OPINIÃO
A república das emendas
Confira o Editorial desta quarta-feira, 15


A sucessão de escândalos envolvendo emendas parlamentares volta a expor as deformidades do sistema político brasileiro, capturado pelo monstro da corrupção. Ao alcançar Eduardo Cunha e Valdemar Costa Neto, a apuração da Polícia Federal não revela só desvios individuais, mas uma estrutura de poder fora da lei.
Chama a atenção o fato de os dois suspeitos influenciarem os recursos públicos mesmo sem mandato – um, ex-presidente da Câmara, e outro, dirigente máximo da oposição. Não seria exagero formular a hipótese de duas grandes quadrilhas, operando sob a redoma da República, portanto habilitada a enganar, mediante capacidade mimética.
Segundo a PF, parlamentares “emprestam nomes” para formalizar pedidos, protegidos por sigilo, artimanha capaz de esconder a verdadeira autoria. É inaceitável a terceirização da função legislativa, produzindo a justa sensação de absurdo, a exigir o trabalho célere visando punição proporcional, se houver crime.
O caso de Cunha é hiperbólico: 29 prefeituras mineiras receberam verbas supostamente direcionadas por ele para a saúde, com indícios de desvio de finalidade. A coincidência entre o mapa das emendas e intenção de disputar vaga por Minas não é detalhe – é método. O sórdido esquema precisa ser desarticulado.
Já Valdemar, com bens bloqueados em mais de R$ 119 milhões, teria se tornado um “rei parlamentar”, orientando os repasses, ao utilizar o PL como álibi do gabinete paralelo. Curiosamente, o argumento falacioso é o mesmíssimo utilizado por políticos de espectros distintos e até antagônicos, quando há indícios de ladroagem: “perseguição”.
O correto, de um ponto de vista de introdução à lógica clássica, é uma posição adulta dos escritórios de advocacia, refutando, stricto sensu, os autos de acusação. A ardilosa subtração do erário, uma banalidade do mal, implica admitir a normose bandoleira, na qual prevalece a mentalidade de uma cleptocracia de psicopatas.