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PATRIMÔNIO INTERNACIONAL

Passo a passo: o caminho do forró para ser reconhecido pela Unesco

O gênero musical ganhará o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade

Franciely Gomes
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Os forrozeiros fazem parte da cultura nordestina
Os forrozeiros fazem parte da cultura nordestina - Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

A sanfona, o triângulo e o arrasta-pé estão prestes a ser reconhecidos mundialmente. Faltando menos de dois meses para o início dos festejos de São João, o Forró Tradicional se prepara para ganhar o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade.

Representantes do gênero musical enviaram um dossiê de candidatura da manifestação cultural ao título à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), no dia 31 de março de 2026.

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O documento foi organizado por um comitê do Fórum Nacional do Forró de Raiz, que conta com a participação dos nove estados do Nordeste e representantes de outros locais, como Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Distrito Federal e Acre.

A entrega foi formalizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pelo Ministério da Cultura (MinC) e pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE).

O que é o Forró Tradicional?

As quadrilhas também fazem parte da cultura nordestina
As quadrilhas também fazem parte da cultura nordestina | Foto: Mário Sérgio | Divulgação

Conhecido também como Forró de Raiz, o Forró Tradicional é o nome dado a representação de um grupo de ritmos que englobam o forró. Dentre eles, o baião, xaxado, xote e arrasta-pé.

Instrumentos musicais, como sanfona, zabumba e triângulo também entram na nomenclatura, além do cordel, bandas pífano e mestres rabequeiros, unindo todas as práticas derivadas do gênero musical.

“Existem um monte de coisas hoje que não tem nada a ver com o forró tradicional, mas que as pessoas chamam de forró, como o piseiro e o forró eletrônico. Mas a gente tem muito bem desenhado e estruturado o que é o forró de raiz”, disse o cantor Del Feliz, que faz parte do comitê do Fórum Nacional do Forró de Raiz.

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“O arrasta-pé, baião, xaxado, coco, xote e rojão são um aglomerado de ritmos que formam aquilo que a gente entende por forró. E tem também na sua essência uma identificação dessa música com a sanfona, zabumba e triângulo”, reforçou ele ao portal A TARDE.

O artista ainda ressaltou que a cultura deve se renovar, mas a tradição precisa ser mantida. “O novo sempre vem, a cultura não é estática não, ela está sempre se reinventando e se moldando. Porém é muito importante que a gente preserve aquilo que nos identifica, que é identidade, e o forró é identidade. O forró é um pedaço da alma do povo nordestino, né? Eu acho que o forró exibe muito do que a gente é”, afirmou.

Critérios que tornam o forró um bem cultural mundial

O forró é uma manifestação cultural rica
O forró é uma manifestação cultural rica | Foto: Edson Andrade | Divulgação

Apesar de ser um ritmo musical de importância e identidade cultural do Nordeste, o forró precisa seguir alguns critérios para ser nomeado como um bem cultural mundial pela UNESCO.

Dentre as principais regras estão: identidade e pertencimento; transmissão intergeracional; integração social e diversidade; registro nacional prévio (salvaguarda); e representação internacional.

O penúltimo requisito se refere ao reconhecimento do forró como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2021. A nomeação garantiu a identificação, documentação e proteção das matrizes tradicionais do gênero.

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“A Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade tem por finalidade dar visibilidade à diversidade cultural, fomentar o respeito e o diálogo intercultural e demonstrar como essa diversidade é um recurso fundamental para o futuro da humanidade”, informou o Iphan à reportagem do portal A TARDE.

O órgão ainda explicou que o título concedido pela UNESCO garante que o forró ganhe ainda mais notoriedade. “Esse reenquadramento internacional fortalece a proteção e a promoção desse patrimônio imaterial, que é também parte do modo de vida de comunidades”.

Entretanto, o reconhecimento nacional e a formalização da candidatura ao título, juntamente com a entrega do dossiê, não garantem que o forró ganhe o título. O documento passará por uma análise da UNESCO, onde especialistas avaliarão os detalhes, verificando se o gênero preenche os critérios para o reconhecimento internacional.

Em seguida, acontecerá a votação final, onde o Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Imaterial decidirá sobre a inclusão do ritmo brasileiro na lista de Patrimônios Imateriais da Humanidade.

Intercâmbio cultural

O forró une as pessoas
O forró une as pessoas | Foto: Divulgação

O novo título projeta o Forró de Raiz para um intercâmbio cultural com outros países do mundo, principalmente os que já bebem da cultura nordestina de alguma maneira, seja em apresentações de artistas, ou até mesmo consumindo algumas canções em plataformas de streaming.

Diretor de Promoção das Culturas Tradicionais e Populares da Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural (SCDC), órgão do Ministério da Cultura, Tião Soares afirmou que o MinC tem criado meios de garantir que o forró seja bem recebido por outros países.

“Podemos afirmar que o MinC, por meio da Diretoria de Promoção das Culturas Tradicionais e Populares, vem tratando desse tema como prioridade no âmbito da internacionalização das culturas tradicionais e populares, entre estes segmentos, nomeadamente o segmento do forró”, disse ele ao portal A TARDE.

O cantor Del Feliz também garantiu que o título vai espalhar a verdadeira história do Nordeste e do forró para o público internacional. “Me deparando com pessoas de outros países diversos onde estive, percebi que eles querem muito conhecer a história de Luiz Gonzaga”, explicou.

“Querem conhecer o Nordeste, as praias do Nordeste e junto com isso o forró, porque se interessam pelo forró e pela cultura nordestina ligada a essa música e essa dança”.

Reconhecimento de quem faz o forró acontecer

É importante ressaltar que o forró não é feito apenas de cantores renomados e festas grandiosas. O gênero nasce através de comunidades rurais e mestres do saber forrozeiro, que vivem no interior muitas vezes não recebem o auxílio e reconhecimento necessários.

Na Bahia, terra que produz uma das maiores festas de São João do país, estão sendo realizados alguns mecanismos de fomento, reconhecimento e apoio à diversidade de fazeres artísticos e estas comunidades, que muitas vezes ficam invisíveis aos olhos sociais.

“O forró passa a ter uma atenção especial, seja no apoio que o governo do estado dá de forma crescente aos festejos juninos em toda a Bahia e também no diálogo com a UPB, com o Ministério Público e o conjunto de instituições para a valorização do forró nos festejos juninos”, listou Bruno Monteiro, Secretário de Cultura da Bahia.

“Nós sabemos que o reconhecimento e o apoio financeiro são elementos fundamentais para salvaguardarmos esse patrimônio da Bahia, da nossa cultura e que merece o nosso reconhecimento e a valorização constante”.

“E, para isso, nós fazemos sempre o diálogo de forma mais ampla possível, seja com os prefeitos e prefeitas, com os secretários municipais, mas também com as outras instituições do Estado, com o governo federal e com os demais estados, fortalecendo uma luta que preserva as características do forró que é difundido em cada estado, mas também entendendo essa manifestação como algo muito maior que merece esse valor e esse peso”, concluiu.

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