OPINIÃO
Anatomia de uma vitória épica
Artigo analisa a vitória de Lula, o papel das instituições diante da extrema direita, a fuga de Flávio e o fortalecimento da consciência cívica


Há pouco mais de uma semana da eleição presidencial, marcada por uma vitória avassaladora de Lula, uma pergunta não pode ficar sem resposta: à parte o famigerado ódio de classe, típico de países com histórico escravista, no qual se encontra inserido o bolsonarismo, uma doença sem cura, como é possível pensar que a candidatura de Flávio Bolsonaro, um delinquente e mentiroso contumaz, e agora foragido, tenha sido naturalizada pelas instituições e por quase metade da população brasileira?
Para além do calafrio ainda sentido por muitos ao pensar que ele poderia estar hoje à frente do Brasil, não fosse a reação das forças progressistas, que inclusive se tornaram modelo para nações ameaçadas pela extrema direita, a resposta tem que ser imperiosa: como os bolsonaristas raiz são zumbis, aqueles outros que apoiaram incondicionalmente o candidato Flávio, por oportunismo, má-fé ou simples ódio de classe, deveriam fazer um mea culpa e submeterem-se a um processo de reeducação cívica, sem falar da punição dos que estão perseguindo os eleitores do 13.
Só assim, agindo de cima para baixo, por meio do Ministério Público Federal (MPF) e dos Ministérios Públicos dos Estados (MPEs), ambos responsáveis por defender a ordem jurídica, o regime democrático e os interesses sociais e individuais indisponíveis, ao lado do que se chama de consciência civil, reforçada após a virada histórica, que se poderá coibir a tentativa de vingança dos pequenos e grandes abastados contra aqueles que disseram não à extrema direita.
O ódio de classe e a contradição da média brasileira
Porque o ódio de classe, manifestado no ódio a Lula e ao PT, como vem acontecendo não apenas no Nordeste, mas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e demais estados brasileiros, onde o presidente reeleito alcançou expressiva votação, nada mais é do que a amostra da barbárie de parte de um Brasil que apoia repressão, corte no orçamento das políticas sociais, isenção de impostos para empresas, congelamento do salário mínimo, maior desigualdade e exclusão.
Nada disso, no entanto, é novidade. A novidade é que, finalmente, há, no horizonte, a possibilidade de se discutir a doença do classismo brasileiro, e o advento de estudantes e sociedade civil nas ruas durante o segundo turno, movimento que anuncia-se corriqueiro daqui para frente, pode representar um contraponto ao apavorante Legislativo recentemente eleito, com um detalhe: os meios de comunicação hegemônicos, principalmente aqueles do Sudeste, terão de se posicionar, sob pena de serem taxados de omissos ou quando não de cúmplices da onda fascista.
Aliás, por falar nos meios de comunicação hegemônicos, foi risível a forma com a qual alguns jornais, televisões, rádios e sites de notícia tomaram ciência sobre quem é Flávio Bolsonaro logo após ele fugir do Brasil e se declarar “presidente eleito”: se antes do segundo turno, o filho ungido era tratado como “equivalente” a Lula, como se houvesse simetria entre os dois, agora, tornou-se um “caso de polícia”, um “bandido da política” que quase virou presidente.
O confronto dos dois Brasis e o significado histórico de Lula
Na esteira dos acontecimentos, que ainda não decantaram totalmente, há algo no ar, um odor agradável sentido inclusive lá fora, no exterior, e se pode dizer que o Brasil tornou-se referência planetária no combate ao fascismo, o que abre uma outra indagação: quanto essa atmosfera pode melhorar e contribuir para tirar a película de cegueira daquela média brasileira que tem uma autoimagem de si que não corresponde à realidade, ou seja, há um paradoxo entre a percepção de status e a realidade socioeconômica vivida por esses grupos?
Sim, a vitória de Lula, como também a reação a ela, de pelo menos uns 25%, porque a outra metade é caso perdido, o bolsonarismo, pôs em confronto dois Brasis: aquele que tem ou que passou a ter consciência de si, da sua condição de sujeito, sentimento traduzido em luta por justiça social, a ponto de criar uma verdadeira revolução para não permitir que a extrema direita vencesse, e os que querem manter os privilégios, ainda que muitos em tais grupos fantasiem serem patrões, quando, na verdade, não passam de explorados.
Em meio a tudo isso, ainda que o triunfo do domingo retrasado possa ser creditado ao medo de não cairmos novamente nas mãos da extrema direita, não se pode deixar de discutir a figura de Lula, octogenário mensageiro, porta-voz e profeta de um novo Brasil, e uma máxima se impõe, por meio do L: Lula não é um ser humano e sim uma ideia, como foram alguns libertários ao longo da história em outras partes.
A Primavera Brasileira e a onda global de resistência
Diante do cenário auspicioso, com as massas nas ruas, como se viu inclusive ontem em Salvador, muitos são categóricos em afirmar que há, talvez como jamais tenha acontecido, uma “Primavera Brasileira”. E ela vem puxando outras, dos EUA, que hoje finalizam a votação para o Legislativo que pode enfraquecer Donald Trump, aos jovens europeus, a defender nas praças a bandeira de um Estado social mais justo.
Fazendo o L, a partir do Brasil, o amor começa a vencer o ódio mundo afora.
*Raul Moreira é articulista e analista político.