temos situações onde tem vocais mais rasgados e até mesmo efeitos de música eletrônica, assim como pode se combinar com outros estilos. Mas o que faz, pra mim, ser emo, são principalmente as letras intensas e os temas abordados, sentimentos, relacionamentos, mas não acho que tem uma regra. O emo é emo”, diz.

Pietro Sartori, baixista da paulista Chococorn and the Sugarcanes, banda que se define como “emo caipira oficial” e que já passou duas vezes por Salvador, detalha a fronteira entre emo e outros primos de família: “Pra além da confessionalidade das letras, o emo tende a ser punk de um jeito muito mais melódico. Por isso, várias vezes, ele chega a ser confundido com o pop punk, mas acho que no geral ele está mais próximo de um hardcore melódico e de um post-hardcore".
Cairo situa historicamente o nascimento do gênero e sua ruptura dentro do próprio punk/hardcore: “O emo cria identidade e rompe com os outros subgêneros no final dos anos 1980, em Washington DC, quando acontece o ‘Revolution Summer’, com bandas da cena de punk/hardcore olhando mais pra um experimentalismo, focando mais no sujeito e nas angústias e sentimentos pessoais que acabavam por serem dores e questões sociais de muita gente".
E por que, afinal, ele é rock? Pipe Bacchin, guitarrista da Chococorn, não tem dúvida: “Inevitavelmente é rock, porque tem guitarra, bateria, baixo e tem talvez uma atitude de rock. Eu acho que talvez seja emo em temática, em lírica, mas o som, em questão de composição e timbre, é bem mais indie rock".
"O punk, o grunge e o metal surgem com necessidades diferentes, e eu acho que isso define muito as diferenças entre os gêneros. Embora o emo tenha nascido do punk e dentro dos seus limites converse sim sobre temas políticos e adote a estética DIY, o emo traz uma conversa mais interior, uma agonia que surge de dentro e é gritada por vozes 'melosas'. E claro, isso não faz dele menos político, mas chega com uma proposta e propósito muito diferente de outros gêneros", complementa Macaulay Calazans.

O preconceito dos roqueiros
Hoje a convivência entre tribos é mais tranquila, mas nem sempre foi assim. Raphael lembra bem o clima do início dos anos 2000: “O simples fato de escutar bandas como Fresno, NX Zero e Ramirez, por exemplo, era motivo de ser zoado por outras tribos do rock. Um dos pontos de eu ter feito a RS Rock Salvador foi pra justamente quebrar esse preconceito.”
Sobre a raiz desse preconceito, o baterista da Chococorn, Alexandre Luz, é direto: “Antigamente o principal tema contra as bandas emo foi a homofobia e a posição masculinista dentro dos ambientes de contracultura. Hoje, ficou muito mais tranquilo se dizer fazer parte da cena emo, mas em oposição com antigamente, agora não existe mais novidade, então atrai menos interesse dentro de um mundo com tantos nichos.”
Raphael concorda que esse preconceito ficou no passado, mas não sem deixar marcas: “Hoje não existe mais, porém no passado foi esse preconceito um dos motivadores do fim do movimento, pelo menos em minha visão. Se você sufoca um movimento e tenta invalidar o que aquelas pessoas querem transmitir, o resultado é desastroso. Mas hoje vivemos em uma geração muito mais aberta e livre de preconceitos, e por isso o emo está voltando com força, assim como outras vertentes do rock".

Yves Oliveira resume o espírito de resistência que atravessa a cena desde sempre: “O preconceito continua ali dentro da galera do rock/metal, mas de modo geral, o maior preconceito vem da sociedade ‘padrão’. Nós da cena underground e alternativa, nós emos, todos nós existimos justamente para quebrar esses padrões".
O emo caipira e a nova geração
Uma das novidades mais recentes do movimento é o chamado “emo caipira”, termo cunhado pela própria Chococorn and the Sugarcanes, banda formada no interior de São Paulo, em 2021. Pipe explica a origem do estilo:
“O emo caipira foi meio que esse termo, midwest emo abrasileirado. A gente cunhou esse termo pra servir como um guarda-chuva de bandas que tão rolando, não de fechar uma caixinha, mas só de dar nome ao movimento que vem acontecendo no Brasil.”
Pietro Sartori completa explicando as referências dessa nova safra. "O emo da nossa cena e da geração Z é altamente influenciado pelo que se chamou de ‘midwest emo revival’, associado à ‘quarta onda do emo’. Bandas como Mom Jeans, Modern Baseball, etc., são bandas que nosso pequeno nicho geracional descobriu não muito tempo atrás e ama".
Sobre o tom das próprias composições, Pietro ainda define a Chococorn como uma banda mais leve dentro do espectro emo: “Nos afastamos um pouco da tristeza suprema do emo e tratamos de temas mais gentis como amizade, saudades, amores. Acho que há sim uma tristeza interna nessas músicas, mas creio que elas nunca vêm sem sua ótica esperançosa e divertida. Acho que somos meio agridoces".
Bia Vaccari, que acompanha de perto essa cena através do Banda de Casinha, também vê uma valorização maior das raízes nacionais: “Existe essa nomenclatura do emo caipira que procura valorizar muito o rock nacional, a música autoral e independente feita aqui no Brasil".
Rio Vermelho como novo point
E se antes o emo tinha que disputar espaço em line-ups genéricas, hoje ele já tem evento para chamar de seu: um dos mais conhecidos é o NHL Emo Fest, que aconteceu em 5 de julho, reunindo grupos de diferentes estados em torno de sonoridades que transitam entre emo, punk, indie rock e influências experimentais. A programação teve show da Chococorn and The Sugarcanes, em turnê do álbum “Todos os Cães Merecem o Céu”; da paraibana Emerald Hill, em sua estreia na capital baiana, e da própria Amélia Nos Observa.

A banda baiana celebra o resultado: “O crescimento da cena é evidente. A plateia é majoritariamente jovem, não sei estipular uma idade média, porém vão pessoas de 20, 30 e acredito que no máximo até os 40, mas os de 40 são uma minoria".
Mas talvez a cena mais bonita dessa reportagem seja mesmo o encontro entre gerações. Cairo descreve esse reencontro com quem viveu o auge dos anos 2000: “Recebo muito mais jovens em shows promovidos por mim do que recebia nos anos 2010. Existe um respeito e uma agregação muito maior de outros estilos musicais e artísticos na produção visual dessa nova galera. É lindo de ver, quase como um sonho dos emo velhos".

E se tem um ponto em que todos os entrevistados concordam, é que o emo nunca foi “só uma fase”, e talvez seja justamente essa insistência que hoje sustenta uma cena madura, plural e cada vez menos disposta a pedir licença para existir dentro do rock.
Cairo fecha com uma imagem que resume bem o espírito por trás de festas e festivais dedicados ao gênero:
“O que festas inclusivas e focadas na expressão pessoal oferecem, de um modo geral, é um espaço de convivência real e não convencional, onde você pode ser você mesmo e ouvir alguém no palco gritando o que realmente sente, e se identificar com aquilo de todo coração, e no fim ser feliz”.