Busca interna do iBahia
HOME > a tarde + > CINEINSITE

AUDIOVISUAL

Zezé Motta brilha em curta baiano no Festival de Paraty

Festival de Cinema de Paraty traz o uníssono das atuações no doloroso e (quase) desesperançoso curta ‘Deixa’

João Paulo Barreto*
Por João Paulo Barreto*
‘O filme é um melodrama, mas que tem os elementos de gênero’, diz a diretora Mariana Jaspe
‘O filme é um melodrama, mas que tem os elementos de gênero’, diz a diretora Mariana Jaspe - Foto: Divulgação

Um dos destaques relacionados à presença de cineastas baianos na primeira edição do Festival Internacional de Cinema de Paraty conta com um nome cuja ressonância do peso para a cinematografia brasileira ecoa de modo sempre impactante ao tê-la em qualquer projeto. Trata-se da grande Zezé Motta, que atuou sob a batuta da soteropolitana Mariana Jaspe no curta-metragem Deixa, filme que conta, também, com o ator Dan Ferreira, que interpreta o par romântico da personagem Carmen, vivida por Zezé.

Se passando em uma tarde cuja apreensão palpável da protagonista se faz notar através da voz às vezes tensa, às vezes doce e da expressão forte de Motta, o filme coloca aquela mulher livre no limiar do retorno para uma prisão conjugal, uma vez que o marido vai deixar a cadeia naquele mesmo dia, após cumprir uma pena de doze anos.

Tudo sobre CINEINSITE em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

No processo de construção daquela tensão para o espectador, bem como em relação às razões desconhecidas que levam mulheres a permanecerem em relacionamentos abusivos, o roteiro de Jaspe utiliza elementos que remetem a um cinema de gênero que encontra referências em mestres como John Carpenter e George Romero.

>>> Tom Cruise planeja acrobacia ousada para encerramento das Olimpíadas

“Deixa é o meu segundo curta. O primeiro é Carne, de 2018, que foi um exercício de cinema de gênero e fez uma carreira que eu não esperava porque foi o meu trabalho de conclusão do curso de Direção de Cinema", explica Mariana ao A TARDE.

“Quando filmei Carne, decidi depois fazer uma trilogia que eu chamo de ‘Trilogia do Corpo’. Meu segundo filme iria ser dentro dessa trilogia de gênero de horror a partir de corpos, e seria algo protagonizado por mulheres. Comecei a estudar e alguns elementos vieram. O que eu quero tratar? Como eu vou tratar esse corpo? Eu fui estudar sobre zumbis, e tem um texto do George Romero que fala sobre o que é um zumbi ali em A Noite dos Mortos Vivos (1968). No texto, o zumbi é um corpo que não corresponde às expectativas que a gente tem dele. Do que a sociedade tem dele. E aí eu fiquei com esse corpo na mente, esse zumbi que não corresponde ao que se espera dele", relembra a diretora.

Ameaça externa

Ao trazer esse aspecto sutil e ao mesmo tempo tão marcante do cinema de Romero, Mariana Jaspe acabou por encontrar uma relação com a própria família, ao relembrar da avó, que permaneceu anos em um casamento no qual não parecia ser feliz. “Lembro de lhe perguntar a razão dela não se separar. Ela me disse que eu não entenderia. Quando estava construindo o roteiro de Deixa, veio essa história à minha cabeça e que casa muito com a ideia do corpo, do zumbi e do inquietante. E aí eu começo a construir essa história do por que essas mulheres ficam nesses relacionamentos. E eu fui entender o que minha avó quis dizer com aquilo, mas eu não tenho resposta para isso. E o filme nasce muito disso. É quando eu começo a escrever a história já com a Zezé Motta em mente para o papel”, detalha Mariana.

>>> ‘Cidade de Deus’ e mais: confira estreias de agosto nos streamings

Com elementos cênicos que, juntamente à presença de peso do casal de protagonistas, ajudam a salientar a tensão citada anteriormente com a saída do marido de Carmem da cadeia, Mariana Jaspe cria uma relação também sutil com o cinema de John Carpenter, ao abordar a ideia do elemento invasor.

“Tem uma coisa do cinema do Carpenter que eu acho que é muito maravilhoso: essa coisa do estranho que está fora. Tem sempre algo estranho que vem de fora e que não se explica. Um exterior estranho que, às vezes, se explica, mas muitas vezes, não. Mas tem esse exterior estranho. Essa divisão de, alguma maneira, dentro-fora”, ela pontua.

Melodrama e gênero

Um dos elementos a captar, isso vem do som de um telefone que abre e fecha o filme, gerando tanto a apreensão da protagonista diante da mudança que a vida irá tomar a partir daquele retorno, quanto a dúvida sobre qual será a escolha dela. No som pungente e agudo a cortar aquele silêncio pacífico, unido à expressão apreensiva de Zezé Motta, Deixa marca essa sensação de aprisionamento pelo qual passou aquela mulher vivida e que, tendo tido doze anos de liberdade com a ausência de um abusivo marido, conseguiu viver novamente e encontrou um novo amor. Agora, aquela realidade parece começar a desmoronar.

“O filme é um melodrama, mas que tem os elementos de gênero. Eu não fiz um filme de gênero, mas ele tem esses elementos. E o telefone é um item de cena fundamental, por ser essa ligação do dentro- fora que falei antes. Foi o primeiro item de cena que eu comprei, isso antes mesmo de pensar o roteiro. Eu sabia que eu ia usar esse telefone, antes de saber qual era a história ainda”, relembra Mariana, ao abordar o processo criativo de construção de uma história a partir desse objeto central.

>>> Deborah Secco anuncia novo filme de Bruna Surfistinha

“Eu gosto desses elementos que me ajudam nessa construção. O som dele e do interfone ao final, mas é esse elemento que conecta o dentro com o fora. Com esse exterior opressor, violento, seja lá o que for esse exterior, ele se conecta com esse lugar seguro que é dentro de casa. E o som, a construção sonora, é importante”, destaca Mariana.

Com sua conclusão em aberto, fica uma sensação de esperança por aquela mulher, cuja vida parece estar retroagindo, voltando ao abismo após alguns anos de luz e esperança afetiva.

“Eu não sei o que a mantém presa a esse homem. A minha avó falou aquilo de eu não entender a escolha dela, e eu acho que ela estava certa. E, na verdade, eu não sei nem se a Carmen vai aceitá-lo de volta. Porque o personagem do Dan ter ido embora não significa que o marido dela entrou na casa. A gente não sabe. O telefone ficou tocando. É um filme que não tem resposta. Não se sabe o que ela faria”, finaliza.

*O jornalista viajou a convite do Festival de Cinema de Paraty

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Compartilhar no Whatsapp Clique aqui

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

Tags

curta-metragem Dan Ferreira Deixa Festival de Cinema de Paraty Paraty Zezé Motta

Relacionadas

Mais lidas