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Dia do Orgulho Autista celebra potencial de pessoas com autismo

Ao Portal A TARDE, os entrevistados compartilharam desafios e vivências em busca da autoafirmação e inclusão

Publicado domingo, 18 de junho de 2023 às 06:00 h | Atualizado em 18/06/2023, 07:49 | Autor: Rafaela Souza
Sabrina Nascimento, Maíra Cavalcante, Igor Nogueira e Michele de Abreu
Sabrina Nascimento, Maíra Cavalcante, Igor Nogueira e Michele de Abreu -

Celebrado neste domingo, 18, o Dia do Orgulho Autista é um momento de valorização da neurodiversidade e reconhecimento do potencial de pessoas com autismo. Idealizada pela organização americana Aspies for Freedom, a data passou a ser comemorada no Brasil em 2005 pela comunidade. O intuito é combater concepções negativas sobre o autismo, promovendo ações de conscientização no sentido de que ele não é uma doença, mas uma variação neurológica natural da diversidade humana.

Para a professora Sabrina Nascimento, de 41 anos, que recebeu o diagnóstico aos 38, a data é um marco fundamental para valorizar o protagonismo e conquistas das pessoas com autismo, além de ser uma ferramenta no combate ao capacitismo.

"O dia do orgulho autista é um dia criado pelos próprios autistas para celebrar quem se é, para dizer: ‘Olha, você não precisa ter vergonha de ser você’. Da mesma forma que estamos empoderando pessoas negras, pessoas LGBT, estamos empoderando as pessoas neuro divergentes, autistas. Principalmente, aquelas que têm características, assim digamos, mais evidentes. Não é esquisito. É importante e está tudo bem ser dessa forma. Não há nenhum problema", afirma.

Protagonismo

Sabrina reforça que o objetivo do dia é priorizar o lugar de fala e espaço para pessoas com autismo para compartilhar as suas vivências e experiências. A professora, que descobriu o autismo na fase adulta após o diagnóstico das filhas, acredita que toda conquista é um motivo a ser celebrado considerando a individualidade de cada indivíduo, além da importância da atuação dos profissionais nesse sentido. 

"Não é uma data para terapeutas estarem falando sobre a importância de terapias x ou y e nem é uma data para os pais falarem o quanto se orgulham de seus filhos. É uma data para os autistas falarem sobre si mesmos", ressalta.

"O papel dos profissionais é valorizar e reconhecer o potencial, principalmente das crianças e adolescentes. Infelizmente, muitos só reconhecem conquistas de autistas que foram estudar em Harvard, descobriu algo muito mirabolante, mas aprender a amarrar o cadarço é uma conquista, conseguir o primeiro emprego, falar a  primeira palavra. É uma data para ouvir as pessoas autistas e valorizar o que elas têm a dizer. Porque às vezes pode levar muitos anos para que uma pessoa autista possa falar a sua primeira palavra e essas narrativas precisam ser valorizadas", acrescenta.

Sabrina Nascimento, de 41, é professora
Sabrina Nascimento, de 41, é professora |  Foto: Arquivo Pessoal
  

Em busca de conteúdos mais próximos da sua realidade que promovessem identificação e representatividade, a professora resolveu produzir conteúdos no Instagram abordando questões da maternidade atípica e a relação com o recorte racial.

"Eu comecei falando mais sobre maternidade atípica, mas depois eu vi que tinha um limbo na realidade dos autistas. O que mais tinha na internet era a vivência de crianças, geralmente brancas e tinham acesso às melhores terapias, profissionais. E como a internet nos possibilita muitos encontros, eu fui encontrando outras pessoas com a realidade parecida com a minha. A partir disso, eu passei a trazer os conteúdos sobre negritude e neurodiversidade", revela.

Acolhimento

Assim como Sabrina, a turismóloga e presidente da Associação Mães Autismo, Maíra Cavalcante, de 49 anos, viu nas redes sociais uma oportunidade para compartilhar suas vivências enquanto mãe atípica. Ela também destaca que a produção de conteúdos foi uma consequência do acesso ao conhecimento através do ativismo em prol de uma sociedade anticapacitista Em 2017, Maíra idealizou a associação a fim de auxiliar outras mães atípicas a partir de um olhar mais humanizado com iniciativas de acolhimento e luta na garantia de direitos. O projeto atende cerca de 600 mães na Bahia.

"Mães Autismo surgiu em 2017 e por minha maternidade ter sido cercada por muitos preconceitos devido às dificuldades que eu tinha. Eu ainda era vista como vitimista, desequilibrada, dramática e eu também via muito aquele olhar para a criança e não para a mãe. Só via o julgamento, as agressões, o dedo apontado. Então, comecei a me questionar sobre o olhar para as mães. Eu via muito o olhar para os filhos, mas não para as mulheres”, pontua.

