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Iniciativa busca formar novos sanfoneiros na Bahia

SÃO JOÃO

Aulas grátis de sanfona: conheça a escola pública que ensina forró em Salvador

Escola pública no Centro Histórico corre contra o tempo para renovar a tradição do forró

Iniciativa busca formar novos sanfoneiros na Bahia - Foto Raphael Muller | Ag. A TARDE

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Agatha Victoria Reis
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Símbolo maior da cultura de São João, a sanfona é um dos pilares da identidade nordestina. Ao lado da zabumba e do triângulo, o instrumento forma a base do forró, que está a caminho de se tornar Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

No entanto, para que essa tradição resista ao tempo e vá além dos meses de festa junina, a preservação depende diretamente do ensino e do aprendizado contínuo, afinal, é preciso formar novos tocadores para garantir que o ritmo não seja esquecido e que as futuras gerações assumam o protagonismo dessa herança.

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É nesse cenário de salvaguarda que o Centro Histórico de Salvador abriga um polo de resistência. Uma escola pública para forrozeiros tem atuado para democratizar e ampliar o acesso ao aprendizado desses instrumentos.

A iniciativa é da Associação Cultural Asa Branca dos Forrozeirosda Bahia. Em entrevista ao portal A TARDE, a presidente da instituição, Marizete Nascimento, afirma que o espaço "trabalha por políticas públicas para manter a tradição, a raiz e a cultura”.

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Marizete e Cláudio estão à frente de Escola de Forrozeiros
Marizete e Cláudio estão à frente de Escola de Forrozeiros | Foto: Raphael Muller | Ag. A TARDE

Inaugurada no ano pássado, a escola, localizada no Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador, oferece aulas de quatro instrumentos tradicionais: sanfona, pandeiro, zabumba e triângulo. Segundo a presidente, o objetivo é “lutar por mais políticas públicas para essa arte centenária que estava ficando no esquecimento”.

O coordenador da escola pública para forrozeiros, Cláudio Araújo, explicou como funciona a seleção para participar do projeto. As inscrições de 2026 já ocorreram, e cerca de 90 pessoas aguardam o resultado para a próxima fase.

“As audições serão organizadas por dias, com uma média de 10 alunos por dia. Atualmente, temos cerca de 90 pessoas inscritas, que se cadastraram por meio de um formulário online, informando seu nível de experiência”, salientou.

As aulas da escola pública para forrozeiros são divididas nos seguintes níveis:

  • Nível 1: para quem não toca e terá o primeiro contato com instrumentos como sanfona, zabumba, triângulo e pandeiro.
  • Nível 2: para pessoas que já tocam, mas que ainda não são alunos da escola.
  • Nível 3: para egressos, alunos que já passaram pelo processo inicial, se desenvolveram e estão em um nível mais avançado.
Essa separação é importante para a evolução dos alunos, porque o nosso objetivo é formar pessoas para o mercado e prepará-las profissionalmente
Cláudio Araújo - coordenador da escola pública para forrozeiros

Até o momento, as aulas ainda não foram iniciadas. Segundo Marizete, o início das atividades depende da liberação de recursos públicos que ainda estão em tramitação.

“Conseguimos uma emenda parlamentar, mas sabemos que o dinheiro público segue um processo burocrático mais lento, justamente para evitar desperdícios e desvios”, explicou.

O peso do fole

Sanfona é um dos pilares da identidade nordestina
Sanfona é um dos pilares da identidade nordestina | Foto: Luciano Carcará / Ag. A Tarde

Mesmo com a existência de turmas para instrumentos de forró na rede pública, esse modelo ainda é um caso à parte. O sanfoneiro e professor Henrique Badermann, de 36 anos, explica que o ensino da sanfona, principalmente, depende predominantemente da iniciativa privada.

"Escolas de música e professores particulares atendem à demanda atual, que é relativamente limitada", pontua.

Mas por que isso acontece?

Segundo o professor, a baixa demanda para o instrumento, que é símbolo do São João e do forró, está relacionada a dois fatores: o acesso e a procura naturalmente menor.

