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Cobre em siris: veja danos à saúde causados por crustáceos infectados

O portal A TARDE conversou com o cientista responsável pela pesquisa e com um nefrologista para entender os possíveis danos aos seres humanos

Luiza Nascimento
Por
Pesquisa sobre Cobre em siris da espécie Caxangá
Pesquisa sobre Cobre em siris da espécie Caxangá -

A pesquisa realizada pelo Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), que encontrou Cobre em siris da espécie Caxangá, a mais abundante da praia de São Tomé de Paripe, no Subúrbio de Salvador, acendeu um alerta sobre os danos que o material pode causar na fauna e na população.

Ao todo, 29 siris foram estudados e todos eles sofreram contaminação. Na análise, os pesquisadores avaliaram estruturas ligadas à respiração e órgãos internos da espécie.

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Ao portal A TARDE, o professor e cientista Frank Kelmo, um dos responsáveis pela pesquisa, explicou que o levantamento se deu após pedido da população, que participou do processo de forma ativa, ajudando inclusive na coleta.

Realizada na área que fica atrás do pier, no Terminal Marítimo de Granéis (TMG), a área foi escolhida pelos episódios de aparecimento das manchas azuis e amarelas. Coletados, os animais passaram por análises no laboratório, onde foram medidos, pesados e examinados morfologicamente de forma externa e interna.

"A análise tinha como intuito ver se eles estavam aleijados, com a perninha torta e também fizemos a análise para ver se essa exposição ao poluente teria causado alguma má formação dos órgãos internos", explicou Kelmo.

Nessa fase da pesquisa não foi encontrada nenhuma alteração. Assim, eles seguiram para análise dos tecidos da brânquia, que configura o sistema respiratório do animal, e é por onde os contaminantes entram no corpo dos indivíduos.

Pesquisa sobre Cobre em siris da espécie Caxangá
Pesquisa sobre Cobre em siris da espécie Caxangá | Foto: Arquivo pessoal

A descoberta

Os pesquisadores perceberam que algo estava errado após um estudo feito por uma coleta de amostra do hepatopâncreas, que é um um órgão semelhante ao fígado humano, e com uma parte do músculo do animal, que é comestível.

"Nós levamos essas amostras para um outro laboratório, onde nós fizemos a dosagem para medir a concentração de Cobre nesses tecidos. E aí a gente identificou que existe realmente a presença de Cobre nos três tecidos diferentes e que em alguns animais essa medida foi relativamente alta", disse o cientista.

A presença desse material pode ser prejudicial à saúde tanto dessas espécies, quanto dos seres humanos.

"O animal pode ficar enfraquecido, ele perde peso e pode ter dificuldade de se reproduzir. A poluição de São Tomé de Paripe não causou alteração na morfologia externa, nem interna do animal, mas a parte comestível apresenta uma concentração de cobre relativamente elevada. Então, a recomendação é que a praia permaneça interditada até que a avaliação se conclua", enfatizou.

Pesquisa sobre Cobre em siris da espécie Caxangá
Pesquisa sobre Cobre em siris da espécie Caxangá | Foto: Arquivo pessoal

Saúde humana

No caso dos seres humanos, o biólogo alerta que o maior problema está na ingestão continuada do alimento, já que a carne do siri está contaminada. Para entender os malefícios, o portal A TARDE conversou com o nefrologista Alexandre Sá, do Hospital da Bahia, que explicou de que forma o Cobre atua no organismo.

Segundo o especialista, a presença desse material nos alimentos é comum, mas é preciso atenção ao consumo em grandes quantidades.

"É comum alimentos e água terem Cobre e é até importante para o ser humano. O problema é quando essa quantidade passa dos limites aceitáveis, quando o corpo não consegue metabolizar e eliminar", alertou Sá.

Segundo o médico, quando o limite desejável é ultrapassado, pode gerar uma intoxicação aguda ou crônica, podendo desenvolver um quadro clínico mais grave.

Intoxicação aguda por Cobre

É aquela causada por uma ingestão de grande quantidade de Cobre, que pode ser acidental, através de um alimento contaminado, ou proposital, com uma tentativa de suicídio.

