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A Pátria sem chuteiras

Um avião vazio e uma nação frustrada: o retrato da eliminação do Brasil

Armando Avena
Por Armando Avena
O jogador Endrick
O jogador Endrick - Foto: AFP

“O futebol é a pátria em chuteiras”, dizia Nelson Rodrigues e, no domingo passado, os brasileiros calçaram as suas para jogar com a seleção. Não demorou muito, e o país inteiro estava descalço. Era de se esperar: não foi a seleção brasileira que entrou em campo naquele dia, foi uma seleção de indivíduos, cada um pensando no seu interesse particular e esperando que, por um golpe de sorte, esse interesse se tornasse o de todos.

Não era uma equipe. Uma equipe é formada quando o talento individual se submete ao objetivo coletivo; quando cada um está disposto a correr pelo outro; quando a garra de um povo está gravada na camisa. O que se viu foi o oposto: uma seleção de indivíduos, sem alma coletiva, sem garra, incapaz de representar uma nação apaixonada por futebol.

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Após a derrota, o avião que trouxe a delegação de volta ao Brasil era o símbolo desse individualismo. Apenas um jogador estava no avião; todos os demais foram cuidar dos seus interesses ao redor do mundo, sem sequer enfrentar a pátria que, sem chuteiras, chorava nas ruas.

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Os símbolos desse individualismo estão por toda parte. Estão nos jogadores que, minutos após a derrota, já apareciam tristes e chorosos nas redes sociais; estão no treinador milionário que fazia o que a CBF queria, cantava sem alma o hino nacional, mudava o time a cada partida e não dedicou sequer 10 minutos para explicar aos jornalistas a razão da derrota, apressado que estava em retomar a sua rotina internacional; estão no presidente da CBF – Confederação Brasileira de Futebol, que contratou Ancelotti por 1 milhão de dólares por mês, R$ 60 milhões por ano, abriu-lhe as portas para que ganhasse milhões em campanhas publicitárias e não estabeleceu planos, cronogramas ou metas para o seu trabalho na seleção.

Se uma empresa contratasse um executivo a peso de ouro em busca de reestruturação e resultados, e ele não apresentasse um balanço que satisfizesse os acionistas, provavelmente seria demitido. Carlo Ancelotti não mudou nada na seleção. Colocou em campo uma equipe quase igual à de 2022 e registrou um dos piores desempenhos da história do futebol brasileiro. Deveria ser demitido, em vez de ser premiado, a priori, com a renovação do seu contrato por cinco anos e em condições que lhe permitirão dirigir a seleção brasileira de longe, sem morar no Brasil e sem acompanhar de perto o Brasileirão.

E isso acontece porque, embora represente o futebol brasileiro, a CBF é uma entidade privada bilionária, que não tem acionistas e não é fiscalizada pelo poder público. É uma excrescência em termos de governança e representatividade e deveria ser reformulada pelo Congresso Nacional.

O avião que transportou a delegação derrotada de forma melancólica, transportou também a imagem de um país cujo futebol deixou de ser um projeto coletivo e tornou-se palco de interesses individuais.

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