CINEINSITE
"La La Land" reaviva com romantismo era de ouro dos musicais


Um homem e uma mulher teimam em se esbarrar em uma Los Angeles caótica e ensolarada. De início há birra e desentendimento. Mas é certo que o caminho cruzado dos dois vai dar em atração.
Ela é Mia (Emma Stone), atendente de um café que sonha em ser atriz, fazendo diversos testes de elenco, sem muito sucesso. Ele é Sebastian (Ryan Gosling), um pianista que sonha em abrir a sua própria casa de jazz, mas tem de se contentar em tocar singles natalinos em restaurantes chiques.
Em La La Land - Cantando Estações o amor está no ar, mas esses personagens possuem também sonhos concretos de vida: eles querem viver de seu talento naquela Los Angeles que respira arte e oportunidade, mas também muito estrelismo e vive de aparências.
Damien Chazelle (diretor do ótimo e surpreendente Whiplash - Em Busca da Perfeição) comanda aqui um filme de amor à moda antiga, em forma de musical cuidadosamente moldado para soar nostálgico e encantador.
Tradição musical
La La Land não esconde sua paixão pela era de ouro dos musicais, apostando em uma série de referências a clássicos do cinema, de Vincente Minnelli, com seu Sinfonia de Paris (1951), a Jacques Demy e seu Duas Garotas Românticas (1967), além de tantos outros.
Há nuances até mesmo de Fred Astaire e Ginger Rogers ali. Stone e Gosling estão longe de dançarem com a mesma maestria dos dois, mas o filme referencia os clássicos do gênero sem pesar a mão e sem nunca querer ultrapassá-los. É como se usassem um baú de rememorações para embalar uma trama de paixão e encantamento.
Aliás, o filme se sai muito melhor quando assume a singeleza e a simplicidade. Até mesmo os números musicais são mais contidos. A maioria deles não precisa exibir grandeza de cenários ou coreografias desafiadoras - com exceção do número que abre o filme, um balé efusivo de pessoas dançando e cantando em meio a um engarrafamento.
Por vezes basta o casal começar a dançar meio que descompromissadamente na rua ou a bela cena dos dois em visita inusitada ao planetário à noite. E quando Ryan Gosling canta a bela City of Stars, canção tema que ouvimos em vários momentos do filme, sua melancólica melodia promete deixar o espectador cantarolando ao fim da sessão.
São esses pequenos gestos de graciosidade que tornam La La Land um filme de grandes momentos, mesmo quando os desdobramentos do roteiro não se mostram tão originais. A trama romântica pode ser até muito banal, a despeito do corajoso final do filme em se tratando de um musical romântico.
Chazelle parece apaixonado pelo universo dos musicais, mas não deixa que isso se sobreponha a sua própria narrativa. Ao mesmo tempo também não faz nada para torná-la inovadora ou diferente do que já temos visto por aí, preferindo não correr riscos.
Fábrica de sonhos
E é praticamente impossível reclamar do cuidado técnico e do apuro visual do longa. Chazelle filmou quase tudo em locações reais, que parecem muitas vezes cidades cenográficas. Isso porque a luz que incide no filme tenta evocar um estado de sonho e encantamento, enquanto a vida real insiste em bater na porta dos dois.
As próprias cenas musicais parecem representar um universo íntimo que tem lugar na imaginação poética de Mia e Sebastian. Os dois atores possuem uma sintonia clara em cena e ainda se mostram donos de belas vozes.
O filme tem, portanto, todos os elementos que ajudam a entender as paixões que tem arrebatado por aí, tanto de público quanto de crítica. Depois de se tornar o maior vencedor de Globos de Ouro da história, e tendo acumulado uma série de outros prêmios e citações, La La Land é hoje o franco favorito a levar a estatueta da Academia de Hollywood.
Fora isso, sabe muito bem como atingir o coração do público, seja ele cinéfilo ou não. O filme começa com uma tela quadrada e descolorida que se abre para o cinemascope e explode em cores. La La Land faz jus à tradição da imagem exuberante dos musicais para embalar os sonhos daqueles que ainda sonham. É bem esse o produto que a indústria do cinema costuma vender aos montes. Mas é sempre melhor quando chega em embalagem de competência e beleza.