SALVADOR
Venda de imóveis abandonados muda visual de Salvador
Transformação deve alterar fluxos, comércio, serviços, trânsito e até a valorização do entorno


Por décadas, milhares de estudantes subiram e desceram a avenida Cardeal da Silva para chegar às salas de aula da Universidade Católica do Salvador (UCSal). Na Pituba, caminhões, funcionários e usuários movimentavam a sede dos Correios na avenida Paulo VI. No Stiep, congressistas, turistas e trabalhadores ocupavam os corredores do antigo Centro de Convenções da Bahia.
Os endereços continuam no mesmo lugar, mas, depois de anos sem operação, a dinâmica desses espaços desapareceu. Agora, os três grandes imóveis, recentemente vendidos, caminham para uma nova função, predominantemente residencial. A transformação deve alterar fluxos, comércio, serviços, trânsito e até a valorização do entorno, criando uma nova fronteira para o crescimento de Salvador dentro de bairros já consolidados.
A mudança já começa a ganhar forma na Federação. No alto da Cardeal da Silva, parte do terreno onde funcionou por décadas o campus da UCSal deverá receber um condomínio residencial. Desde 2023, o imóvel não recebe mais alunos e professores. Depois de rumores de que o espaço poderia abrigar uma grande academia ou um supermercado, a Moura Dubeux adquiriu aproximadamente dez mil metros quadrados da área, menos de um terço de todo o antigo complexo universitário.

Na Pituba, os cerca de 35 mil metros quadrados da antiga sede dos Correios foram adquiridos pela mesma incorporadora, após mais de 20 tentativas de leilão. O projeto ainda está em estudo, mas a direção já está definida: será predominantemente residencial. O mercado acredita que a área tem potencial para uma espécie de Pituba Ville.
No Stiep, o terreno do antigo Centro de Convenções da Bahia, fechado desde 2016, também passou às mãos da iniciativa privada. A área de 116 mil metros quadrados foi arrematada em julho por R$ 138,4 milhões pelo grupo André Guimarães, em parceria com a Pilar Empreendimentos Imobiliários. A expectativa do mercado é de que o local também receba um projeto residencial.

Por trás da coincidência de três grandes áreas saindo do abandono e ganhando novos projetos está a escassez de terrenos de grandes dimensões nas regiões consolidadas da capital. Essa é a avaliação de José Alberto Vasconcellos, segundo vice-presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da Bahia (Creci-BA).
“Hoje, você não tem mais terrenos livres em Salvador, tem muito poucos. Para lançar um empreendimento, as empresas estão comprando casas, e normalmente precisam comprar mais de uma para conseguir uma área que viabilize o projeto”, explica.
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Segundo Vasconcellos, a escala torna áreas como as da UCSal, dos Correios e do antigo Centro de Convenções especialmente atrativas. Em vez de reunir diferentes lotes, proprietários e negociações, as incorporadoras encontram grandes extensões já inseridas em regiões abastecidas por vias, transporte, comércio e serviços. “Onde é que você tem outro Centro de Convenções, outro Correios, outra Católica? Não tem. Nesse tamanho, numa localização dessa, não existe. E isso vai atender à carência de imóveis residenciais em Salvador, que está muito grande”, afirma.
A localização também ajuda a explicar o movimento. Enquanto novos vetores de crescimento, mais distantes do centro, atraem parte dos compradores, bairros consolidados continuam concentrando a demanda de quem quer permanecer próximo de serviços e de uma rede de relações já estabelecida. Em terrenos grandes e valorizados, a tendência é de projetos de alto padrão.
É o que Vasconcellos projeta para a área dos Correios, na Pituba. “Esse terreno é um terreno nobre. Você não encontraria um terreno desse tamanho em uma localização como essa em Salvador”, afirma.


