JÚRI ADIADO
“Queremos resposta”, diz irmã de Valdir após quase 10 anos do crime
Esta é a 4ª vez que a família do cabeleireiro deixa Fórum Ruy Barbosa frustrada


Quase dez anos após o assassinato do cabeleireiro Valdir Macário, morto a tiros dentro do próprio salão de beleza, na Avenida Vasco da Gama, em Salvador, no dia 12 de novembro de 2016, a família voltou a deixar o Fórum Ruy Barbosa sem a resposta que espera da Justiça.
Pela quarta vez, o julgamento dos acusados foi adiado, nesta quinta-feira, 6, prolongando uma espera marcada por frustrações e sucessivos obstáculos processuais.
O novo adiamento ocorreu porque um dos réus, Patrick Ribeiro Tupinambá, conhecido como Bagão, compareceu ao fórum sem advogado. Segundo informações, ele teria informado que seus defensores haviam deixado o caso na quarta-feira, 5, véspera do julgamento.
Na ocasião, o julgamento de Edgar da Silva Santos, apontado como o mandante do crime, também foi adiado, já que eles respondem ao processo em conjunto. Segundo entendimento do Ministério Público do Estado (MP/BA) entendeu que o júri deveria ser remarcado para que ambos fossem julgados simultaneamente.
A irmã de Valdir, a empreendedora Aldísia Macário, afirmou que a família recebeu a decisão com indignação. Para ela, a sucessão de adiamentos reforça a sensação de que o sistema garante mais direitos aos acusados do que às vítimas e seus familiares, que aguardam por justiça há quase uma década.
"Eu enxergo isso pela falta de respeito. Porque eles estão cheios de direitos. São pessoas que são réus e têm mais direito do que as pessoas honestas. Meu irmão era uma pessoa direita, meu irmão pagou todos os impostos. Meu irmão vai fazer dez anos de falecido e está sem direito nenhum", desabafou ela.

"Aí quando chega lá, na hora do júri, ele [Patrick] chega sem advogado porque, segundo ele, o advogado dele largou a causa ontem [quarta-feira, 5], por estratégia deles. Nossa Constituição não permite que uma pessoa vá para o júri sem um advogado para defendê-lo. Aí foi adiado de novo", complementou a mulher.
Aldísia também relembrou que os adiamentos anteriores ocorreram em razão de alegações de problemas de saúde envolvendo outro Edgar, mais conhecido como Chocolate.
De acordo com ela, a família compareceu ao fórum desde cedo e aguardou o início da sessão, mas os acusados chegaram com atraso e, pouco antes do julgamento começar, foi anunciada a nova suspensão.
"As outras vezes, disseram que o Edgar estava com problema de saúde, aí precisou ser adiado. Dessa vez, chegamos lá cedo, estava marcado para às 8h. Eles chegaram super atrasados. Quando foi 9h, que iria começar, veio com essa reação", lembrou Aldísia.
O crime
O cabeleireiro Valdir Macário foi executado dentro do próprio estabelecimento, diante de funcionários e clientes. As investigações da Polícia Civil apontaram Edgar da Silva Santos como mandante do crime.
Em depoimento, ele confessou ao então diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), delegado José Bezerra, que ordenou o assassinato por acreditar que Valdir acobertava o relacionamento entre seu irmão, Reginaldo Manoel da Silva, e sua esposa, Jucilene Alves dos Santos.

Na ocasião, ele também alegou sentir-se ameaçado após Valdir afirmar que a tentativa de homicídio sofrida por Reginaldo não ficaria impune. As investigações apontaram que, em 15 de outubro de 2016, um mês antes da execução de Valdir, Chocolate havia pago cerca de R$20 mil para que homens matassem Reginho.
Aldísia revelou que apenas Patrick encontra-se preso. Edgar responde ao processo em liberdade devido a questões de saúde. A informação, no entanto, não pôde ser confirmada pelo A TARDE.
Outros envolvidos
À época do crime, as câmeras de segurança do estabelecimento registraram o momento em que Patrick e outro homem, ainda não identificado, chegam ao local. Valdir esta atendendo um cliente e, ao perceber a ação, corre para o banheiro na tentativa de se proteger, em vão.
Ele é executado pelo suspeito, que não teve a identificação informada, até o momento, com cerca de 20 tiros de pistola calibre.40.
Nas imagens registradas dentro do salão, é possível ver Patrick com uma arma de grosso calibre dando apoio a ação criminosa. Segundo informações reveladas, Edgar ficou dentro do carro aguardando os comparsas.
Para Aldísia, ainda restam perguntas sem respostas, especialmente sobre o paradeiro de Jucilene Alves dos Santos, apontada durante as investigações como personagem central na motivação do crime. No início das investigações, a Polícia Civil chegou a solicitar a prisão dela para apurar se ela tinha envolvimento no crime.
"A gente não sabe falar nada dela [Jucilene]. Mas se vocês puderem fortalecer, nós também queremos saber. Porque uma das coisas que a gente quer saber. Outra coisa é saber quem foi que atirou em Valdir. Até hoje, não sabemos quem foi. A polícia não nos informou", afirmou a empreendedora.
Mesmo após quase dez anos de espera, a família afirma que continuará acompanhando o processo e mobilizando apoio para que o julgamento finalmente aconteça.
"Nosso apelo é que a Justiça brasileira continue fortalecendo. Porque nós precisamos dar satisfação à nossa família e à nossa sociedade. Porque pessoas como nós, que estão passando por essa mesma situação, se puderem estar lá no dia para nos apoiar, nós agradecemos", pontou ela, revelado que o Tribunal do Júri foi remarcado para 25 de agosto, às 8h, no Fórum Ruy Barbosa.
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O que diz a Polícia Civil e os advogados
O A TARDE entrou em contato com a Polícia Civil para verificar se o inquérito sobre a morte de Valdir já foi concluída ou se ainda está em andamento para identificar o terceiro suspeito e responsável por disparar os tiros que mataram Valdir.
A reportagem também procurou saber se a participação de Jucilene, à época questionada, foi descartada. Mas, até a publicação desta matéria, não obteve retorno.
A equipe de A TARDE também tentou contato com os ex-advogados de Patrick e o defensor de Edgar. Mas, não obteve êxito. O espaço segue aberto para que as defesas se manifestem e apresentem seus esclarecimentos.


