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A vida pede presença, não perfeição
Confira o artigo da psicoterapeuta integrativa e arteterapeuta junguiana


Setembro Amarelo nos convida a falar sobre valorização da vida; mas talvez valorizar a vida seja também fazer uma pergunta mais íntima: como estamos vivendo a vida que temos?
Vivemos sob a pressão de dar conta de tudo: precisamos produzir, corresponder, conquistar, cuidar, resolver - e ainda parecer bem enquanto fazemos tudo isso. Aos poucos, a existência pode se transformar em um projeto permanente de aperfeiçoamento, como se precisássemos alcançar uma versão ideal de nós mesmos para finalmente nos sentirmos suficientes.
Carl G. Jung compreendeu o desenvolvimento humano não como uma busca pela perfeição, mas como um processo de ampliação da consciência e de integração daquilo que somos; e isso inclui nossas potencialidades, mas também limites, contradições e fragilidades.
Talvez parte do nosso sofrimento esteja justamente na distância entre quem somos e quem acreditamos que deveríamos ser; e essa distância também aparece entre a vida real e a vida que imaginamos.
Joseph Campbell nos deixou uma reflexão poderosa: precisamos estar dispostos a abrir mão da vida que planejamos para podermos viver a vida que está à nossa espera.
Todos nós escrevemos algum roteiro para a existência. Imaginamos onde estaríamos em determinada idade, com quem, o que teríamos conquistado, como seria nossa família, nossa profissão, nosso corpo, nossos relacionamentos; mas, a vida não conhece os nossos cronogramas: pessoas partem; relacionamentos terminam; projetos não acontecem; o corpo muda; os filhos fazem suas próprias escolhas; caminhos profissionais são refeitos; e outros caminhos, jamais imaginados, aparecem.
Existe a dor pelo que perdemos, mas existe também um sofrimento produzido pela insistência em exigir que a realidade corresponda ao que havíamos planejado.
Talvez amadurecer envolva um luto pouco falado: o luto pela vida que não aconteceu.
Aceitar isso não significa resignação; significa parar de gastar toda a nossa energia perguntando "por que não foi como deveria ter sido?” para começar a perguntar: “Diante da vida que tenho hoje, como posso, verdadeiramente, habitá-la?”
A natureza talvez nos ensine alguma coisa sobre isso. Ela não permanece florida o ano inteiro. Existem verões de expansão, outonos de desapego, invernos de recolhimento e primaveras de renascimento.
O problema é que queremos viver permanentemente no verão - produzindo, realizando, sorrindo, florescendo; mas ninguém floresce o tempo inteiro: há momentos em que viver significa avançar; em outros, parar; há momentos de construir e outros de deixar ir. Respeitar a estação que atravessamos também é uma forma de cuidado. E é justamente quando a vida perde um pouco da cor que Viktor Frankl nos oferece outra pergunta essencial. Em vez de perguntarmos apenas o que esperamos da vida, podemos perguntar: o que a vida está esperando de nós neste momento?
Talvez não seja necessário encontrar hoje o sentido de toda a existência; às vezes, precisamos apenas encontrar sentido suficiente para o próximo passo. Pode ser pedir ajuda; recomeçar; colocar um limite; telefonar para alguém; permitir-se descansar; aceitar cuidado; ou, simplesmente, reconhecer que hoje não estamos bem.
Valorizar a vida não é obrigar alguém a ser feliz. É também criar espaços nos quais possamos admitir nossas dores sem precisar escondê-las atrás da força.
Por isso, talvez precisemos substituir uma pergunta:
Em vez de “quando minha vida finalmente será como eu planejei?”, e perguntar:
“O que ainda posso fazer com a vida que está diante de mim?”
Talvez amadurecer seja também fazer as pazes com a vida que não aconteceu para conseguirmos estar inteiros na vida que está acontecendo; porque a vida não começa quando tudo estiver resolvido. A vida está acontecendo agora; e ela não está nos pedindo perfeição; talvez esteja nos pedindo presença.