POLÍTICA
Ex-assessora de Mario Frias relata suposta “rachadinha” em gabinete
Ex-funcionária afirma que fazia repasses ao chefe de gabinete do deputado


A ex-funcionária do gabinete do deputado federal Mario Frias na Câmara dos Deputados afirmou ter devolvido parte do salário recebido como assessora parlamentar ao então chefe de gabinete do parlamentar e a familiares dele entre 2023 e 2024.
A denúncia feita ao g1 é acompanhada de comprovantes bancários, extratos e registros de transferências obtidos pela imprensa.
Segundo os documentos, Gardênia Morais, que atuou como secretária parlamentar entre fevereiro de 2023 e maio de 2024, realizava repasses mensais após receber os salários pagos pela Câmara. Os valores teriam sido enviados ao então chefe de gabinete, Raphael Azevedo, além de parentes ligados a ele.
Os comprovantes incluem transferências via PIX que variam entre R$ 1,5 mil e R$ 5 mil, além de pagamentos destinados à ex-esposa e a outra familiar de Azevedo. Somados, os repasses identificados chegam a R$ 35 mil, embora a ex-assessora afirme que o total devolvido tenha sido maior.
"Dos cinco empréstimos, um é meu particular, no restante todos foram feitos a pedido do deputado e do Raphael Azevedo para quitar dívidas de campanha [de 2022]. Os empréstimos foram feitos e eles não foram quitados, estão todos em aberto no Serasa. Enfim, meu nome... Para você ter noção de como ficou minha situação hoje, eu moro de favor na casa da minha ex-sogra", disse.
Gardênia também declarou que outros servidores do gabinete realizavam o mesmo tipo de devolução. Em entrevista, ela afirmou que o acordo teria sido feito com conhecimento do deputado.
"O deputado sabia, o deputado estava ciente de todas as devoluções. Foi um combinado inicial, o deputado sempre participa. E depois as tratativas do dia a dia ocorriam com o Azevedo, que na época era o chefe de gabinete, braço direito do deputado", declarou.
Empréstimos consignados e saque em dinheiro
Os documentos ainda apontam que a ex-funcionária contratou cinco empréstimos consignados que, juntos, totalizam R$ 174,8 mil. Segundo ela, apenas um dos contratos teria sido utilizado para fins pessoais.
Os demais, conforme relatou, teriam sido feitos a pedido do então chefe de gabinete para quitar despesas relacionadas à campanha eleitoral de 2022. Parte dos valores obtidos nos empréstimos teria sido transferida para Raphael Azevedo em datas próximas às liberações bancárias.
Outro ponto que chamou atenção foi um saque de R$ 49.999,99 realizado em março de 2024. Conforme os registros, Gardênia recebeu depósitos que totalizaram R$ 50 mil, transferiu o valor entre contas pessoais e, no dia seguinte, retirou quase todo o montante em espécie.

Ela afirmou que entregou o dinheiro, mas não revelou o destinatário.
Pagamentos a familiares
Entre os comprovantes obtidos também aparecem despesas relacionadas a familiares do deputado. Um dos registros mostra um PIX de R$ 1 mil enviado à mãe de Mario Frias. Outro aponta o pagamento de uma fatura de cartão de crédito da esposa do parlamentar, no valor de R$ 4,8 mil.
A prática investigada é popularmente conhecida como “rachadinha”, termo usado para descrever a devolução de parte dos salários de assessores parlamentares.
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Embora não exista um crime específico com esse nome na legislação brasileira, casos semelhantes costumam ser investigados sob suspeita de peculato, quando há desvio de recursos públicos.
Ligação com filme sobre Bolsonaro
O nome de Mario Frias também apareceu recentemente ligado à produção do filme “Dark Horse”, obra inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Mensagens divulgadas pela imprensa apontam que o longa recebeu financiamento milionário do banqueiro Daniel Vorcaro. Frias atuou como produtor-executivo do projeto e teria agradecido pelo aporte financeiro em mensagens atribuídas ao parlamentar.
O que dizem os envolvidos
O atual chefe de gabinete do deputado afirmou desconhecer as denúncias, alegando que assumiu o cargo após o período investigado. Segundo ele, Mario Frias também não teria conhecimento das acusações.
Já Raphael Azevedo não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem do g1 até a publicação do texto.