“A sanfona representa uma parcela muito pequena da procura. Em minha escola, por exemplo, entre mais de 20 cursos oferecidos, menos de 2% da demanda é para o instrumento”, explicou ele, que é proprietário da Badermann Academia de Música, localizada em Lauro de Freitas.

Para o profissional, que atua tanto no ensino quanto na prática do instrumento, a falta de renovação de alunos pode levar à perda ou até ao enfraquecimento desse conhecimento ao longo do tempo. Por isso, “ampliar o ensino da sanfona é fundamental para a preservação cultural”.

Isso contribui para que a sanfona seja vista não apenas como um elemento tradicional, mas também como um instrumento versátil e atual. Além disso, quanto mais pessoas aprendem e têm contato com a sanfona, maior é a sua presença em apresentações, gravações e eventos culturais, o que fortalece toda a cadeia do forró
Henrique Badermann - sanfoneiro e proprietário da Badermann Academia de Música

Para quem deseja aprender, o custo e o acesso são as principais barreiras. “A sanfona é um instrumento caro e ingrato, como diria Dominguinhos”, brinca o aluno Fernando Bofill Cruz, de 43 anos.Inspirado pelo som das bandas de forró e pelo piano que a mãe tocava em casa, Fernando conta que a jornada para aprender a sanfona exigiu persistência.

“Só consegui um professor particular por indicação de um outro amigo músico, o mesmo que emprestou a sanfona no começo. Depois mudou um pouco, mas ainda é muito complicado e com pouca oferta, quase nula”, afirmou.

O estudante, que já tem contato com o mercado musical de Salvador e da Região Metropolitana, afirma que “ainda há uma baixa valorização do músico no geral, principalmente para bandas independentes”.

No entanto, essa realidade muda em períodos de alta demanda, como o São João e “esse fato não chega a ser um problema, o que diminui a concorrência e facilita a entrada em alguns projetos”, relatou.

Como preservar a sanfona?

A preservação da sanfona vai além da criação de novos polos ou de aulas formais. Diversas iniciativas podem contribuir para ampliar o acesso e garantir a continuidade do instrumento e do forró.

De acordo com o professor Henrique Badermann, algumas ações são fundamentais:

  • Melhorar o acesso ao instrumento é um ponto central;
  • Incentivos fiscais para a fabricação e comercialização de instrumentos, além de projetos culturais e programas públicos de ensino, podem ampliar esse acesso;
  • Festivais, apresentações ao vivo, oficinas culturais e a presença do instrumento nas escolas ajudam a aproximar o público da sanfona.

Projeto para os sanfoneiros em 2026

Imagem ilustrativa da imagem Aulas grátis de sanfona: conheça a escola pública que ensina forró em Salvador
| Foto: Raphael Muller | Ag. A TARDE

E para que novos talentos surjam, é preciso também proteger quem pavimentou esse caminho. De olho no futuro e na história, Marizete Nascimento revela que a Associação Asa Branca busca agora incluir os veteranos baianos na chamada “Lei dos Mestres”, programa nacional de promoção e proteção dos mestres da Cultura Popular, que ainda carece de implementação ativa na Bahia.

“Muitos mestres estão envelhecendo e outros falecendo, muitas vezes sem reconhecimento ou renda suficiente”, disse.

A ideia é que, com cada mestre sendo reconhecido pelo pertencimento e pelo trabalho de passar [o conhecimento] de pai para filho, consigamos uma premiação mensal de dois a três salários mínimos em alguns lugares, para que ele sobreviva com dignidade na velhice
Marizete Nascimento - presidente da Associação Cultural Asa Branca dos Forrozeiros da Bahia

Em 2026, um dossiê de candidatura do forró tradicional ao título de Patrimônio Imaterial da Humanidade foi entregue à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

A presidente afirma que o reconhecimento pela organização “precisa vir” e que a luta de longa data entra agora em uma nova fase. “O movimento já chegou à Unesco, e o trabalho segue no sentido de garantir esse reconhecimento”, diz.

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