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Apoiar e fortalecer mulheres como missão de vida

Confira o artigo de Letícia Belém

Letícia Belém
Por Letícia Belém
Imagem ilustrativa da imagem Apoiar e fortalecer mulheres como missão de vida
Foto: Divulgação

Você já deve ter ouvido em algum lugar que as mulheres competem entre si e que a amizade entre os homens é mais verdadeira. Pois esse mito da rivalidade feminina, alimentado pelas novelas e filmes, que reforçam o estereótipo de que as mulheres disputam a atenção masculina e os poucos espaços de destaque e status, é só mais um reflexo da violência de uma sociedade machista construída na ideia de que as mulheres valem menos do que os homens.

Mas será que é isso mesmo que acontece na prática?

Neste Agosto Lilás, mês da campanha nacional de conscientização pelo fim da violência doméstica e familiar contra a mulher, conheça a história de Conceição Gonzalez, uma empresária do ramo da saúde de Santo Antônio de Jesus, a 109 km de Salvador, que tem como missão de vida o apoio mútuo feminino e a força coletiva de mulheres que se ajudam e aumentam os espaços de poder para todas.

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Tudo começou a partir de sua própria experiência pessoal. Nascida filha única em Jaguaquara, no Vale do Jiquiriçá, e criada em uma roça em meio à natureza no município de Laje, Conceição estudou Direito na capital baiana e voltou para o interior para cuidar dos pais idosos e manter o estilo de vida simples ao qual foi acostumada.

Após advogar por poucos anos, decidiu empreender na cidade mais desenvolvida da região: Santo Antônio de Jesus. Casada com o primeiro namorado, um médico cardiologista, ela montou uma pequena clínica médica na cidade para que ele também se estruturasse no interior, com o apoio da família. E foi se preparar para isso.

Cursou uma especialização em Direito Empresarial pela PUC de São Paulo para aumentar as suas habilidades como empresária e, posteriormente, se capacitou na Fundação Getúlio Vargas em um MBA em Gestão e Saúde (Master in Business Administration).

Com muito trabalho, em quatro anos, o negócio se tornou um centro médico, e em oito anos, se transformou em um hospital de referência em cardiologia, o Incar, que possui todas as especialidades, 80 leitos, emergência, pronto-socorro, leitos de UTI, 180 médicos e outros 60 funcionários, com uma média de 20 mil atendimentos mensais para toda a região.

E mesmo com todo o respaldo técnico, enfrentou preconceitos e desconfianças de toda parte em ser uma gestora feminina no interior. Ela conta que percebia, nas entrelinhas, a dificuldade e fragilidade das pessoas em lhe enxergar como capaz.

Por estar em um ambiente corporativo, percebia que, pelo fato de ser mulher, não tinha o respeito e o reconhecimento de equivalência. “Mesmo que a gente esteja o tempo todo mostrando e provando a nossa capacidade, as outras pessoas não aceitam ou reconhecem no automático a sua administração e liderança, e muitas vezes, não dão o espaço de te escutar de verdade sem interferir”, descreveu.

Mas ao longo do tempo de gestão e de formação, e com a janela de crescimento do negócio, Gonzalez foi sendo reconhecida na cidade como um potencial de gestão não apenas em saúde. Foi convidada a participar de um diretório de classe na Associação Comercial e, depois, a assumir a diretoria de comunicação e marketing, em um ambiente prioritariamente masculino.

E através desta vivência, a convidaram a instituir o Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura, um braço feminino da Associação Comercial de Santo Antônio de Jesus, cuja missão era fomentar, promover, incentivar e apoiar mulheres empreendedoras. Na presidência do conselho, promoveu diversos cursos gratuitos de capacitação para transformar a vida de mulheres que não eram empreendedoras.

Construiu uma rede de fortalecimento de mulheres promovendo encontros entre as que já estavam na vida empresarial há mais tempo, com empresas mais robustas, para compartilhar conhecimento e incentivar as mulheres que tinham pequenos empreendimentos ou que tinham apenas o sonho de transformar a vida em realidade através de um negócio próprio.

