ENCOLHIMENTO POPULACIONAL
Menos nascimentos, mais partidas: Salvador vive declínio populacional
IBGE aponta queda nos nascimentos e migração que reduzem população na capital baiana
Por Andrêzza Moura

Salvador está entre as cinco capitais brasileiras que registraram queda no número de habitantes, em 2025, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nessa quinta-feira, 28.
A baixa natalidade e a migração interna - deslocamento dentro das fronteiras de um mesmo país, áreas rurais, urbanas, cidades ou regiões -, estão entre os fatores que têm impulsionado a queda.
Mariana Viveiros, supervisora de Disseminação de Informações do IBGE na Bahia, afirmou que essa tendência já vem se repetindo desde o censo demográfico de 2010.
"Entre 2010 e 2022, Salvador perdeu quase 10% da sua população, e isso se sustenta nas estimativas, porque as estimativas se baseiam, em grande parte, nessa tendência demográfica apresentada entre um censo e outro."

Na estimativa divulgada nessa quinta-feira, a capital baiana registrou -0,18% de redução no número de habitantes, se comparado a 2024.
"Não é um movimento só de Salvador, são cinco capitais que perdem população. No estado da Bahia, são 184 municípios que perdem população. Essa questão da perda de população por parte de cidades grandes, de capitais, é algo que já se verifica em outros lugares do mundo, em países desenvolvidos. É um fenômeno que não é exclusivo do Brasil e nem da Bahia", explica Viveiros.
Além de Salvador, Belo Horizonte (MG), Belém (PA), Porto Alegre (RS) e Natal (RN) foram as outras capitais que contabilizaram perda na população em relação ao ano passado. As reduções foram -0,02%, -0,09%, -0,04% e -0,14%, respectivamente.
Baixa natalidade
A contadora Eliana Pereira, 44 anos, e o marido, o empresário Lincoln Rocha Silva, 42, fazem parte da estatística e se juntam a outros casais que optaram por não ter filhos. A escolha deles que tem contribuído para a redução da população de Salvador, refletindo uma tendência crescente que vem transformando o perfil demográfico da cidade.

Casados há 21 anos, para eles, a prioridade de vida são outras. "Desde muito nova eu não quis, e encontrei uma pessoa que também não queria. Então, a gente decidiu não ter filhos. A nossa meta é viajar, sair, curtir", afirma Eliana.
Outra que também tem contribuído e puxado os números populacionais de Salvador para baixo é a pedagoga e pós-graduanda em neuropsicopedagogia Luana Oliveira, 30. Ela explica que suas razões para não querer filhos são diversas, incluindo questões pessoais, econômicas e sociais.

"Minhas razões para não querer filhos são diversas: financeiras, de tempo e, principalmente, de responsabilidade. Sempre estudei e trabalhei, gosto dessa rotina e priorizo minhas escolhas. Estar em sala de aula me dá clareza sobre a complexidade que é educar e preparar alguém para a vida. Vejo diariamente os desafios que os pais enfrentam, as dificuldades na educação e as demandas ainda maiores quando se trata de crianças atípicas. Tudo isso exige tempo, energia e entrega, e eu sei que não quero assumir essa missão", compartilhou ela.
"Salvador, há três anos, segundo as outras estatísticas do IBGE, de registro civil, apresenta o menor número de nascimentos, o recorde de menor número de nascimentos em toda a série da pesquisa do IBGE, que já tem quase 50 anos. Então, cada ano nascem menos crianças aqui em Salvador, então, a gente tem uma baixa natalidade, uma natalidade em queda", esclareceu Mariana Viveiros.
Migração interna
Outro fator que tem influenciado no encolhimento da população soteropolitana é a migração interna. A supervisora de Disseminação de Informações do IBGE, Mariana Viveiros, ressalta que a Bahia ainda registra um grande fluxo de migração de saída, não só para outros estados brasileiros, mas, sobretudo, para cidades da Região Metropolitana.

"Por outro lado também, fortes indicações de perda de população por migração de saída, pessoas que saem de Salvador. E o que a gente percebe aqui na Região Metropolitana, na concentração urbana de Salvador? Cidades muito próximas à capital que crescem muito em termos populacionais, principalmente, Lauro de Freitas e Camaçari, que têm uma importante porcentagem de pessoas que migraram para essas cidades nos últimos cinco anos", pontuou ela.

O modelo João Gabriel Alves, 24 anos, está morando em São Paulo há 20 dias. Ex-morador do bairro do Imbuí, o jovem foi embora de Salvador apenas com a passagem de ida e um sonho no coração: construir uma carreira no mundo da moda e conquistar novas oportunidades longe da terra natal.

Ele se junta ao número cada vez maior de soteropolitanos que deixam a cidade e contribuem diretamente para a queda populacional registrada nas estatísticas. "A gente sabe que a Bahia é um estado que tem uma migração de saída ainda muito significativa, teve ao longo da história e continua tendo, embora num ritmo menor", finalizou Mariana Viveiros.
Impactos no futuro da cidade
Essa mudança no perfil populacional de Salvador deve provocar reflexões importantes sobre o futuro da cidade. A queda de habitantes pode influenciar diretamente na arrecadação de impostos, o investimento em infraestrutura, a oferta de serviços públicos e o mercado de trabalho.
Além disso, com menos jovens nascendo e mais pessoas saindo da capital, o envelhecimento da população tende a se acentuar, o que aumenta a pressão sobre os sistemas de saúde e previdência, além de desafiar a capacidade da cidade de se reinventar economicamente.
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População brasileira
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do Brasil em 2025 foi estimada em 213.421.037 de habitantes. O número representa um crescimento de 0,39% em comparação com o ano de 2024.
A estimativa leva em conta a população residente até o dia 1º de julho de 2025, abrangendo estados e municípios de todo o país. Diferente do censo, que realiza a contagem direta de pessoas e domicílios, as estimativas populacionais se baseiam em indicadores demográficos, como taxas de natalidade, mortalidade e migração.
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