Nesse caso, a intoxicação tem sintomas gastrointestinais como:

  • diarreia;
  • gosto metálico na boca;
  • dor abdominal tipo cólica;
  • vômitos;
  • enjoos;
  • perda de apetite.

Quando ocorre uma ingestão em grande quantidade, pode desenvolver uma intoxicação aguda mais grave, com quadros severos de hepatite aguda e insuficiência hepática, fazendo o fígado perder a função. Além disso, pode desencadear a insuficiência renal, caunsando uma anemia aguda e dores musculares.

Intoxicação crônica por Cobre

A sintomatologia da intoxicação crônica é mais é difícil de perceber, porque acontece de forma mais lenta de anemia ou hepatite, podendo evoluir para uma cirrose. Nesse caso, o paciente também costuma ter danos neurológicos.

"Ele começa ficar parecendo um paciente psiquiátrico, com distúrbios do comportamento, do humor e é muito difícil de perceber, porque são sintomas que podem ser confundidos com várias outras doenças", alertou o especialista.

Esse caso de contaminação tende a iniciar com os mesmos sintomas agudos, mas se a causa não for tratada e o consumo persistir, pode piorar, chegando a desenvolver a Doença de Wilson, um distúrbio genético raro que impede o organismo de excretar o excesso de Cobre adequadamente.

Portanto, a doença se caracteriza por:

  • Problemas hepáticos;
  • cirrose;
  • hepatites;
  • sintomas neurológicos;
  • sintomas psiquiátricos;
  • confusão mental;
  • crises convulsivas;
  • coma;
  • alterações do humor.

O grupo mais vulneráveis a uma possível intoxicação por Cobre é de crianças e pacientes que já desenvolveram a Doença de Wilson, porque ambas podem acumular o metal com mais facilidade.

Pesquisa sobre Cobre em siris da espécie Caxangá
Pesquisa sobre Cobre em siris da espécie Caxangá | Foto: Arquivo pessoal

Como evitar intoxicação?

Para diminuir os riscos, a orientação é que a população evite consumir alimentos de áreas possivelmente contaminadas, ficando atenta às orientações dos órgãos envolvendo a vigilância sanitária e balneabilidade como Secretaria de Saúde e Ministério da Saúde.

Em caso de ingestão de possíveis alimentos contaminados, a recomendação é procurar assistência médica e monitorar os sintomas, principalmente os gastrointestinais.

"Se a pessoa estiver bem pode só observar, mas se começar com enjoo, vômito, perda de apetite, dor abdominal ou diarreia, é melhor procurar um médico e avisar, porque isso pode ser uma simples virose ou pode ser uma infecção intestinal. Além dos sintomas, [o paciente] tem que avisar se mora ou visitou uma área que está na lista de possível contaminação para o agente de saúde que tiver avaliando conseguir fazer essa conexão", alertou Alexandre Sá.

Pesquisa sobre Cobre em siris da espécie Caxangá
Pesquisa sobre Cobre em siris da espécie Caxangá | Foto: Arquivo pessoal

Próximos passos da pesquisa

Como apenas 29 animais foram analisados, o cientista Frank Kelmo conta que a intenção dos pesquisadores é de retornar ao campo para aumentar a amostra com a avaliação de outros indivíduos: peguari e chumbinho. No entanto, o foco do momento é eliminar a fonte de contaminação.

"Tem ali uma infiltração de água subterrânea que chega com esse poluente e quando cava ali a praia é que ela sobe. Então, não tá vindo do navio, não tá vindo do pier, não tá vindo dos caminhões, ela está infiltrada de baixo para cima no solo. Então, essa fonte de poluição tem que ser identificada e estancada", explicou Kelmo.

Outro ponto focal é ter uma noção completa, não apenas da contaminação por cobre, nitrato, nitrito e nitrogênio amoniacal, mas de todos os outros elementos que são potencialmente capazes de causar doenças aos animais e, por consequência, aos seres humanos.