A bandeira do empreendedorismo feminino é, para Conceição Gonzalez, a melhor forma de aumentar a autoestima, a confiança, o sentimento de pertencimento, a segurança e a autonomia financeira das mulheres para que elas não permanecessem em lares violentos por serem dependentes dos maridos, caso ali estivessem.

Com este trabalho, ela começou a ser convidada a dar palestras para as mulheres em empresas e escolas; a dar entrevistas em rádios nas épocas do mês de março, no outubro rosa, no agosto lilás e a falar em conferências sobre mulheres promovidas em ambientes públicos.

“Eu comecei a ser contagiada pela pauta feminina sob o ponto de vista da mulher, que precisa lutar muito para ter o seu espaço na sociedade, e a me sentir responsável em dar voz a essa demanda para resgatar as mulheres”, conta ela.

E sem programar isto em sua vida, passou a ser rotina ser chamada para falar sobre diversos temas em ambientes de mulheres empreendedoras, de movimentos de celebração da autoestima feminina, de conscientização, em múltiplas rodas de conversa e debates, conquistando um reconhecimento público de valor social e contribuição à sociedade.

Um dia é para falar para mães autistas, empresárias, advogadas, enfermeiras, fisioterapeutas. No outro dia, é para mulheres empreendedoras. Em outro, para mulheres da zona rural. Em outro, para jovens adultos semialfabetizados. Um tema para cada ambiente.

“Depois de percorrer todos os lugares como convidada, falando que as mulheres precisam ocupar esses espaços na sociedade, a ouvir as outras mulheres, a dar as mãos e a se unirem em um coletivo, eu comecei a me sentir muito responsável em continuar a ser essa voz de incentivo, de inspiração ou de referência para estas mulheres, como se fosse um propósito que eu nunca imaginei para a minha vida”, refletiu.

Como a presidente do Conselho de Administração do Hospital Incar, que já existe há 23 anos, e responsável pela governança corporativa e pela estratégia da gestão, ela possui 23 mulheres das 25 lideranças da instituição, que cresce a cada dia, e conhece cada funcionário pelo nome. Além de falar em diversos ambientes sobre o empoderamento feminino, o autocuidado com a saúde, o empreendedorismo e a independência financeira e a conscientização contra a violência doméstica, e a lutar para que as mulheres não sejam mais subjugadas, a empresária também ampara alguns projetos sociais para ajudar outras mulheres.

Um deles é um instituto para crianças neurodivergentes, com patrocínio para o reforço escolar e para o acesso a psicopedagogo, a fisioterapeuta, nutricionista, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e psicólogo. Outro é um projeto de freiras para crianças e adolescentes em vulnerabilidade social com cursos de ballet, música, inglês e espanhol para que não fiquem sozinhos em casa ou na rua enquanto as mães estão trabalhando. Há também um projeto de aula de vôlei para alunos de baixa renda. O outro é de uma cozinha comunitária.

Quando foi perguntada, aos dez anos de idade, o que queria ser quando crescesse, Conceição disse que respondeu que se imaginava entrando em um lugar em que ela desse “bom dia” a 400 pessoas. E quando adolescente quis fazer uma tatuagem, e ouviu de seu pai que não iria conseguir um emprego por conta disso, ela disse que respondeu que ela não precisaria pedir emprego porque ela iria gerar muitas vagas de trabalho. Premonição ou não, isso se concretizou sem que ela tivesse planejado.

“Eu sempre entendi que não adianta a gente atravessar a vida se não puder ajudar a transformar a vida das pessoas que estão ao seu redor em algo melhor”, refletiu a gestora. “Essa história de falarem que a mulher não é amiga de mulher é péssima. A minha mensagem é que a colaboração é muito mais potente do que a competição. Andar de mãos dadas é muito mais necessário e producente do que você se alijar das outras pessoas”, ensinou.

Para ela, as mulheres se ajudam e se apoiam, cuidam de todos e umas das outras e podem fazer muito mais em todos os espaços. Só precisam acreditar e terem mais incentivos de que podem sim fazer tudo isso. E você, o que pensa sobre isso? ‎

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Tags

Conscientização e Educação empoderamento feminino empreendedorismo saúde da mulher Solidariedade entre Mulheres violência doméstica

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