ARTIGO E ECONOMIA CRIATIVA
A cultura é ordinária. E por isso move um país
Análise de Anderson Falcão examina dados do IBGE, Firjan, leis de incentivo e políticas históricas da Bahia


Em 2003, Gilberto Gil, então ministro da Cultura, disse que a cultura não é extraordinária, ela é ordinária. Ela está na comida, na reza, na festa, no jeito de fazer, e não numa vitrine reservada a poucos. Naquele mesmo ano, ele defendeu em seu discurso de posse uma ampliação profunda do conceito de cultura, incluindo culturas populares, afro-brasileiras, indígenas, periferias e novas tecnologias. Em outro discurso, afirmou: “Um país é a sua cultura.”
Para contextualizar essa visão, vale revisitar a fala de Gil em 2003, quando, à frente do Ministério da Cultura, defendia uma compreensão ampliada da cultura como dimensão constitutiva da vida brasileira: assista ao vídeo de Gilberto Gil.
Cultura não é um setor. É o que circula
Ana Carla Fonseca levou ao III Fórum de Inovação, Cultura e Criatividade da Bahia, no SENAI CIMATEC , uma pergunta: o que circula quando a cultura cria? A resposta dela é que circulam conhecimento, tecnologia, oportunidade, saúde, turismo, qualidade de vida e saberes artesanais. Ela propõe deixarmos de ver a cultura como um setor e a reconhecermos como uma força que atravessa toda a economia e a sociedade. Em suas palavras, a cultura cria quando circula, e circula quando cria.
O design sistêmico diz algo parecido. O território é um sistema vivo, feito de relações e fluxos, em que a saída de um processo é a entrada de outro (princípio formulado por Luigi Bistagnino , no Politecnico di Torino). Cultura é o fluxo que liga esses processos.
O que os números mostram
O IBGE contabiliza 5,9 milhões de pessoas ocupadas no setor cultural em 2024, o maior valor da série iniciada em 2014, equivalente a 5,8% do total. Em 2023, as atividades culturais tiveram receita líquida de R$ 910,6 bilhões e contribuíram com R$ 387,9 bilhões de valor adicionado.
A economia criativa amplia esse retrato. Ela reúne cultura, mídia, design, arquitetura, moda e tecnologia. Segundo a Firjan , a indústria criativa representou 3,59% do PIB em 2023, somando R$ 393,3 bilhões. Ela empregava 1,26 milhão de pessoas, 105 mil delas em design. E há um dado que conversa direto com a ideia de circulação: mais de 1 milhão desses profissionais trabalhava em empresas cuja atividade principal não era considerada criativa. A criatividade atravessa a economia inteira. (IBGE e Firjan usam metodologias diferentes, então os números não se somam.)
Política pública que funciona
A Lei Rouanet é o exemplo mais conhecido. Um estudo da FGV - Fundação Getulio Vargas, encomendado pelo Ministério da Cultura, mostra que cada R$ 1 investido em projetos da lei retornou R$ 7,59 à economia. Em 2018, o primeiro estudo da FGV havia apurado R$ 1,59. A mesma pesquisa aponta que 96,9% dos pagamentos são inferiores a R$ 25 mil, o que distribui renda. Em 2024, a lei gerou e manteve mais de 228 mil postos de trabalho.
Mas há um alerta territorial. Dos R$ 25,7 bilhões movimentados pelos mecanismos de incentivo em 2024, R$ 18 bilhões foram para o Sudeste. A criatividade também se concentra: São Paulo responde por 48,7% do PIB criativo nacional. A indústria criativa pesa 5,3% da economia paulista e 5,2% da fluminense, contra 0,6% no Maranhão. Talento e cultura tem em todo lugar. O que falta é instrumento e infraestrutura chegando a todo o território.
O Ministério da Cultura retomou a construção da Política Nacional de Economia Criativa, o Brasil Criativo. É uma oportunidade de pensar também em instrumentos para o design, com a mesma lógica de alavancagem e uma melhor distribuição pelo país.
