Embora tenha se desenvolvido ao longo dos quase 477 anos, que serão completados no dia 29 deste mês, um fato chama atenção na história política de Salvador: desde a Proclamação da República, em 1889, a cidade teve apenas uma mulher à frente da prefeitura.
Trata-se de Lídice da Mata, eleita pelo PSDB no segundo turno em 15 de novembro de 1992.
À época, a atual deputada federal disputou o Executivo municipal contra o radialista e então deputado federal Manoel Castro, do extinto Partido da Frente Liberal (PFL), que saiu derrotado.

Foi uma vitória histórica! Lídice conseguiu derrotar nas urnas, com cerca de 53% dos votos válidos, o candidato apoiado pelo então governador Antônio Carlos Magalhães (ACM), que exercia forte influência política na Bahia, e ficou no cargo entre 1993 e 1996.
Após esse período, Salvador passou a ser administrada apenas por homens.
Neste Dia Internacional da Mulher, o Portal A TARDE relembra a trajetória de Lídice da Mata e discute os desafios para ampliar a participação das mulheres na política.
Mandato marcado pela perseguição
Lídice enfrentou dificuldades para dirigir a capital baiana, especialmente por conta dos intensos embates com o carlismo, que controlava o governo da Bahia.

Após a vitória em 1992, o governador ACM passou a realizar obras diretas na cidade, interferindo no mandato da então prefeita, já que a ação era de competência do governo municipal.
Diante disso, Lídice denunciava o feito como uma tentativa de esvaziar a sua gestão e criar um "governo paralelo" na capital.

Naquele momento, Lídice tinha a economista Bete Wagner (PT) como vice-prefeita. As duas representavam a esquerda e a resistência democrática no período pós-ditadura, enquanto o carlismo era visto como símbolo do poder tradicional e centralizador da Bahia.
Por isso, em diversos momentos, o governo Lídice foi alvo de questionamentos políticos. Além de ACM, ela precisou lidar com outros dois governadores da mesma linha ideológica.
- Antônio Imbassahy: como era presidente da Assembleia Legislativa, assumiu o governo tampão de abril de 1994 a janeiro de 1995, após a renúncia do vice-governador Paulo Souto, que deixou o cargo para disputar o governo.
- Paulo Souto: assumiu o governo em 1º de janeiro de 1995 e governou durante os dois últimos anos da gestão de Lídice.
Eleitorado feminino ainda não se traduz em representatividade
As mulheres correspondem a 52,5% do eleitorado brasileiro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na Bahia, mais especificamente em Salvador, dados mais recentes mostram que 1,97 milhão de pessoas estão aptas a votar.
Desse total, mais da metade é formada por mulheres, o que representa cerca de 1,09 milhão de eleitoras na capital.
Esse número expressivo, somado ao fato de Lídice ter sido a única prefeita de Salvador, evidencia que barreiras históricas e institucionais impostas por um modelo de sociedade machista ainda dificulta que mulheres cheguem ao topo dos espaços de poder.
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Por que as cotas ainda não mudaram esse cenário?
O cientista político João Vitor Vilas Boas explicou ao Portal A TARDE que a baixa presença de mulheres no Executivo municipal não é apenas uma questão legal, mas também cultural e estrutural.
Mesmo com leis que incentivam a participação feminina nas candidaturas, como as cotas de gênero, existem barreiras históricas que dificultam que uma nova mulher seja eleita para ocupar a cadeira principal do Palácio Thomé de Souza.
“A construção de uma liderança capaz de disputar um cargo majoritário, como a Prefeitura, exige trajetória pública, visibilidade, articulação política e conexão contínua com a sociedade. E essa construção é cumulativa, desenvolvida ao longo do tempo”, afirmou o especialista.
Mesmo quando uma mulher alcança mandato eletivo, transformar essa experiência em capital político suficiente para uma disputa executiva ainda enfrenta obstáculos estruturais e culturais que não se resolvem automaticamente apenas com a previsão legal de cotas, demandam mais tempo
O que diz Lídice sobre essa realidade?
Nascida no município de Cachoeira, no Recôncavo baiano, Lídice da Mata tem 69 anos e vê esse cenário de desvalorização com “desapontamento”, embora ainda guarde na memória a euforia da vitória nas urnas em 1992.
“Eu digo que fui a primeira prefeita de Salvador com orgulho, mas também com um pouco de desapontamento, pois de lá para cá não tivemos mais nenhuma mulher assumindo esse cargo”, lamentou em conversa com o portal A TARDE.

Lídice também relembrou os seus quatros anos de gestão na primeira capital do Brasil.
Foi um período duro, em que enfrentei muita perseguição, mas o povo da cidade e da Bahia compreendeu
Lutando contra o machismo: eleita senadora e cinco vezes como deputada
Segundo Lídice, a população compreendeu o que ela enfrentou no governo e continuou apoiando o projeto político.
Nas eleições de 2010, por exemplo, ela foi eleita a primeira mulher senadora da Bahia. Ao longo da carreira, também acumulou dois mandatos como deputada estadual e três como deputada federal.
“Olhando para a história, fica até parecendo fácil, por conta dos inúmeros espaços que ocupei, mas isso aconteceu a muito custo. A sociedade ainda é machista e possui muito preconceito em relação às mulheres nos espaços de poder e decisão”, concluiu.
● Qual é a importância da eleição de Lídice da Mata como prefeita de Salvador?A eleição de Lídice da Mata em 1992 foi um marco histórico, pois ela se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de prefeita da cidade, desafiando barreiras de gênero e mostrando que mulheres podem e devem estar em espaços de poder.
● Quais desafios Lídice da Mata enfrentou durante seu mandato?Lídice enfrentou intensos conflitos políticos, especialmente com o carlismo, e sofreu tentativas de esvaziamento de sua gestão, por conta da interferência do governador Antônio Carlos Magalhães em obras da cidade.
● Como está a representação feminina na política de Salvador hoje?Apesar de as mulheres representarem mais da metade do eleitorado em Salvador, a cidade não teve mais prefeitas desde Lídice, evidenciando a sub-representação feminina em cargos políticos.
● Por que as cotas de gênero não garantem mais mulheres na política?As cotas de gênero são insuficientes devido a barreiras culturais e estruturais, que dificultam o surgimento de mulheres com a trajetória necessária para serem eleitas em cargos majoritários.
● O que Lídice da Mata diz sobre a atual representação feminina?Lídice expressa desapontamento pela falta de mulheres na prefeitura desde seu mandato, mas ressalta a importância da luta contínua contra o machismo e a necessidade de mais espaços para mulheres na política.
Com o objetivo de debater temas fundamentais para o público feminino, o Grupo A TARDE promove o evento "Mulheres em Pauta: Empoderamento e Segurança".
O encontro será realizado no dia 17 de março, das 15h às 18h, no Auditório do SEBRAE (Rua Arthur de Azevêdo Machado, 1225, Edf. Civil Towers, Costa Azul, Salvador - BA).
A iniciativa integra as celebrações em torno do Dia da Mulher, reunindo discussões sobre protagonismo e proteção no cenário atual.
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