Em meio aos desafios da maternidade atípica, Maíra relembra que só soube que era autista aos 46 anos, quando teve o diagnóstico fechado por um especialista. Ela conta que o momento foi de libertação para aceitar e entender a sua trajetória, além de se orgulhar do que havia se tornado.

“Eu nunca tive inclusão na escola, na faculdade, por exemplo. Nunca tive direito a um material adaptado e hoje nossas crianças têm. As minhas dificuldades eram vistas como frescura. E o diagnóstico é uma libertação porque ele explica todas nossas dificuldades e gera a autoaceitação. O conhecimento é libertador e ajuda na autoestima. Vivi a vida toda me sentindo rotulada pelas pessoas até eu adquirir esse conhecimento através dos ativismo e companheiros de luta. E hoje poder empoderar mães e crianças autistas para que desde pequenos eles possam saber do potencial deles. Isso não tem preço”, afirma.

Maíra Cavalcante, de 49, é turismóloga e presidente da Associação Mães Autismo
Maíra Cavalcante, de 49, é turismóloga e presidente da Associação Mães Autismo |  Foto: Denisse Salazar | Ag. A TARDE
  

Amor pelo esporte

A transformação gerada pelo esporte é motivo de orgulho para o atleta de jiu-jitsu e parajiu-jitsu, Igor Nogueira, de 28 anos, que se tornou bicampeão mundial (2018-2022) em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. Ele conta que o jiu-jitsu mudou a sua vida e ajudou a vencer o capacitismo, além de representar a comunidade autista mostrando a importância da inclusão.

"O esporte transformou minha vida e proporcionou reescrever minha história. Começar no jiu-jitsu me ajudou a interagir mais com as pessoas. É muito importante para a pessoa com deficiência fazer o esporte porque ajuda a evoluir, a aprender várias coisas", revela. 

O encontro com a arte marcial aconteceu em 2013, quando ele tinha 18 anos. Já em 2016, a profissionalização desportiva dividiu o ano com outro momento marcante da história do esporte baiano, como o primeiro autista a participar de competições e ganhar medalha. “A primeira competição foi um teste para pegar experiência e eu gostei muito. Foi o começo para ficar fera”, diz.

Atualmente, Igor concilia a rotina de campeonatos, treinos do jiu-jitsu com a musculação, aulas de taekwondo e o curso de educação física. "Faço os treinos de jiu-jitsu de segunda a sexta-feira à noite, sigo a rotina de exercícios na academia e alimentação. Estou indo bem na faculdade e ganhei o terceiro lugar na categoria convencional em São Paulo", diz.

Igor Nogueira, de 28, é bicampeão mundial de jiu-jitsu
Igor Nogueira, de 28, é bicampeão mundial de jiu-jitsu |  Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE
  

A relação com o esporte ainda o aproximou da professora e paratleta de jiu-jitsu, Michele de Abreu, de 39 anos. Ela conta que o conheceu há um ano durante uma caminhada de conscientização sobre o autismo e, posteriormente, se encontraram em um campeonato de jiu-jitsu. A sintonia também surgiu em meio ao processo de descoberta do autismo.

“Eu fui diagnosticada tardiamente com 36 anos, eu considero o dia do meu diagnóstico como o dia que eu tava nascendo novamente. Porque quando eu recebi o diagnóstico foi como se tudo na minha vida fizesse sentido e, aí durante toda essa descoberta, surgiu o Igor e a gente se apaixonou. Eu amo o jiu-jitsu e, quando soube dele sendo campeão em Abu Dhabi, eu fiquei muito admirada assim como todo mundo. Eu comecei a ver as redes sociais e achei ele lindo. Mas na caminhada ele nem ligou para mim, minha irmã me apresentou ele. Quando eu conheci ele pessoalmente eu me apaixonei na primeira vez que o vi. Eu o amo intensamente e ele também. Eu compreendo as questões dele e ele também me entende”, declara.

Michele e Igor estão juntos há um ano
Michele e Igor estão juntos há um ano |  Foto: Arquivo Pessoal
  

Além do amor pelo jiu-jitsu, Michele se dedica ao ensino fundamentado em uma educação inclusiva. Para ela, o ambiente escolar precisa proporcionar uma abordagem acolhedora que contemple os potenciais e as individualidades de cada criança.

“Eu me orgulho por ser uma pessoa que ultrapassou os limites para me tornar o que sou hoje, ser professora com especialização em educação inclusiva e poder ajudar as pessoas como eu a mostrar um caminho diferente, mais inclusivo e possível. Eu trabalho com crianças autistas e faço questão de levar a importância da inclusão para todo lugar que eu for”, aponta. 

Michele de Abreu, de 39, é paratleta de jiu-jitsu e professora
Michele de Abreu, de 39, é paratleta de jiu-jitsu e professora |  Foto: Arquivo Pessoal
  

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