OPINIÃO
Ruínas da Babilônia
Confira o editorial do jornal A TARDE desta quarta


História esdrúxula, sem precedentes, merecedora de vaias, foi a da submissão da Fifa a Donald Trump, ao cancelar a expulsão do jogador dos EUA, Folarin Balogun. O gesto inédito, por si só, segue o perfil de inusitado, justificando a sentença dotada de poder de síntese: a Copa 2026 é um absurdo.
Para além da trama de notícias em paradoxo (as chamadas “fait-diver”), outra característica presente na arte cênica é o espetáculo do exagero. Não bastassem a estultícia e a valentia, conjugados, capazes de garantir a desfaçatez da ação antidesportiva, tem também o show de sofismas, rodeado de sabujos.
A arrogância, no tom e no conteúdo, o desprezo pelos valores da civilização, o culto à força, em tudo lembra o chefe de estado seus antecessores Mussolini e Hitler. Enquanto dita até como deve agir o comitê de arbitragem, beneficiando sem disfarce quem devia dar-se ao respeito, o espantalho do mundo se vale de calúnia.
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O alvo da vez é o árbitro brasileiro Raphael Claus, a quem coube expulsar Balogun, na partida entre as seleções dos Estados Unidos e Bósnia e Herzegovina. Como tem sido a prática de deboche para com a verdade, o “referee” foi vítima de leviandades – na Bahia se diz “molequeira”. É de pasmar a apatia do mundo do futebol, cuja elite está na Copa, mas o tráfico de interesses entre diversos grupos sociais é forte demais para permitir rebeldia.
Cala-se o planeta diante da aberração alaranjada, de onde uma pulsão de estupidezes não para de jorrar, afrontando agora o inestimável legado do Barão de Coubertin. Não trapacear; tratar a todos na mesma medida; respeitar regulamentos e arbitragens; aprender com a derrota e confraternizar vencidos e vencedores.
Todo este tesouro, originário do século 8 antes de Cristo, em Olympia, onde hoje fica a Grécia, é atacado descaradamente: a Babilônia apenas assiste sua própria ruína. Menos mal o resultado do jogo no qual Balogun pôde atuar: Bélgica sapecou 4 a 1, eliminando a superpotência da democracia, ora acuada pelo efeito da insensatez.