A intenção é monitorar todas as comunidades, marinhas e biota, inclusive os peixes, para ver como está a saúde desses animais e como se dará a recuperação dessa área depois que a fonte de contaminação for eliminada.

"A Baía de Todos os Santos é um ambiente que há mais de 50 anos vem sofrendo influência de diferentes poluentes. Em várias áreas a gente tem contaminação por metal pesado, por hidrocarboneto, orgânica, esgoto não tratado e lançado diretamente no mar... Por esse histórico e por uma questão de precaução, é importante que se faça uma avaliaçãom contemplando não apenas o que se encontrou nas manchas azuis e amarelas, mas todos os outros elementos que podem estar presentes devido ao histórico de contaminação", enfatizou o professor.

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O que diz o Inema?

Em nota enviada ao portal A TARDE, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) disse que concluiu em abril mais uma etapa da investigação sobre a ocorrência de líquidos de coloração azulada e amarelada na área em que habitam os siris que foram examinados.

Além da avaliação preliminar realizada em março, o órgão executou novas inspeções e amostragens, com coletas de água superficial marinha, água intersticial e areia em oito pontos distribuídos em São Tomé de Paripe até a praia do Inema, e biota (siris e moluscos bivalves) em um quadrante estabelecido na área.

"Os resultados laboratoriais identificaram concentrações elevadas de compostos nitrogenados e metais, principalmente cobre, em pontos próximos ao foco da contaminação, além de alterações em sedimentos e organismos marinhos coletados na região. A ampliação da faixa de investigação permitiu confirmar a presença de contaminação no sedimento, na biota e na água intersticial da praia", disse o texto.

Na água coletada abaixo da superfície da areia, foram identificadas concentrações elevadas de nitrato, nitrito e nitrogênio amoniacal nos pontos associados aos líquidos amarelado e azulado. O ponto referente ao líquido amarelado apresentou destaque para nitrogênio amoniacal, assim como o ponto associado ao líquido azulado, que registrou concentrações de nitrogênio amoniacal, além de cobre total e cobre dissolvido extremamente elevadas.

Trecho está interditado

Em relação à água do mar, os resultados indicaram violações pontuais dos limites previstos na Resolução Conama nº 357/2005 para parâmetros da série nitrogenada em pontos situados no entorno da empresa investigada.

"Desde o início da ocorrência, o Inema adotou medidas emergenciais, incluindo a interdição temporária das atividades do Terminal Itapuã, a recomendação de restrição de acesso ao trecho diretamente afetado, conforme avaliação preliminar e a emissão de exigências técnicas para adoção de medidas corretivas na operação do terminal e investigação e remediação ambiental pelas empresas responsáveis", continuou o Inema.

Empresas notificadas

As empresas envolvidas foram notificadas para apresentar ações emergenciais de remediação ambiental. Com base nos estudos já exigidos pelo órgão, o Inema avaliará e determinará a adoção das medidas definitivas necessárias para mitigação dos impactos identificados.

Diante dos resultados obtidos até o momento, o órgão avalia a adoção de novas medidas administrativas e de restrição na área afetada.

Em razão da presença de resíduos e substâncias com potencial risco à saúde e ao meio ambiente, a área permanece classificada como imprópria para banho e recreação de contato primário.

"O Inema reforça a recomendação para que a população evite o trecho onde há ocorrência do material, incluindo atividades de banho, pesca e de contato direto com a água e sedimentos da região", destacou.

A reportagem também tentou contato com o Ministério Público da Bahia, mas até o momento da publicação da matéria, não obteve retorno.

Inquérito apura a contaminação

O Ministério Público Federal (MPF) abriu um inquérito civil para apurar a contaminação ambiental na praia de São Tomé de Paripe, através de uma portaria publicada nesta segunda-feira, 18. O órgão tem como objetivo investigar a presença de níveis atípicos de Cobre e compostos nitrogenados na água, na areia, nos sedimentos e na biota da região costeira.

Além disso, o inquérito também visa averiguar relatos recentes de mortes de animais marinhos e avaliar possíveis descumprimentos da licença ambiental.

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