CINEINSITE
Terra em Transe, beleza e potência de um calvário


Algumas obras nunca serão por completo apreendidas. Esse parece ser o caso de Terra em Transe, pois, com o tempo, após décadas fora de circulação ou circulando com a montagem errada, o filme revestiu-se de uma indefectível aura cult e esnobe. O que fazer com o terceiro longa-metragem do Glauber se ele, o filme, chega todo cinquentão, garboso e afiado como flecha neste 2017 idiota, que nos apanha sem fraldas, chupando as balas de mais um motim de gabinete, executado sem qualquer disparo, a sangrar a canetadas a puta pátria despedalada?
Primeiramente não babar no uísque. Lembrar que houve mortes - nos presídios, na casa do presidente, no avião caído do supremo ministro, nas esquinas. Agora segurar o andor, que o poeta aqui é Jardel 'Paulo Martins' Filho. Liberar a onda para que Paulo desfile seu Mário, Faustino - ou Martín Fierro. Sim, já estamos a bordo de Terra em Transe e todos devem seguir com coragem. Poltrona de cinema nunca teve cinto de segurança nacional. Mas o filme ao estrear, abril de 1967, granjeou lá seus embates com a censura. Ficou de molho um tempinho, bem menos que São Bernardo ou O País de São Saruê.
Quando veio à tona, foi uma convocação ao pronto desvario, daqueles vizinhos da des-razão mesma glauberiana, convocação pelo transe (de imagens e sons) para a luta e para a não-burrice; daí o trôpego paralelo com as coisas de agora. O tempo, então e agora, enquanto lugar de paralisia e subdesenvolvimento, coincide e nos devolve a distopia de 50 anos atrás, encenada de modo ímpar no mais intrigante filme do cinema brasileiro. Agressivo e doído. Formalista e barroco. Inspirado e racional. Brilhante e soturno. Corajoso e condenado. Celebrado e detonado. Belo e opaco. Arrogante e generoso. Político e poético. Se o discurso narrativo de Terra em Transe consolida-se como monumental, o maior mérito do filme hoje, projetado em sala escura, será o de aguçar essa distopia como condição de existência, e não estágio de um povo.
Cada personagem parece portador de uma revolução própria, caminha tenso, de um lado para outro, embalando à queima-roupa o processo histórico que vai ceifar vidas, humilhar o povo e substituir quem governa. Ninguém sabe, de verdade, o que fazer na trama de poder e trapaça que, de assalto, toma um país (fictício?) de nome Eldorado. Talvez por isso a primeira palavra ouvida em tela seja "calma", fundeada por uma cantilena de vozes que dá no terraço do Parque Lage. E antes de qualquer expressão facial, tenhamos o primeiro plano de uma arma - tambores e pratos de Edson Machado solando em livre improvisação jazz. Antes ainda, do helicóptero, o mar, a mata e o suingue misterioso da música afro.
José Lewgoy é João Goulart, Paulo Autran parafraseia a ambição lacerdista. Paulo Gracindo emula um Chateaubriand-Marinho menos esperto. Glauce Rocha e Danuza Leão como que fazem a si mesmas na arte e na vida. Emanuel Cavalcante, José Marinho e Flávio Migliaccio são a plebe - ou seja, os três estão com as horas contadas. Jardel, protagonista, é Jânio de Freitas. Poeta incompetente e jornalista flutuante, perambula entre o topo e a base da pirâmide sem jamais se encontrar até o final do filme.
Assim, a observá-lo de dentes cerrados, Terra em Transe sacode o espectador. Marco zero do tropicalismo e corredor de acesso para uma arte brasileira de autoconsciência latino-americana. Fornalha da luz, montagem e banda sonora da talvez mais sofisticada mise-en-scène made in Brasil, certamente lega o que prega seu epitáfio. O triunfo da beleza e da justiça.