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Quando o Rio se uniu por Romário: polícia e CV na busca pelo pai do craque antes da Copa

Às vésperas da Copa de 1994, o sequestro do pai de Romário provocou uma mobilização improvável no Rio

Luan Julião
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| Atualizada em
Sequestro um Rio de Janeiro onde futebol, crime organizado e segurança pública se cruzavam
Sequestro um Rio de Janeiro onde futebol, crime organizado e segurança pública se cruzavam - Foto: - Luan Julião | Ag. A TARDE | ChatGPT

O Rio de Janeiro de 1994 era um lugar onde o sequestro já tinha virado quase uma editoria fixa do jornal. Empresários desapareciam, famílias negociavam resgates milionários e a recém-criada Divisão Anti-Sequestro tentava correr atrás de uma criminalidade que parecia operar em escala industrial. No meio daquele caos, mais um comerciante foi colocado dentro de um carro por homens armados na Zona Norte carioca. Em teoria, era “só” mais um caso. Até descobrirem o sobrenome da vítima.

O homem sequestrado era Edevair de Souza Faria. Pai de Romário.

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O detalhe muda tudo porque o Brasil de 1994 depositava no camisa 11 uma responsabilidade quase espiritual. O país não ganhava uma Copa do Mundo havia 24 anos, a seleção carregava mais desconfiança que empolgação e Romário era tratado como a última garantia de que aquilo não terminaria em tragédia futebolística. Quando o atacante declarou que não teria condições emocionais de jogar a Copa enquanto o pai estivesse em cativeiro, o pânico foi coletivo.

Edevair de Souza Faria, pai de Romário
Edevair de Souza Faria, pai de Romário - Foto: Reprodução / Redes Sociais

O Rio, pela primeira vez talvez na história, viu polícia, traficantes, informantes, policiais fora de serviço, moradores de favela e até criminosos rivais compartilharem o mesmo objetivo estratégico: fazer o Baixinho embarcar para os Estados Unidos.

A frase parece roteiro rejeitado. Mas aconteceu.

Na época, o delegado responsável pela Divisão Anti-Sequestro era Hélio Vígio, uma espécie de xerife dos anos 90 cariocas. Experiente, entendeu rapidamente que os sequestradores tinham cometido um erro de cálculo monumental. Pediram US$ 7 milhões pelo resgate de Edevair. Era dinheiro demais até para o padrão de um dos maiores jogadores do planeta.

Delegado responsável pela Divisão Anti-Sequestro era Hélio Vígio
Delegado responsável pela Divisão Anti-Sequestro era Hélio Vígio - Foto: Reprodução / Redes Sociais

"Nem Pelé tem esse dinheiro todo. Eles fizeram um péssimo negócio, vão perceber a tempo e libertar o comerciante. Romário é conhecido entre os bandidos, que adoram futebol, e muitos vão colaborar com a polícia", disparou Vígio, numa declaração que misturava deboche, pressão psicológica e recado público aos sequestradores.

Mas a polícia não era a única interessada no caso.

Do outro lado da cidade, outra força resolveu entrar em campo

Orlando da Conceição, o Orlando Jogador, principal nome do Comando Vermelho no Complexo do Alemão, também se mobilizou para encontrar o pai de Romário. Figura folclórica e brutal na mesma medida, Orlando era daqueles personagens que ajudam a explicar por que os anos 90 no Rio pareciam um filme policial sem roteirista supervisionando.

Orlando da Conceição, o Orlando Jogador
Orlando da Conceição, o Orlando Jogador - Foto: Reprodução / Redes Sociais

Apaixonado por futebol, organizador de torneios em comunidades e dono de uma popularidade construída na mistura entre caridade e violência, Orlando entendeu o tamanho do problema. Não era apenas o pai de um jogador sequestrado. Era o risco do Brasil chegar sem Romário à Copa.

E isso, aparentemente, era inaceitável até para o tráfico.

Relatos da época apontam que Orlando Jogador reuniu homens armados, acionou contatos espalhados por comunidades e até financiou policiais trabalhando fora do expediente para ajudar nas buscas. Alguns interlocutores afirmam que ele chegou a oferecer recompensa para quem encontrasse o cativeiro e executasse os sequestradores.

É difícil encontrar exemplo mais carioca dos anos 90 do que esse: o Estado investigando oficialmente enquanto o crime organizado montava uma força-tarefa paralela para salvar a campanha da seleção brasileira.

A lógica era quase patriótica. Ou futebolística. No Rio daquela época, às vezes era a mesma coisa.

Romário, anos depois, praticamente confirmou que houve ajuda do tráfico. Quando perguntado se acreditava que criminosos haviam colaborado no resgate, respondeu sem rodeios:

“Não só acho como tenho certeza.”

A fala talvez seja uma das melhores traduções possíveis daquele momento histórico. Porque o caso desmonta completamente a fantasia de que os mundos da legalidade e da ilegalidade operavam separados no Rio de Janeiro dos anos 90. Em muitos momentos, eles coexistiam, se cruzavam e até cooperavam informalmente quando existia um interesse em comum.

E naquele maio de 1994, o interesse em comum era simples: ninguém queria carregar a culpa de tirar Romário da Copa.

A pressão era tão absurda que o sequestro ultrapassou a página policial e virou tema nacional. O atacante estava no Barcelona, decidindo campeonato espanhol, enquanto o Brasil acompanhava em tempo real a possibilidade de perder seu principal jogador semanas antes do Mundial.

Até que veio a denúncia

Segundo relatos da época, policiais militares que patrulhavam o Conjunto Boa Esperança, em Queimados, foram abordados por um morador informando a localização do cativeiro. A polícia estourou o imóvel e libertou Edevair seis dias após o sequestro. Duas mulheres responsáveis por vigiar o pai do atacante foram presas.

O comerciante apareceu vivo, com marcas das algemas nos pulsos e uma tranquilidade que contrastava com o caos nacional criado ao redor dele. Disse que foi bem tratado, comeu bife com batata frita, bebeu cerveja no cativeiro e até brincou dizendo que não valia os US$ 7 milhões pedidos pelos sequestradores.

O Brasil respirou.

Romário embarcou.

Pouco tempo depois, destruiu na Copa do Mundo.

Existe até hoje uma ironia histórica difícil de ignorar: talvez o tetra brasileiro tenha passado por uma improvável operação informal envolvendo policiais, informantes, traficantes e personagens do submundo carioca trabalhando simultaneamente pelo mesmo objetivo.

Não exatamente pela segurança pública. Mas porque ninguém queria ver a seleção sem Romário.

Orlando Jogador não viu o Brasil campeão

E o personagem talvez mais simbólico dessa história sequer viu o título acontecer. Orlando Jogador foi morto em junho de 1994, dias antes do início da Copa, numa emboscada organizada pelo rival Uê. O homem que ajudou a transformar o Complexo do Alemão em quartel-general do Comando Vermelho morreu antes de assistir ao tetra que, segundo relatos, tentou ajudar a viabilizar.

Imagem ilustrativa da imagem Quando o Rio se uniu por Romário: polícia e CV na busca pelo pai do craque antes da Copa
Foto: AFP/TIMOTHY A. CLARY

No fim, o episódio virou uma espécie de retrato involuntário do Rio de Janeiro daquela década: uma cidade onde o futebol tinha peso institucional, o crime organizado exercia influência territorial gigantesca e até um sequestro podia virar questão de “interesse nacional” se ameaçasse a escalação da seleção brasileira.

Porque em 1994, antes do tetra, o Brasil teve um objetivo coletivo talvez ainda mais urgente:

Encontrar o pai do Romário.

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