Na Bahia, em 21 de julho de 1992 era criado os Salões de Artes Visuais da Bahia, uma iniciativa estratégica idealizada por Washington Falcão, então Coordenador de Artes Visuais, na Funceb - Fundação Cultural do Estado da Bahia , com o objetivo central de interiorizar e descentralizar a produção artística e o acesso às artes visuais no estado.
Os Salões de Artes Visuais da Bahia representam a política pública cultural continuada mais antiga do Estado da Bahia. Desde a sua fundação, o projeto passou por profundas transformações em sua nomenclatura, abrangência territorial e orçamento. Em 34 anos de história, passou da marca de 70 edições/mostras segmentadas ao longo do tempo (considerando as aberturas simultâneas regionais), com alcance aos 6 macroterritórios de identidade da Bahia, além de Salvador. Sua edição atual, financiado via Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), focado em ações afirmativas e equidade de territórios, com a seleção de 49 propostas artísticas e com auxílio financeiro individual que saltou de R$ 2 mil (em edições passadas) para R$ 10.000,00 por artista.
A cultura que circula nas ruas
Segundo estimativa do Ministério do Turismo, o Carnaval de 2026 movimentou R$ 18,6 bilhões e reuniu mais de 65 milhões de pessoas no país. Salvador teve mais de 8 milhões de foliões e R$ 2 bilhões em movimentação, e o polo Recife/Olinda, 7,6 milhões e R$ 3,2 bilhões.
No São João, Caruaru teve 72 dias de programação, mais de 4 milhões de pessoas, mais de 1.500 atrações e R$ 805 milhões movimentados. Em Campina Grande, a movimentação saiu de R$ 500 milhões em 2023 para R$ 742,8 milhões em 2025. Caruaru, Campina Grande, Petrolina e Maracanaú projetam juntas pelo menos R$ 1,83 bilhão e mais de 44,5 mil empregos em 2026.
Em outra região, o Festival de Parintins recebeu cerca de 120 mil visitantes e movimentou aproximadamente R$ 184 milhões em 2025, com projeção de R$ 193,2 milhões e mais de 30 mil empregos em 2026.
O cinema também mostra o efeito de política e talento juntos. A participação do filme brasileiro na bilheteria saltou de 3,3% em 2023 para cerca de 10% nos anos seguintes, e “Ainda Estou Aqui” somava 5,4 milhões de espectadores até março de 2025 antes de ganhar o Oscar. A música brasileira faturou R$ 3,958 bilhões em 2025, alta de 14,1%, o 16º ano seguido de crescimento, e o país subiu para o 8º lugar no ranking mundial. Nas artes visuais, a pesquisa setorial mais recente indica que obras de até R$ 50 mil representam 59% das receitas das galerias.
O paradoxo de quem cria
Quem trabalha com cultura estuda mais: 30,1% têm ensino superior completo, contra 23,4% do total dos ocupados. Mesmo assim, a informalidade é maior (44,6%, contra 40,6%), e mulheres no setor receberam R$ 2.560, contra R$ 3.898 dos homens. Um setor que produz conhecimento ainda protege mal quem produz.
Cultura é patrimônio. Acessá-la é cidadania
Os números mostram que cultura gera renda, emprego e turismo. Mas o que ela constrói de mais valioso não aparece em planilha: repertório, pensamento crítico, pertencimento, a capacidade de uma nação se reconhecer e se reinventar. É patrimônio intelectual, e ele só cresce quando circula. Gil via a cultura como instrumento preferencial de afirmação da cidadania dos brasileiros.
Acessar cultura, produzir cultura e viver dela com dignidade é exercer cidadania. Por isso o desafio do desenvolvimento é desenhar sistemas em que a cultura circule, chegue a todos os territórios e volte em forma de renda, conhecimento e vida mais viva.
"Porque a cultura cria quando circula. E circula quando cria."
*Anderson Falcão é idealizador e fundador da Oriki Design, da Plataforma Design para Vida e do Projeto Design para Vida Co_Educação.